“Doutor, dá licença? O senhor pode prestar atenção?” Foi assim que após estar discursando por dois minutos na Alems ( Legislativa de Mato Grosso do Sul) e já ter alertado sobre silêncio, que a advogada Maria Isabela Saldanha, presidente da Comissão de Defesa das e Adolescentes da (Ordem dos Advogados do Brasil, seccional de Mato Grosso do Sul) tentou pedir atenção dos deputados da Casa para conseguir falar sobre combate à pedofilia.

A fala foi direcionada ao deputado João Cesar Mattogrosso (PSDB), que estava conversando com assessores, enquanto a advogada usava a tribuna da Casa. O alerta aconteceu na sessão dessa terça-feira (9), enquanto a advogada discursava sobre a importância do combate à pedofilia e morte da menina indígena Raíssa, estuprada e jogada de um penhasco em Mato Grosso do Sul.

“O que me fez realmente perder a paciência foi uma risada sonora dada por um grupo de homens que estava no local. Tinha uma rodinha de assessores e deputados homens que parece que estavam contando piada enquanto eu discursava. Uma atitude machista e desrespeitosa”, disse.

A advogada Maria Isabela relata que nem o treinamento de guerra da ONU (Organização das Nações Unidas) que ela fez conseguiu mantê-la calma após o desrespeito. “Porque falta de respeito é uma das piores coisas que existem, ainda mais vindo de deputados. Eu estava ali para falar. Se eles não conseguem demonstrar empatia em cinco minutos de discurso, como vão ter empatia por crianças mortas e estupradas todos os dias? Não adianta falar de família e não prestar atenção no que está acontecendo com essas meninas aqui no Estado”, argumentou.

Assim que subiu na tribuna, a advogada fez um alerta sobre o barulho na Casa. “Já que a gente está discutindo atenção, principalmente nas escolas, gostaria da atenção dos senhores”, iniciou. No entanto, o alerta foi ignorado e é possível perceber no vídeo de transmissão da sessão (confira abaixo) o barulho alto de conversa.

João César Mattogrosso

Nesta quarta-feira (10), o deputado João Cesar Mattogrosso admitiu a falha, mas relatou não ter gostado da forma como foi advertido pela convidada. “Foi uma falha minha, mas ela foi tão indelicada quando eu”.

João César disse, ainda, que é preciso respeitar a todos que vão à Casa, após ser questionado se mudaria a postura durante os discursos ao ter mulheres convidadas na Assembleia. “Só com mulheres? Não com homens, gays, convidados? Todos, né”.

Só as três deputadas ouvindo

Somente as três deputadas mulheres do total de 24 parlamentares na Assembleia ficaram sentadas ouvindo a advogada. “E no final ainda vieram falar comigo, se colocaram à disposição. A gente vê essa falta de educação dos homens com as mulheres em todos os lugares, em todas as esferas de poder”, analisa.

Convidada para falar sobre a Semana de Combate à Pedofilia, a advogada Maria Isabela Saldanha pediu atenção às crianças indígenas. “Não podemos falar em prevenção sem lembrar que há um fluxograma que decide como a rede de proteção tem que operar, para que todos os órgãos atuem de melhor forma para prevenir e combater o assédio. Em relação aos indígenas, eu gostaria de lembrar que as nossas crianças indígenas são as que mais passam por violência, e não é cultural, e ainda que fosse cultural, deveria ser extirpada. Lanço esse desafio para que seja dada atenção a essas crianças. Elas são violentadas da mesma forma e merecem o mesmo respeito. Somos o segundo país em exploração sexual”, ressaltou.

A advogada credita o episódio a mais um caso de machismo. “Uma total falta de respeito. Nenhum deputado permaneceu para ouvir”, lamentou.