Sintonia dos Gravatas: Advogada presa em operação contra o PCC é suspensa pela OAB/MS

Investigação apontava ligação entre advogados e a facção
| 03/05/2022
- 15:38
Sintonia dos Gravatas: Advogada presa em operação contra o PCC é suspensa pela OAB/MS
(Foto: Leonardo de França, Midiamax)

Denunciada pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) por integrar a Sintonia dos Gravatas do PCC (Primeiro Comando da Capital), advogada de Campo Grande teve o exercício profissional suspenso. A decisão foi publicada na segunda-feira (2), datada de 29 de abril.

Conforme a publicação feita no Diário Eletrônico da OAB/MS (Ordem dos Advogados do Brasil/Seccional de Mato Grosso do Sul), a decisão é da Secretaria de Ética e Disciplina. Foi comunicado que, conforme decisão judicial, foi aplicada sanção disciplinar de suspensão do exercício profissional à advogada Paula Tatiane Monezzi.

Já em publicação datada de 28 de abril, o Pleno Tribunal de Ética e Disciplina notificou os advogados denunciados, Bruno Ghizzi, Inaiza Herradon Ferreira, Paula Tatiane e Thais de Oliveira Caciano. Eles serão julgados no dia 20 de maio por processo disciplinar.

Sintonia dos Gravatas

O Gaeco ofereceu a denúncia contra 8 pessoas por envolvimento no núcleo Sintonia dos Gravatas, do PCC. Entre os denunciados estão presos de Mato Grosso do Sul e de outros estados, foragidos, um servidor público e também advogados, que tinham a função de ‘pombo-correio’ e ‘eram muito bem pagos para isso’, de acordo com relatos de integrantes da facção.

A denúncia foi oferecida no dia 8 de abril e trata da Operação Courrier. Conforme o Gaeco, a apuração inicial foi deflagrada para apurar a conduta de pessoas que integram ou se integraram em facções criminosas e demais delitos praticados por elas. Nos relatórios, consta que a (Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário) levou ao conhecimento do órgão a existência de planos de atentados contra agentes públicos.

Um dos relatórios, com a data de 6 de abril de 2021, fala que, em uma das celas da Gameleira, foi apreendido um bilhete contendo uma ordem para que integrantes da organização criminosa assassinem dois juízes, sendo um atuante em Uberlândia (MG) e uma mulher da 2ª Vara de Tóxicos, de Belo Horizonte, além de uma promotora, que atua na mesma vara criminal.

Outro bilhete com alvos de possíveis atentados

Na mesma data, foi apreendido um segundo bilhete, com nome de diversos servidores da Agepen-MS, acompanhados da frase: “cortar a árvore e colocar fogo — todos já rastreados”, mostrando ainda que foram feitos levantamentos da rotina destas pessoas, a fim de que elas também fossem alvos de atentados.

Com a investigação, chegou-se à conclusão de que o preso Ed Carlos Rodrigues Dias, vulgo Heitor, seria o responsável pelo bilhete. Em seguida, houve a transferência dele para o Sistema Penitenciário Federal, o que o levou a ameaçar um juiz da 1ª Vara de Execução Penal de Campo Grande, responsável pelo pedido de transferência.

O Gaeco ainda apontou que, insatisfeito com a decisão do juiz, Ed Carlos pediu levantamentos dos locais onde o magistrado reside e trabalha, já que ele pretendia se vingar. Dois meses depois, em junho do mesmo ano, sabendo que um dos líderes do grupo criminoso estava com um celular em mãos, foi solicitada uma varredura em uma cela do presídio fechado de Campo Grande.

No entanto, a vistoria do dia 1° de julho apontou que o líder regional do PCC, Edimar da Silva Santana, o Arqueiro, teria destruído o aparelho celular a fim de atrapalhar as investigações. Na mesma época, outra investigação foi iniciada, com procedimento instaurado e apurado pelo delegado Carlos Delano, da DEH (Delegacia Especializada em Repressão à Homicídios).

Advogado usou login e senha de servidor público

Anos antes, em 2019, o delegado já havia feito abordagens a integrantes de uma organização criminosa, enquanto apurava assassinatos na fronteira, o que o fez sofrer pressões e então houve o afastamento dele da Operação Omertà. Horas após o depoimento de Delano, três consultas no sistema Sigo foram feitas em nome dele, pelo então chefe do cartório da 1ª Comarca de Campo Grande, Rodrigo Pereira da Silva Correa.

Questionado, Rodrigo apontou que Bruno Ghizzi, atuante em processos de execução penal de presos ligados ao PCC, procurou o delegado para informar que ele é quem tinha feito a consulta, usando login e senha do servidor público do Poder Judiciário.

Alegando interesse em providenciar uma suposta delação do “Sintonia dos Gravatas” e negando qualquer participação, ele comentou que o “Tio Doni” é quem estaria fazendo pagamentos a advogados que integravam tal núcleo.

Força-tarefa apontou infiltração no Poder Judiciário

Em seguida, o advogado também falou de ameaças feitas do promotor de Justiça, integrante do Gaeco, entre outras autoridades da organização criminosa. Continuidade à força-tarefa, no dia 20 de julho de 2021, apontou que um PAD (Procedimento Administrativo Disciplinar) foi instaurado para apurar a conduta do servidor público, o que apontaria a infiltração do grupo criminoso no poder judiciário.

Com o avançar das investigações, foram colhidas provas orais, além da análise de dados, interceptações telefônicas e trocas de informações que comprovaram as articulações para atentados, com os envolvidos: Ed Carlos, Edimar, Cristhian Thomas Vieira - “Tio Doni”, Douglas Fonseca Silva - Pelezinho, bem como os advogados do núcleo “Sintonia dos Gravatas”, que são Bruno, Inaiza Herradon Ferreira, Paula Tatiane Monezzi e o servidor do judiciário.

Foi então decretada, a pedido do Gaeco, a prisão preventiva de 11 pessoas e também foram cumpridos mandados de busca e apreensão em 27 endereços, o que resultou na operação Courrier no dia 25 de março deste ano.

Veja também

Nos seis primeiros meses, o número de mulheres assassinadas disparou em Campo Grande

Últimas notícias