Bancos encardidos, paredes imundas, bebedouro que exige coragem do passageiro para matar a sede e um banheiro que faz qualquer um perder a vontade de usá-lo. Em mais uma matéria da série sobre os terminais de ônibus de Campo Grande, desta vez a reportagem do Jornal Midiamax visitou o Terminal Nova Bahia, que ganhou a fama de ‘o mais sujo’ da Capital. 

Obra na entrada no terminal inacabada | Foto: Nathalia Alcântara, Midiamax

A situação do terminal, que fica entre a região do Prosa e Segredo, não se difere muito do encontrado nos terminais visitados anteriormente. A placa de inauguração da estação logo pode ser vista ao passar a catraca: inaugurado em 15 de março de 2000.

Duas décadas depois, o que se relata é que o local recebeu uma mão ou outra de tinta e um início de projeto na entrada do terminal, que está inacabada e ‘esfarelando’, disseram moradores.

O Midiamax publica nesta semana uma série de reportagens sobre a situação dos terminais de ônibus de Campo Grande. Confira as matérias sobre o Júlio de Castilho e o Moreninhas.

Sujeira e abandono

Quando os passageiros falam em ‘sujeira’ não se referem à falta de limpeza no terminal, porque ela existe (funcionárias passam vassoura e pano no local), mas do aspecto de abandono e descaso marcados pelos 23 anos desde a inauguração e nenhum investimento em melhorias por parte do poder público.

Das milhares de pessoas que passam diariamente pelo local, Célia de Oliveira Fontes, de 61 anos, é rápida ao responder o que poderia ser melhorado no terminal: “Tudo”, define. Ela diz que passa pela plataforma da estação todos os dias e que há anos a situação encontrada é a mesma. 

“É bebedouro que não dá para usar, banheiro pior ainda. Uma sujeira. É o terminal mais sujo de Campo Grande”, afirma. A passageira relata que o banheiro do terminal é uma ‘missão impossível’ de se usar. Das vezes que precisou recorrer ao sanitário feminino do terminal, voltou para trás. “Passa até a vontade”, afirma.

E não é exagero dizer. Ao entrar no banheiro as paredes sujas e pichadas, mármore encardido de tão antigo, pias sem estrutura, com uma torneira e balde para quem quiser lavar as mãos denunciam o descaso. No canto onde fica o vaso, mais pichação, uma porta sem tranca e nada de iluminação. Resistindo aos furtos, a caixa com papéis para enxugar as mãos permanece trancada com uma grade. 

Mármore encardido, pia improvisada com balde e grade protegendo de furto a caixa de papel | Foto: Nathalia Alcântara, Midiamax

Elizangela da Silva, de 43 anos, é doméstica e fica até em dúvida do que reclamar do terminal Nova Bahia, diante das inúmeras coisas. “Fora os ônibus lotados, o banheiro aqui não dá para usar. É horrível. Eu evito usar, vou no banheiro do trabalho ou espero chegar em casa”, afirma.

Bebedouro vira lavatório

Um motorista que estava no local chegou a conversar com a reportagem e pontuou algumas dificuldades que passam diariamente no Terminal Nova Bahia. Dentre as reclamações, está a falta de água gelada para os passageiros. “Nesses dias de calor, não tem bebedouro com água gelada. É algo que poderia resolver”. 

Mas antes seria apenas esse o problema. O bebedouro do terminal, assim como o chão, paredes e teto, é sujo. Em meia hora que a reportagem esteve no local, pelo menos duas pessoas passaram na torneira para lavar as mãos. 

Foto: Nathalia Alcântara, Midiamax

Rita Gomes, de 73 anos, aguardava ônibus para voltar para casa e disse que pouco usa o transporte público porque conhece a qualidade oferecida aos passageiros. Ela disse que na ocasião ficou sem a carona do filho e foi embora de ‘busão’ mesmo.

Ao ser questionada se ela teria coragem de beber água no bebedouro do terminal, ela responde: “Jamais. Quando eu saio sempre levo minha garrafinha d’água. Ainda mais porque aqui não tem mais lanchonete para a gente comprar uma água ou um salgado quando está com fome”, disse.

Assim como no terminal Bandeirantes, visitado anteriormente, o terminal Nova Bahia também não conta mais com estabelecimento de vendas, apenas um vendedor ambulante.

O motorista que conversou com a reportagem disse que o local não conta com fiscalização da GCM (Guarda Civil Municipal) à noite, o que facilita o vandalismo.

Foto: Nathalia Alcântara, Midiamax

A reportagem do Jornal Midiamax solicitou posicionamento sobre as reclamações dos moradores sobre o terminal, devidamente documentado, para a prefeitura de Campo Grande, que respondeu em nota:

A Agetran informa que no terminal Nova Bahia são registrados, aproximadamente, 16500 passageiros, nos dias úteis. A Agência informa ainda que está em fase de levantamento de dados para a elaboração de projeto e orçamento e para, na sequência, dar início ao processo licitatório.

Na segurança pública, a Guarda Civil Metropolitana atua em apoio às forças de segurança, com rondas preventivas de viaturas de duas e quatro rodas no local no horário de pico. A GCM informa que a população pode também fazer denúncias para a GCM pelo telefone 153“.*

Obras anunciadas não saíram do papel

Em 2020, o município anunciou o começo de obras nos terminais Júlio de Castilho, Bandeirantes e Guaicurus. A reforma nas plataformas teve investimento de R$ 5,5 milhões e previa, além de postos da Guarda Municipal, tomadas para recarga de celular, internet e portões para fechar os terminais à meia-noite.

Outros seis terminais, entre eles o Nova Bahia, também foram anunciados, ainda em 2020, como os próximos a serem reformados, mas a promessa não frutificou.

Meses se passaram e a prefeitura celebrou contrato com a empresa Trevo Engenharia, em outubro de 2020, por intermédio da Agetran (Agência Municipal de Trânsito), responsável pelos terminais.

previsão era que tudo ficasse pronto até agosto de 2021, quando Campo Grande completaria 122 anos. O aniversário chegou, passou e nada aconteceu.

A empresa contratada pela prefeitura desistiu da obra em julho de 2021 e, ainda naquele ano, a Agetran anunciou que o município preparava nova licitação para retomar a reforma dos terminais. Mais 18 meses se passaram e até o momento nenhuma nova licitação com foco em reforma de terminais foi lançada pelo município.

Caos se estende a corredores

O caos na estrutura que atende o transporte público de Campo Grande se estende também aos corredores de ônibus, que são alvo de reclamações tanto de passageiros como de motoristas e comerciantes.

Série de reportagens do Midiamax mostrou a situação dos corredores, que custaram mais de R$ 110 milhões aos cofres públicos, alguns até com obras inacabadas.

As obras foram iniciadas em 2017, na gestão de Marquinhos Trad, e ainda não estão completamente concluídas. O reordenamento no trânsito de onde a mudança já foi implementada gerou caos e é alvo de reclamações.

Quatro novos terminais ficaram só no projeto

Como o Midiamax mostrou em reportagem publicada no início de janeiro, Campo Grande tinha a previsão de ter mais quatro novos terminais com recursos garantidos desde o PAC (Projeto de Aceleração do Crescimento) Mobilidade Urbana, que foi aprovado para a Capital. No entanto, o projeto não foi tirado do papel.

Os quatro terminais – Cafezais, Tiradentes, Parati e São Francisco – estavam no PPA (Plano Plurianual) 2014/2017 de Campo Grande, com previsão de entrega em 2015. O projeto entrou novamente no PPA com previsão de entrega até 2021, mas não foi licitado.

*Matéria atualizada às 16h para acréscimo e posicionamento da Prefeitura Municipal