Ainda na porta do Fórum, antes de começar a segunda sessão do julgamento de Jamil Name Filho, Vladenilson Olmedo e Marcelo Rios pela morte de Matheus Coutinho Xavier, de 20 anos, o pai da vítima, Paulo Xavier, falou que espera pena máxima para os acusados. O júri chega ao segundo dia nesta terça-feira (18).

Paulo Xavier foi ouvido no primeiro dia como testemunha de acusação. Sobre o depoimento, ele disse que não conseguiu descrever a sensação de estar de frente com os réus. “A sensação que a gente tem é que está em um pesadelo”, afirmou.

O pai de Matheus ainda aproveitou para agradecer o trabalho da imprensa, alegando que, desta forma, foi possível chegar ao julgamento dos acusados. “Se não fosse a imprensa, acredito que não estaríamos aqui neste dia, buscando justiça pelo meu filho”, disse.

Sobre depoimento das outras testemunhas de acusação ouvidas no plenário, Paulo Xavier afirmou que “nesses dias foi dito a verdade sobre os fatos. Sobre tudo que foi trabalhado para chegar na prisão deles”. PX ainda afirmou que isso é apenas o início para que outros crimes sejam descobertos.

“São extorsões, agiotagem, muitas outras coisas”, afirmou. “Espero que venham a elucidar, para nosso Estado ficar livre desse câncer que dominou o Estado por 40 anos”, disse ainda Paulo Xavier.

Também sobre a morte do filho, Paulo lembrou que foi horrível ouvir os últimos suspiros do filho. “Não desejo isso nem para o Jamilzinho, nem para o Vlade, nem para o Marcelo. Quando você perde um filho num acidente, é uma coisa, quando o filho morre no seu lugar é infinitamente mais terrível”, disse ainda.

Por fim, PX disse que espera a pena máxima para os réus. “Ao menos 30 anos para cada um, é o que eu espero”, finalizou.

Se emocionou no depoimento

O depoimento de Paulo Xavier foi marcado por emoção ao lembrar do filho e por relatos de que teria ‘traído’ a família Name. Além disso, também comentou sobre como foi envolvido em trama por negociação na venda de fazendas. PX era o verdadeiro alvo do atentado, que acabou com a morte do filho.

Foto: Kísie Ainoã/Midiamax

O centro do imbróglio seriam as duas fazendas que pertenciam a Antônio Augusto. “Um imputava ao outro uma dívida de dezena de milhões”, disse Paulo Xavier sobre discussões entre Jamil Name Filho e Antonio Augusto sobre as dívidas relacionadas às fazendas Figueira e Invernadinha. PX disse que ajudou Antônio Augusto a intermediar e resolver sobre a fazenda Figueira.

Porém, conforme relatado em depoimento do delegado Tiago Macedo, mais cedo no júri, Jamil Name e Jamil Name Filho entenderam que PX seria ‘traidor’ e que essa seria a motivação para o atentado – que acabou atingindo o alvo errado.

“Eles acharam que eu tinha passado para o lado do Augusto, mas eu estava focado nos meus estudos”, contou PX, explicando que não atendia às ligações na época, pois estudava para a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). Ele relatou que se aposentou e queria fazer um concurso para Rondônia. “Eu não sabia, porque que estava focado nos estudos”.

Ainda explicou que Augusto ficou internado em São Paulo e Vladenilson Olmedo, o Vlad – que também é réu no julgamento -, ia até a sua casa a mando de Name para insistir que ele convencesse Augusto a vender a fazenda Invernadinha para Jamil. “Mas na realidade ele queria saber quando Augusto viria para Campo Grande”, depois disso bloqueou Vlad no celular e não o atendia mais em casa.

Name teria contratado hacker para localizar PX

Ao não ser mais atendido por PX, Vlad contratou um hacker para achar PX. Na época, o hacker se passou de gerente de banco, pediu os dados bancários e PX acreditou. Depois, a tal ‘gerente’ do banco queria marcar um encontro, mas tinha que ser em local ermo, pois ela disse que era casada. Foi quando PX não aceitou ir, porque estava focado nos estudos.

Assim, o hacker disse: “Não sou gerente nada, fui contratado para te localizar e as pessoas me ofereceram R$ 5 mil para te localizar. Se você me pagar os R$ 5 mil, eu te falo o número da pessoa que queria sua localização”, explicou PX durante depoimento, que achou que era golpe e ficou tirando onda.

Após o crime, PX procurou o hacker, contou o que aconteceu e pediu o número do contratante para localizá-lo. “Aí ele verificou a veracidade dos fatos e me deu o número da pessoa. Passei para a delegacia de Homicídios, que localizou a pessoa de Eurico. Ele contou quem eram as pessoas que tinham interesse na minha localização”, afirmou.

PX contou ainda que Jamilzinho afirmou que tinha várias pessoas, não só de Campo Grande, mas também do Paraguai, para assassinatos.

Dia do crime

Pai de Matheus relatou que, no dia do crime, Vlad teria dito que Name Filho queria falar com ele. Então, foi, já que, segundo PX, Vlad sabia de todos que iam morrer e queria descobrir se ele tinha informação de quem teria assassinado seu filho.

Então, Jamilzinho chamou PX para conversar longe do Name Pai em outra sala, onde também estavam Marcelo Rios – terceiro réu – e Vlad armados com pistola na cintura e disse: “Aconteceu isso aí e vou te dar um dinheiro para sair de Campo Grande. Aí ele me deu um pacote em que continha 10 mil reais, você sai, enterra seu filho e vai embora”. Tudo segundo depoimento de PX ao Júri.

Ainda conforme o relato do pai de Matheus, ao afirmar que teria que falar com a polícia, Jamilzinho o mandou não falar com ninguém e, quando chegar, em qualquer lugar, era para entrar em contato com Vlad. Nesse momento, Vlad passou um novo número de telefone, pois vivia trocando. Depois lhe ofereceu água em uma garrafa. PX disse que suspeitou e percebeu que a garrafa estava ‘suada’, mas não havia saído da geladeira e Jamilzinho insistia para que ele bebesse.

Notou ainda que a garrafa não fez barulho de que havia aberto o lacre naquele momento. Então se apressou para ir embora. “Falei que tinha que ir e aí combinei que assim que enterrasse [o filho] ia embora”.

Questionado sobre José Moreira Freires e Juanil, PX foi curto ao dizer que eles não tinham nada contra ele. “Matadores de aluguel contratados pela família Name”.

“Que me matassem doutor, mas não matassem o meu filho”, disse PX direcionando a fala aos advogados de defesa dos réus.

Choro ao lembrar de socorrer filho

Com a voz embargada ao falar do filho e relembrá-lo como “menino de ouro”, Paulo Xavier, pai de Matheus Coutinho, assassinado no seu lugar, contou em depoimento no Tribunal do Júri, nesta segunda-feira (17) como foi o último dia até os últimos minutos com o filho.

Ouvido como informante por ser pai da vítima, Paulo disse que naquele dia estava de fone de ouvido estudando e pediu para Matheus buscar o irmão na escola. Uma mulher que trabalhava na casa disse que ouviu barulho que parecia de tiros e que seriam na caminhonete. Quando PX saiu para ver se era a dele, encontrou o filho baleado e muito sangue.

“Dirigia com uma mão e com outra segurava o corpo do meu filho. Com uma mão segurava ele, conversava com ele, ele ainda respirava, gemia”, lembrou com a voz trêmula, segurando as lágrimas.

Em seguida, pegou a avenida Afonso Pena, passou pelo canteiro central e ainda perto da Santa Casa falava com Matheus. “Meu amado filho ainda respirava com dificuldade e eu dizia para ele, eu dizia resista, resista”, contou, gesticulando como o sangue saía pela boca e nariz de Matheus. “São situações que não esqueço nenhum segundo. Meu amado filho naquela situação”, lamentou.

Disse que, ao chegar ao hospital, o filho já não estava respirando. “Eu falava ali na frente, salva o meu filho. Eu vi que um balançou a cabeça negativa, mas disse vamos levar. Eu fiquei esperando porque não podia entrar, logo veio uma psicóloga falando que ele tinha falecido”.

Traição e sentença de morte

Delegado Thiago Macedo durante júri. (Foto: Kísie Ainoã / Midiamax)

O depoimento de PX sobre a motivação do crime é semelhante ao relato do delegado Thiago Macedo, que explicou como foram as investigações também durante depoimento no julgamento na tarde desta segunda-feira (17).

Segundo depoimento do delegado, após os crimes, as investigações foram levantadas e confrontadas com PX, que seria a vítima, depois foi feito um apanhado geral e levantamento de outros inquéritos policiais.

“Com tudo isso, concluímos que havia desarmonia de Jamil Name, Jamil Name Filho com o sr Antônio Augusto e o sr ‘PX’ envolvendo questões pertinentes da fazenda Figueira, que houve imbróglios jurídicos no passado e o comportamento de PX, por ter passado a trabalhar com o sr Augusto. Então, a motivação seria uma espécie de traição”, disse, informando ainda que em relação à fazenda, são vários imbróglios, situações de arrendamentos e contestação da procuração que poderia resultar em um avalanche jurídico.

O delegado explicou que a relação de PX com os Name iniciou em meados de 2008, quando após sair do Presídio Federal foi procurado por Vlad e apresentado a Jamil Name Filho. PX trabalhava como segurança particular na época. O delegado ainda lembrou de um episódio em 2013 em que PX fazia a segurança de Jamilzinho em um bar que estaria presente e houve desentendimento com Marcelo Colombo.

A relação com a família Name perdurou até meados de 2013, quando passou a prestar trabalhos para Augusto, inclusive era responsável por escalar seguranças para a fazenda.

“Toda a operação Omertà revelou que a família Name, pai e filho, tinham modo peculiar de resolver os problemas, tanto no campo negocial quanto nas relações. Podemos citar a Casa das Armas que foi tomada mediante extorsão. Sempre os devedores eram pressionados com bastante ameaça e bastante temor, muitas vezes as reuniões eram realizadas na própria residência do Jamil Name, na presença de capangas e seguranças. Então, acreditamos que essa rivalidade por conta da mudança de lado e problemas envolvendo a fazenda Figueira se harmonizam muito nos padrões verificado nos acertos de contas que a gente se deparou durante a investigação”, detalhou o delegado.

Execução de Matheus

O crime aconteceu na Rua Antônio Vendas, no Jardim Bela Vista, no dia 9 de abril de 2019. O relato é de que o crime teria ocorrido mediante orientações repassadas por ‘Vlad’e’ e Marcelo Rios, a mando de Jamil Name e Jamil Name Filho.

Naquela noite, vários tiros de fuzil AK-47 foram feitos contra Matheus. No entanto, os criminosos acreditavam que dentro da caminhonete estava o pai do jovem, que seria o verdadeiro alvo dos acusados.

Também segundo as investigações, o grupo integrava organização criminosa, com tarefas divididas em núcleos. Então, para o MPMS, Jamil e Jamil Filho constituíam o núcleo de liderança, enquanto ‘Vlad’e’ e Marcelo Rios eram homens de confiança, ‘gerentes’ do grupo.

Já Zezinho e Juanil seriam executores, responsáveis pela execução de pessoas a mando das lideranças. Assim, meses depois, os acusados acabaram detidos na Operação Omertà, realizada pelo Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubo a Bancos, Assaltos e Sequestros) e pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial Especial e Combate do Crime Organizado).