Os passos estavam apressados na faixa de pedestres, enquanto uma mão segurava a bolsa e a outra se movimentava exatamente igual ao olhar: firme e em linha reta. No corpo, calça jeans e camiseta branca básica, além de um colarzinho brilhoso e tênis. E os cabelos? No calorão de Campo Grande, por serem longos, estavam presos em um rabo clássico… Sem a imagem, com qual idade você definiria esta pessoa? E o questionamento vai além: qual é o estereótipo de um idoso? Muito se fala dos millenials ou geração Y e Z, porém, o envelhecimento do mundo faz com que seja necessário, cada vez mais, entender a geração prateada ou baby boomers, como são conhecidos os 50+.

A mulher descrita acima é integrante desta geração. Prestes a completar 60 anos, Tulia Hildebrando, foi abordada pela reportagem na Rua 14 de Julho, região central da cidade. De início, já mostrou que é vaidosa e ressaltou que os fios embranquecidos se tratam mais de uma questão genética do que idade. Sendo assim, disse que não queria mostrar o rosto. No entanto, conversar, “conversou que é uma beleza”.

Ao ser questionada sobre suas vivências e como se comportou no período da pandemia, contou que é casada e mãe de duas mulheres, foi professora por muitos anos e é dona de casa atualmente. “Vivo bem com minha família. Sobre a pandemia, busquei pesquisar muito as notícias e verificar o que era ou não fake news. Acho que antes tinham notícias falsas, mas, a gente nem percebia tanto. E agora, com a pandemia e a política, aumentaram muito e percebemos mais. Mas, tomei as vacinas, me cuidei e acho que as pessoas precisam de mais respeito em geral e isso inclui sim os mais velhos”, opinou.

Marilena ajudou da neta recentemente e diz que é uma pessoa organizada financeiramente. (Nathalia Alcântara, Midiamax)
Marilena ajudou a neta recentemente e diz que é uma pessoa organizada financeiramente. (Nathalia Alcântara, Midiamax)

Sobre tecnologia, ressalta que refletiu muito recentemente e até aponta um contrassenso. “O meu celular quebrou e eu estava pensando nisso. Ia imediatamente comprar outro e, do nada, pensei: o celular está velho e por isso não tem mais uso, não presta. E é exatamente assim que as pessoas em geral pensam e falam… que velho não presta, que se está velho não funciona mais. E não deveria ser assim né, é um contrassenso do que a gente quer para a sociedade, para o mundo”, argumentou Hildebrando.

Outra que relatou as vivências foi a costureira Marilena dos Santos, de 67 anos. Mãe, avó e bisavó, diz que recentemente cedeu o lar para a neta e cuidava da bisneta, enquanto a mãe da criança estava na faculdade. “Agora, graças a Deus, ela conquistou o espaço dela e eu fiquei feliz pela conquista, já que adquiriu casa própria. Eu sou uma pessoa que não dependo de ninguém, faço as minhas costuras e me considero uma pessoa organizada financeiramente. Agora, faço roupas só para família mesmo”, comentou.

Eletricista diz que jovens precisam aprender com os mais velhos.  (Nathalia Alcântara, Midiamax)
Eletricista diz que jovens precisam aprender com os mais velhos. (Nathalia Alcântara, Midiamax)

Na família do eletricista Marcos Antônio dos Santos, de 49 anos, o irmão é quem faz parte da geração prateada. Ao contrário dos depoimentos anteriores, não tinha reserva financeira e precisou de cuidados na época da pandemia.

“Ele ficou desempregado e doente. Foi uma época bem complicada e eu o ajudei financeiramente, mas, é uma pessoa que soube lidar com a doença. Tanto ele quanto eu conversamos sobre isso. As pessoas estão vivendo cada vez mais e acho que os jovens é que precisam aprender algo com isso. Muitos não sabem brincar, se divertir, era algo bem diferente na nossa época. Sinto que era mais leve. Hoje está tudo mais perigoso”, argumentou.

Qual a necessidade de se falar dos mais velhos?

A população brasileira está envelhecendo…

Geração prateada (Nathalia Alcântara, Midiamax)
Brasil está na categoria de envelhecimento moderado. (Nathalia Alcântara, Midiamax)

Conforme especialistas, atualmente, o Brasil se encontra na categoria de envelhecimento moderado, já que as taxas de fecundidade e mortalidade estão em queda. Nesta etapa, existe uma proporção muito importante de jovens, porém, a população idosa começa a aumentar. Isto significa que, em duas décadas, a população brasileira será considerada envelhecida.

E este fato é uma conquista para a humanidade, principalmente quando se fala em desenvolvimento, apontando também melhorias nas condições sanitárias, nutrição, além de avanços da medicina, cuidados com a saúde, no ensino e no bem-estar econômico.

Acompanhando todos estes avanços, está o físico aposentado Sérgio Luiz Piubéli, de 69 anos. Após 35 anos lecionando na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), em Campo Grande, conseguiu a tão sonhada aposentadoria, onde planejou ter uma boa qualidade de vida, viajar de moto, retomar uma antiga paixão pela fotografia, entre outros sonhos.

Professor recebeu avalanche de perguntas ao se aposentar: ‘E a depressão?’

Sérgio trabalhou como professor de física por 35 anos na universidade. (Arquivo Pessoal)
Sérgio trabalhou como professor de física por 35 anos na universidade. (Arquivo Pessoal)

“Eu ficava contando os dias e horas para me aposentar e, quando saiu no Diário Oficial, chamei os meus melhores alunos e abri o armário carregado de livros, dizendo a eles que escolhessem e levassem o que quisessem. Neste momento, tive surpresas, já que me perguntaram: O que vai fazer agora? E a depressão? Será que vai conseguir professor? E todo aquele avalanche de perguntas, no sentido de que se aposentar é morrer”, relembrou Sérgio.

No entanto, segundo ele, a experiência foi totalmente diferente do que os alunos temiam. “Eu entendi que, na vida, nada é eterno no universo, estamos em constante mudança. Ou seja, os sistemas físicos ou não tem um início, meio e fim. E ali, quando vi meu nome no Diário Oficial, foi um reconhecimento. Eu entendi que, a partir dali, estava sendo autorizado, pelas leis sociais, a ter direitos, como receber uma aposentadoria e não ter a necessidade de trabalhar mais”, argumentou Sérgio.

Sérgio já fez inúmeras viagens de moto após a aposentadoria e continua viajando. (Arquivo Pessoal)
Sérgio já fez inúmeras viagens de moto após a aposentadoria e continua viajando. (Arquivo Pessoal)

Na ocasião, além dos antigos alunos, Sérgio diz que também foi surpreendido por uma psicóloga, a qual disse que iria o “preparar para aposentadoria”. “Ela disse no sentido de que eu poderia ter uma depressão, mas, eu agradeci e falei que não tinha necessidade daquelas orientações. No mesmo dia, lembro que abri a janela da minha sala e consegui ver a minha moto estacionada ali, no corredor. É um moto grande, que eu já tinha adquirido e feito uma programação após a aposentaria. Queria viajar de moto, então, a minha cabeça estava fervilhando naquelas ideias”, contou.

Neste sentido, Sérgio diz que o primeiro dia de aposentado já foi maravilhoso. “Eu peguei aquela publicação do Diário Oficial e preguei na parede, como um reconhecimento. E isso foi muito prazeroso, mostrando a vida nova dali pra frente. Eu então acordei, escovei os dentes e olhei no espelho. Eu tinha todo o tempo do mundo para tomar o meu café. Sem atropelos, sem cumprir horários, fazendo as coisas como o meu corpo e a minha mente mandavam”, comentou.

Atualmente, Sérgio diz que está curtindo os netos em Campo Grande (MS) e pretende ensiná-los a andar de moto. (Arquivo Pessoal)
Atualmente, aposentado diz que está curtindo os netos em Campo Grande (MS) e pretende ensiná-los a andar de moto. (Arquivo Pessoal)

A partir dali, os demais dias foram e são de muitas aventuras. “Rodei muito de moto, viajei para o Chile, Argentina, Uruguai e continuo rodando, mesmo beirando os 70 anos. Agora, inclusive, estou olhando para minha moto e já preparando a próxima viagem. Eu construí a minha vida, organizei o financeiro e também cuido da saúde. Tenho uma boa alimentação, durmo bem, faço pilates e coisas que gosto, como pilates, dança e ainda tomar meu chope tranquilo. É a melhor fase da minha vida”, avalia o aposentado.

Para ter ainda mais conforto neste período, Sérgio explica que, dez anos antes de se aposentar, também optou pela previdência privada e fez uma aplicação no banco, de nome VGBL (Vida Gerador de Benefício Livre). “Quando aposentei, ao invés de usar como adicional da aposentadoria, fiz toda a retirada para viajar. Agora, parece que faz uns 50 anos que estou aposentado, só curtindo mesmo. Não julgo as pessoas, mas, quem se recusa a se aposentar, parece não ser algo correto. É preciso deixar a cadeira e dar ao outro, já que já teve o reconhecimento da sociedade de que já cumpriu os seus deveres. É hora de fazer amizades, de curtir a família e, mesmo que goste do que faz, não será algo eterno”, opinou.

Expectativa de vida só aumenta, ressalta historiador

A cada dois ou três anos a expectativa de vida só aumenta. Aliás, foi divulgado por alguns cientistas que a geração que vai viver mais de 100 anos já nasceu e a pessoa que vai chegar até os 150 anos também. Por outro lado, baseados em estudos, outros cientistas negam e dizem que o máximo seria algo em torno de 130 anos. A discussão sobre estes fatos ainda é recente, porém, já mostra que o envelhecimento precisa estar em pauta e também temas relacionados a ele.

Historiador Dr. Eronildo Barbosa. (Henrique Arakaki/Jornal Midiamax)
Historiador Dr. Eronildo Barbosa. (Henrique Arakaki/Jornal Midiamax)

Segundo o historiador Eronildo Barbosa da Silva, que buscou pesquisar muito sobre o assunto recentemente, os medicamentos resolveram parte importante das doenças, incluindo pessoas mais jovens. Com isso, aliado ao cuidado com o corpo e a boa alimentação, a expectativa de vida cresce cada vez mais.

“Estas doenças, que matavam até pessoas mais jovens, foram resolvidas com a evolução da indústria farmacêutica. Lembro que, na década de 60, morava no nordeste e falavam que a expectativa de vida era, no máximo, 50 anos. Hoje, no Brasil, estamos em média com 77 anos para os homens e 80 para as mulheres. E também li que mais de 11 mil pessoas passaram dos 100 no Brasil, de acordo com o IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística]”, afirmou ao Jornal Midiamax.

Poder aquisitivo da geração prateada

Multimídia/Jornal Midiamax
(Multimídia/Jornal Midiamax)

O poder aquisitivo da geração prateada é notável. Experientes, com bom gosto e condição financeira favorável, os idosos possuem uma diversidade de desejos. Segundo Bruno Simão, que é vice-presidente de clientes, crescimento e marketing do Banco Mercantil, muitos ainda esperam comprar a casa própria, ter um carro, ajudar nos estudos dos netos, enquanto outros falam em fazer uma faculdade, morar em outro país ou viajar.

“Muitos vêm se organizando financeiramente há anos, mantendo uma reserva mensalmente ou aplicando o em diferentes investimentos. Leva vantagem quem se planejou. A educação financeira é uma das capacidades mais importantes na vida moderna. É importante saber se planejar, saber o quanto gastar, qual a capacidade de consumo não só para o hoje, mas principalmente para o amanhã. Nessa idade, é ainda mais importante olhar para frente. É preciso saber quais são de fato as necessidades, quais são sonhos e como realizá-los dentro do orçamento. Isso sem esquecer de contar com os imprevistos, comuns em nossa vida”, argumentou Simão.

Atuando diretamente com os funcionários na instituição financeira, o vice-presidente ressalta que todos são preparados para orientar os clientes sobre os melhores produtos e serviços, como devem lidar com o crédito e o quanto soluções podem ser eficazes, sem comprometer a renda.

Muitos idosos estão fazendo uma reserva mensal ou aplicando o dinheiro em diferentes investimentos. (Graziela Rezende/Jornal Midiamax)
Muitos idosos estão fazendo uma reserva mensal ou aplicando o dinheiro em diferentes investimentos. (Graziela Rezende/Jornal Midiamax)

‘Economia prateada’ movimenta cerca de R$ 2 trilhões ao ano no Brasil

Este segmento da economia, também conhecido por “mercado sênior”, “economia da longevidade” ou “oceano prateado”, é voltado ao público 50+, que pode embalar o crescimento econômico e criar empregos, bem como trazer inúmeros impactos positivos na sustentabilidade das políticas sociais.

Conforme voltada aos “prateados”, em Mato Grosso do Sul, realizada pelo Sebrae-MS (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), a expectativa é de que em 2060 a porcentagem da participação da população de 50 anos ou mais, envolvida no empreendedorismo da região Centro-Oeste, será de pouco mais de 40%.

O número também representa o “empreendedorismo dos 50+” no Estado. Nos últimos anos, houve um aumento significativo dessa população no Estado, ainda de acordo com o IBGE, de 2022, apontando que população idosa, em Mato Grosso do Sul, cresceu cerca de 16,2% nos últimos dez anos.

Esperança de vida está crescendo, aponta IBGE. (Freepik/Reprodução)
Esperança de vida está crescendo, aponta IBGE. (Freepik/Reprodução)

Ao Jornal Midiamax, Fernando Galina, que é do setor de divulgação e disseminação de informações do IBGE, disse que dados mais recentes serão divulgados em breve.

“Houve um aumento desta população de 55 anos ou mais. Isto quer dizer que a esperança de vida vem aumentando. A exceção, claro, são as pessoas que faleceram na pandemia, mas, a princípio, a esperança de vida está crescendo pela própria evolução da medicina e dos meios de prevenção que estão presentes na sociedade”, argumentou.

Assim, com preferências e gostos específicos, sempre buscando novas experiências, produtos de qualidade, conforto e praticidade, entre outros quesitos, a população 50+ é o alvo de diversos setores, da saúde ao turismo e da alimentação ao lazer, por exemplo.

Em outra pesquisa, realizada neste ano tanto na Capital sul-mato-grossense quanto em Dourados, na região sul do Estado, pelo em parceria com o IPF-MS (Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento Fecomércio), foi revelado que 60,19% dos consumidores 50+ são mulheres, e 39,81% dos consumidores 50+ são homens.

Para abrir o próprio negócio aos 50+, 58,68% disseram que tomaram essa decisão porque “sempre tiveram vontade de empreender”. E, para o empresariado 50+, os homens ficam com a maior porcentagem: 60,71%, enquanto as mulheres são 39,29%. Já a área de atuação de preferência para começar um negócio é voltada para o comércio com 46,5%, seguida por 44,4% o setor de serviços, 6,12% atuam na indústria e 2,98% na agropecuária.

Você é deste público? Qual é o seu objetivo?

“Como todo ato de empreender, começar um negócio após os 50 anos exige planejamento. É preciso avaliar como as empresas e empreendedores atuam. Muitas vezes, o empresário 50+ trabalhou anteriormente com cargos de gerência e, por isso, acredita que já possui todo o domínio para abrir um empreendimento. Porém, é necessária uma readequação e atualizações para algo novo”.

Aqueles que estão ingressando na economia podem buscar cursos, consultoria e capacitações. (Freepik/Reprodução)
Aqueles que estão ingressando na economia podem buscar cursos, consultoria e capacitações. (Freepik/Reprodução)

O esclarecimento é do economista e analista-técnico do Sebrae, Paulo Maciel. Ele ressalta que o estudo levanta pontos de atenção e oportunidades para empresas e empreendedores que atuam no mercado. Já a também analista-técnica da instituição, Roberta Serafim, diz que cursos que desenvolvam o lado empreendedor, além de consultorias e capacitações, em que são feitos planos de negócios, podem ajudar e até estabelecer novas parcerias para aqueles que estão ingressando na economia prateada ou já fazem parte dela há algum tempo.

Dicas aos ‘prateados’ que buscam estabilidade financeira

Mais conectados do que nunca, retomando aos estudos, se recolocando no mercado de trabalho, cuidando da saúde física e mental, conhecendo um novo amor e empreendendo, por exemplo. É o que buscam, atualmente, muitos ‘prateados’. Mas, grande parte destes projetos depende de uma estabilidade financeira.

Você é desta geração e ainda está em busca de despertar todo o seu potencial? O Banco Mercantil, que alcançou a 5ª posição no ranking de pagamentos de benefícios do INSS (Instituto Nacional de Seguro Social), com 1.580.956 beneficiários ativos, ressaltando que esta faixa etária responde, atualmente, por 75% dos clientes ativos, em um total de mais de 4 milhões de clientes em todo país, endossa algumas dicas, tais como:

  • Buscar educação financeira para entender mais sobre organização do orçamento e economia.
  • Fazer um planejamento financeiro para realizar sonhos e ter qualidade de vida.
  • Definir metas financeiras claras e criar um orçamento realista.
  • Explorar opções de investimentos, como fundos de aposentadoria, entre outros.

Nesta reportagem, você leu sobre:

  • Qual é o estereótipo de um idoso?
  • Como o público 50+ se comportou na pandemia?
  • Por que precisamos falar dos mais velhos?
  • Em que situação está o Brasil quando se fala em envelhecimento?
  • Como é ou pode ser a vida de um aposentado que se planeja financeiramente?
  • Qual o motivo da expectativa de vida crescer cada vez mais?
  • Qual é o poder aquisitivo da geração prateada?
  • Como a população 50+ está envolvida no empreendedorismo?
  • O que deve fazer a pessoa que quer empreender e está inserida neste público?
  • Dicas aos ‘prateados’ que buscam uma estabilidade financeira?

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