É no pátio da escola, perto das amarelinhas desbotadas e pintadas ao chão, que houve a primeira descoberta. Enquanto brincavam, crianças pulavam e corriam por cima de fossas, demonstrando a falta de segurança hídrica. A realidade, no entanto, começa a mudar e faz parte de uma ação para universalizar o acesso ao serviço de esgotamento sanitário, em 116 escolas públicas de Campo Grande.

O problema ambiental foi exposto na comunidade Tia Eva, com a visita de topógrafos, técnicos e início das obras, no dia 4 de outubro deste ano, tanto na creche como na Escola Estadual Antônio Delfino Pereira, ambas localizadas na Rua Eva Maria de Jesus, Jardim Seminário.

Imagem mostra extensão da obra para retirada de seis fossas sépticas na creche. Foto: Graziela Rezende/Jornal Midiamax
Imagem mostra extensão da obra para retirada de seis fossas sépticas na creche. Foto: Graziela Rezende/Jornal Midiamax

De nome Escolas Saneadas, as unidades terão um selo garantindo que ali é um local “100% saneado” e também serão feitos estudos para mostrar a importância para saúde e a sociedade como um todo, contribuindo com o futuro das crianças da cidade e, consequentemente, do país.

“O objetivo é, nestes locais, priorizar as crianças. Sabemos que o saneamento, ligado à educação, traz um retorno muito bom, principalmente porque é o local onde a maioria delas fica o dia todo. Na comunidade quilombola Tia Eva, nossas equipes viram a presença de seis fossas sépticas, bem em uma área de circulação de crianças, então, este projeto vai poder mudar a realidade destas escolas”, afirmou a coordenadora de operação da Águas Guariroba, Isadora Andrade Silva, de 28 anos.

Da Tia Eva, concessionária leva projeto para outras escolas

Imagens: Graziela Rezende/Jornal Midiamax

Da comunidade Tia Eva, a concessionária fala que dará o ponto de partida para mais centenas de escolas e pretende beneficiar cerca de 50 mil estudantes da capital sul-mato-grossense, além da construção de cerca de 27 mil metros de rede de esgoto.

Nos três últimos meses do ano, a concessionária inclusive faz levantamento da quantidade de escolas, número de alunos e, desta forma, monta um cronograma de trabalho para 2023.

“Estamos indo diretamente nas escolas, verificando os casos, como este da creche, onde havia fossa em uma área de circulação de crianças. Localizamos seis ao todo, é uma questão ambiental, a qual inclusive não tínhamos obrigação contratual, ou seja, essa desativação não é um serviço da concessionária. E foi só começar a obra que logo todos sentiram o odor, então, estamos também minimizando todas estas questões sanitárias dentro destas escolas”, argumentou Silva.

Segundo a coordenadora, a Águas Guariroba, legalmente e contratualmente, não possui obrigação de tamponar fossas. “Este é um serviço que a concessionária está oferecendo e que deveria ser feito pela escola, seja ela do município ou do estado. Mas, estamos antecipando não só este trabalho como outros. São inúmeros projetos sendo executados pela concessionária”, explicou.

Ação antecipa em 10 anos o Marco Regulatório do Saneamento

A antecipação, a qual Isadora se refere, é o marco regulatório do saneamento, que estipula o ano de 2033 para a universalização do esgoto em 100% de Campo Grande.

“Nossa previsão é antecipar este trabalho em dez anos. A nossa priorização é nestes pontos, que a gente enxerga como mais críticos, então, o projeto das escolas saneadas deve ter o prazo de cerca de dois anos”, avaliou.

Diretora mostra que escola foi a primeira a ganhar o selo da Águas Guariroba. Foto: Graziela Rezende/Jornal Midiamax
Diretora mostra que escola foi a primeira a ganhar o selo da Águas Guariroba. Foto: Graziela Rezende/Jornal Midiamax

Até o momento, conforme divulgado pela Águas Guariroba, Campo Grande tem 62% das escolas com água e esgoto, 33% somente com água e os outros 5% ainda estão indefinidos.

“Do nosso projeto de 100% de universalização do esgoto estamos em cerca de 66%, implantando rede nos bairros e agora viemos com este olhar de priorizar as escolas também. São todas iniciativas que alavancam a curva de expectativa, principalmente em classes que não acompanham o nosso trabalho, como a D e E”, ressaltou a coordenadora.

Há um ano e meio, Isadora conta que assumiu o “desafio do saneamento”. “Sou engenheira química, com especialização em saneamento. Antes deste cargo, fui trainee na empresa e agora estou muito empolgada com este projeto. O saneamento faz toda a diferença, tanto para a criança ter uma qualidade de água na casa dela como na escola. O índice está avançando e Campo Grande já se destaca, de maneira positiva, quando se fala no índice de perdas e também na cobertura da água“, afirmou.

Na prática, como funciona?

  • Após a descoberta das fossas, concessionária fez levantamento das escolas localizadas no município de Campo Grande.
  • Com os dados, está sendo apurado quais já possuem matrícula na rede e, desta forma, é possível saber onde há e onde não há água e esgoto.
  • Setor comercial e topógrafos fazem visitação nestes locais e ajudam a montar o cronograma de ação.
  • Obras começam a ser executadas e objetivo é concluir 100% das escolas que ainda não foram saneadas.

Assista ao vídeo publicitário feito pela concessionária:

“Todo este trabalho tem como foco a universalização da cidade inteira, porém, estamos antecipando em 10 anos, iniciando nas escolas públicas e dando prioridade a algo que é educativo. E foi justamente nesta visitação [Comunidade Tia Eva] que iniciou o projeto. E o legal é que partiu da diretoria da concessionária, foi justamente uma provocação de irmos nas escolas, falar sobre saneamento com a Guaribinha e aí começaram vários questionamentos”, explicou.

Das indagações, ainda segundo a coordenadora, a concessionária entendeu que precisava de novas intervenções: “A Guaribinha, que é a nossa representante da educação, uma professora, que é uma capivara, vai nas escolas falar de saneamento e aí a gente começou a questionar: ‘Será que estamos alcançando 100%, ainda mais se perguntarmos onde está indo o esgoto, por exemplo’. Foi aí que entendemos que a gente não queria mais só falar disto, de fossa séptica, e sim falar que é um trabalho da Águas Guariroba, que foi feito o tratamento e estamos oferecendo isto para as crianças”, comentou.

Da conscientização ambiental para a responsabilidade social

Aliado ao trabalho de conscientização ambiental, o setor de responsabilidade social da Águas Guariroba também passou a atuar, interligando diversos projetos. As ações sociais ocorrem frequentemente nos bairros da cidade, inclusive tem o teatro educativo para as crianças. As mais recentes ocorreram nos bairros Paulo Coelho Machado e Moreninhas, região sul da cidade.

“Nosso trabalho voltado para as escolas leva apoio lúdico, possui jogos de conscientização ambiental, fala da coleta seletiva, rede de esgoto e o não desperdício da água. Nosso trabalho também inclui os professores e é multidisciplinar, abrangendo todas as disciplinas da escola. Tem mais ou menos 11 anos e, com isto, temos vários indicadores, incluindo o saneamento básico nas regiões periféricas”, argumentou ao Jornal Midiamax a também coordenadora, Bia Rodrigues.

Neste período, nasceram inúmeros projetos e ações, como a tarifa social, o Portas Abertas, Projeto Sanear com 283 escolas atendidas e 195.930 alunos beneficiados, além do Saúde Nota 10 e o mais recente, o Escolas 100% Saneadas, em parceira com a Semed (Secretaria Municipal de Educação) e a SED (Secretaria de Estado de Educação).

Técnicos da concessionária trabalhando após a descoberta das fossas. Foto: Águas Guariroba/Arquivo Pessoal
Técnicos da concessionária trabalhando após a descoberta das fossas. Foto: Águas Guariroba/Arquivo Pessoal

“Ainda não conseguimos mensurar, de forma quantitativa, mas sim, qualitativa. Mas, temos projetos que funcionam como um canal de comunicação com as crianças, em que levam o assunto até os pais ou responsáveis e estes acabam se conscientizando. Nossas equipes inclusive pretendem fazer um comparativo, saber se, por conta do saneamento, melhorou a assiduidade do aluno, as notas, e por aí vai”, comentou Rodrigues.

Durante as explicações, Bia fala que tudo é ensinado de forma lúdica para a criança, até mesmo a possibilidade das fossas atraírem baratas e outros roedores, por exemplo.

“Elas adoram. São ensinamentos diferentes e que vão levando a conscientização, ainda mais agora tendo a rede coletora de esgoto. Agora temos estas duas escolas sendo atendidas, mas, teremos em breve o mapeamento das próximas escolas e outros locais beneficiados neste projeto”, encerrou a coordenadora.

Fossa é sinônimo de contaminação do lençol freático, explica engenheira química

Caminhão ao fundo da Emei Tia Eva ajudando na limpeza das fossas. Foto: Águas Guariroba/Arquivo Pessoal
Caminhão ao fundo da Emei Tia Eva ajudando na limpeza das fossas. Foto: Águas Guariroba/Arquivo Pessoal

Sem tratamento, a fossa séptica, também conhecida como tanque séptico, é uma unidade de tratamento químico, enterrada no subterrâneo para que seja um esgoto sanitário e doméstico, explicando de uma forma mais simples e barata. Com isso, ocorre a contaminação do lençol freático, segundo os especialistas.

“A fossa, na verdade, não tem o tratamento adequado, então, tudo o que é coletado lá é levado para um buraco, onde é enterrado aquilo ali e também não tem um projeto, nem estrutura, nem segurança física e nem ambiental. Nós inclusive temos vários relatos e casos de fossas que se abriram nas casas, então, é um risco. E imagina isto em uma escola, como foi o caso que encontramos na comunidade Tia Eva”, explicou a engenheira.

Uma das fossas na comunidade Tia Eva, em Campo Grande. Foto: Águas Guariroba/Arquivo Pessoal
Uma das fossas na comunidade Tia Eva, em Campo Grande. Foto: Águas Guariroba/Arquivo Pessoal

Lá, assim que começaram os trabalhos, os técnicos ressaltaram o forte odor e ainda avaliaram todo o tratamento feito e até a proximidade e possível contaminação do lençol freático.

“Tudo o que estava indo para o vaso sanitário acabava indo para o solo e, possivelmente, poderia fazer a contaminação, pois, estava próximo de um local de coleta de água. No entanto, na Emei, não achamos situação de contaminação. Só que ali era o tratamento reverso e, com o esgoto, temos o tratamento adequado desde a coleta, com os parâmetros ideais para voltar para nossa casa em forma de água limpa e segura. É nos mananciais que a gente trata, é uma segurança hídrica. Tudo é retornável e agora volta com segurança para as casas”, ressaltou a engenheira da concessionária.

‘Extrema importância’, avalia diretora sobre início do projeto na comunidade quilombola

Aluno da Emei Tia Eva brincando na amarelinha, que ficava perto das fossas sépticas. Foto: Graziela Rezende/Jornal Midiamax
Aluno da Emei Tia Eva brincando na amarelinha, que ficava perto das fossas sépticas. Foto: Graziela Rezende/Jornal Midiamax

A diretora da Emei (Escola Municipal de Educação Infantil) Tia Eva, a pedagoga e geógrafa Cledeivana Chagas, de 54 anos, atua há mais de uma década na creche e fala em “extrema importância”, quando questionada sobre o pioneirismo do projeto Escolas Saneadas na região.

“A equipe da Águas veio aqui e disse que faria a ligação de esgoto, nos mostrando o levantamento pronto, onde ia puxar o esgoto, fazer o aterramento e depois limpar e secar tudo. As fossas, na verdade, eram bem antigas e a gente não sabia a extensão. O trabalho foi todo feito e eu, que estou aqui há 11 anos, vejo este trabalho como uma ação educativa também”, comentou a diretora.

Segundo Chagas, a comunidade quilombola possui importância histórica e, situada em Campo Grande, merece atenção, principalmente quando se fala em assuntos como saneamento.

Imagens: Graziela Rezende/Jornal Midiamax

“Muito bom ver este trabalho da concessionária aqui, juntamente com a prefeitura. Saneamento envolve o meio ambiente, saúde, alimentação e vida, e onde tem esgoto a gente sabe que a realidade é bem diferente”, argumentou.

Antes deste trabalho, a diretora conta que havia vazamento da fossa no quintal da vizinha, localizada ao fundo da creche. “O líquido ficava escorrendo em algumas ocasiões e ela vinha reclamar conosco. Agora ficou muito bom para nós, enquanto escola e comunidade”, disse.

Moradores falam em benefícios com saneamento de qualidade

Elizabeth fala da felicidade ao ter "água de qualidade" para neta Katiuscia. Foto: Graziela Rezende/Jornal Midiamax
Elizabeth fala da felicidade ao ter “água de qualidade” para neta Katiuscia. Foto: Graziela Rezende/Jornal Midiamax

Morador da comunidade Tia Eva, Sérgio Antônio da Silva, de 87 anos, é bisneto da ex-escrava e doceira, Eva Maria de Jesus. Mais conhecido como Michel, apelido desde garoto, o idoso seguiu os passos da família e passou 35 anos trabalhando com a venda de doce de leite, entre outras funções.

Há décadas, no entanto, ele recebe convites e viaja o país falando da comunidade. No entanto, foi a conquista do terreno da creche e a escola da Comunidade Tia Eva, que mais o orgulham.

“A Eva faleceu em 1926 e eu nasci em 1935, só que minha mãe conviveu com ela e nos contou muitas histórias. Aqui também ocorriam muitas festas, com políticos importantes vindo nos prestigiar e assim a gente brigava por recursos. Lembro muito quando chegou a instalação de água aqui, após anos na base da lamparina. E outra conquista muito importante foi o terreno do colégio”, contou Michel.

Seu Michel fala que creche e escola foram promessas para o bairro. Foto: Graziela Rezende/Jornal Midiamax
Seu Michel fala que creche e escola foram promessas para o bairro. Foto: Graziela Rezende/Jornal Midiamax

Pai de 12 filhos, seu Michel fala que muitos deles, incluindo netos e bisnetos, usufruíram do ensino na creche e na escola da Comunidade Tia Eva.

“Estes locais foram promessas pra gente e é muito importante ver este trabalho do saneamento agora. Tudo o que é importante pra nossa saúde e vem pra cá me deixa muito feliz, então, achei ótimo quando soube”, argumentou.

A diarista Marina Martins, de 53 anos, fala que mora na comunidade há 20 anos e achou muito boa a notícia da chegada do esgoto na escola. “Tenho uma neta estudando lá e fiquei muito feliz. Agora, continuo sonhando em ter aqui também, na principal rua ainda não tem a rede de esgoto”, comentou.

Já a repositora Elizabeth Martins, de 52 anos, explica que ficou assustada ao imaginar que as crianças brincavam acima de fossas. “O perigo morava bem perto das amarelinhas, um risco, né?! Minha neta de seis anos ficava ali junto, ela vai fazer seis anos. Eu já vi tantos vídeos de gente caindo em fossas, acho que era um risco enorme”, avaliou.

Capital é exemplo em índices positivos de saneamento básico

Instituto Trata Brasil/Divulgação
Instituto Trata Brasil/Divulgação

Em Campo Grande, conforme dados do Instituto Trata Brasil, que é uma OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) atuante em avanços do saneamento básico e na proteção dos recursos hídricos do país, o município está com água potável universalizada para todos os habitantes.

Estação de tratamento da Capital. Foto: Águas Guariroba/Arquivo Pessoal

“A divulgação do que é apresentado, anualmente, no Instituto Trata Brasil, conta muito e Campo Grande sempre está entre os exemplos. São cinco anos consecutivos dentro de ranking e a Capital está entre as cinco ou dez melhores cidades, envolvendo qualidade da água ou índice de perdas. A cidade inclusive já foi a melhor capital do Brasil com melhor em índice de perdas e tudo isso é fruto do investimento em tecnologia e estrutura, além das melhores ações em esgotamento sanitário”, finalizou a coordenadora da concessionária.

No mês de junho deste ano, por exemplo, a capital sul-mato-grossense subiu no ranking do saneamento e ficou na 28ª posição entre 100 cidades brasileiras. Antes, estava na 33ª posição.

Os dados foram divulgados no período em que se celebrava o Dia Mundial da Água, com base em estudos do SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento) e são referentes ao ano de 2020.

Nesta reportagem especial, você leu sobre:

  • A descoberta de antigas fossas no pátio de uma creche e o perigo para crianças e funcionários.
  • Qual foi a ação da concessionária para sanar o problema.
  • Levantamento que começou a ser feito em outras escolas de Campo Grande.
  • Projetos para levar saneamento em todo o município.
  • Como está sendo feita a antecipação do Marco Regulatório do Saneamento na Capital de MS.
  • A maneira que a Águas Guariroba interliga projetos para falar de conscientização ambiental.
  • Fossas e a contaminação para o lençol freático.
  • A importância do projeto ter começado em uma comunidade quilombola.
  • Os benefícios com saneamento de qualidade.
  • Índices positivos de saneamento básico.

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