A soma das declarações do presidente Luiz Inácio da Silva, que pediu aos Estados Unidos que parem de incentivar a guerra na , com a visita do chanceler russo, Sergei Lavrov, coloca o Brasil em posição de conivência com a Rússia, afirma Roberto Abdenur, ex-embaixador do Brasil na e nos EUA. Ele disse acreditar que a postura de Lula contradiz a posição formalizada pelo Brasil nas Nações Unidas, que é de condenar a guerra. Ontem, o presidente reiterou o posicionamento do País. Leia trechos da entrevista:

Quais sinais a diplomacia brasileira transmite ao dar peso diplomático à viagem à China e ao diálogo com a Rússia sobre a guerra?

É bom que o Brasil possa convergir com a China em diferentes ideias sobre aperfeiçoamento da governança global, reforma da ONU e apoio ao multilateralismo. O presidente foi muito infeliz nas coisas que disse culpando a Ucrânia pela guerra, quando na real é o país agredido, dizendo que EUA estão incentivando e prolongando a guerra, e que é contra a entrega de armas à Ucrânia. Se não fosse a entrega de armas, a Ucrânia teria desaparecido.

Essa postura faz com que o Brasil tome um lado no conflito na Europa?

Prejudica a relação bilateral com países que são de importância estratégica para o Brasil. Lula comparecerá ao G-7 no final de maio, mas vai chegar lá desconfortável por estar em uma postura que é de quase condenação ao que os países ocidentais estão fazendo em relação à Ucrânia. Receber Lavrov mostra uma postura de conivência com a Rússia. Mostra a falta de elementos fundamentais em política externa: objetividade, realismo e moderação. Paradoxalmente, isso prejudica a campanha de Lula por um lugar no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

A posição oficial é a de que o Brasil quer contribuir com um mundo multipolar, quando há múltiplos centros de poder. Essa é a mensagem que passa ao dar sinais trocados aos Estados Unidos e à China?

Apoiar o mundo multipolar o Brasil faz há muito tempo, porque se considera um polo regional. Atualmente você tem uma situação gravíssima no plano internacional, que é a radical confrontação estratégica entre Estados Unidos e China. Está tão aguda que reduziu muito o espaço de quem quer ficar no meio. Exige muita habilidade política e faltou contenção ao presidente nas declarações que deu, porque não se colocou em uma posição no meio do fogo cruzado. No noticiário americano, o único consenso bipartidário é o antagonismo à China.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.