Mãe e filhas se reencontram após 21 anos em MS

Duas décadas de afastamento, distância e incertezas entre mãe e filhas terminaram na noite de sexta-feira, 1º de agosto, numa missa na igreja São Bartolomeu, na parte alta de Corumbá. Margarida Lopes, 64, reencontrou parte da família, com a qual havia perdido contato há pelo menos 21 anos por conta de uma decisão tomada no […]
| 03/08/2014
- 04:46
Mãe e filhas se reencontram após 21 anos em MS

Duas décadas de afastamento, distância e incertezas entre mãe e filhas terminaram na noite de sexta-feira, 1º de agosto, numa missa na igreja São Bartolomeu, na parte alta de Corumbá.

Margarida Lopes, 64, reencontrou parte da família, com a qual havia perdido contato há pelo menos 21 anos por conta de uma decisão tomada no início da década de 90, quando, já separada dos pais de seus sete filhos, decidiu viajar para o Paraguai e posteriormente para Corumbá junto com o companheiro, que morreu em maio do ano passado.

Nos últimos cinco anos, ela viveu com muitas dificuldades num casebre de uma peça, no sopé de um morro no prolongamento da rua Marechal Floriano, na região do Guanã, com problemas cardíacos e sem qualquer tipo de renda.

De São Paulo vieram as filhas mais nova e mais velha e um neto. Eles enfrentaram 25 horas de ônibus entre a capital paulista e Corumbá. Saíram de lá na tarde da quinta-feira, dia 31 de julho, e chegaram no meio da tarde da sexta, 1º de agosto, na rodoviária corumbaense, onde foram recebidos pelo padre Rosalino de Jesus dos Santos, pároco da igreja São Bartolomeu, localizou – com auxílio da internet – os filhos e netos de dona Margarida.

Os momentos que antecederam ao reencontro era para as filhas um misto de ansiedade e felicidade. “Estou muito ansiosa, não vejo a hora de encontrá-la. Achava que seria difícil, mas não impossível. Sempre acreditei que iria encontrar minha mãe”, disse Elisângela Lopes, 28, filha caçula de dona Margarida, que tinha sete anos quando viu a mãe pela última vez.

Ela contou que ao longo dos anos sempre tentou encontrar a mãe. “Tentei pelo site do GoodAngels, que procura pessoas desaparecidas, tentei pela internet, Facebook, pela TV no SBT. Tudo que eu via que estava procurando pessoas eu buscava, mas não consegui nenhum resultado com sucesso”, disse Elisângela, que é mãe de três filhos.

Filha mais velha, Izilda Aparecida Lopes, 47, disse que chegou a perder a esperança de rever a mãe algum dia. “Procurava com minhas irmãs se sabiam onde a mãe tinha ido, onde estava. Fiquei angustiada, queria saber. Procurei amigos, só sabia que ela estaria no Mato Grosso do Sul. Tentei procurar no Facebook, até ano passado ainda tentei localizar, mas tinha sido tudo em vão, não tinha mais expectativas”, afirmou.

Mesmo sem esperar rever a mãe, Izilda disse que pensava com frequência na dona Margarida. Na hora do trabalho, a lembrança da mãe e de onde ela estaria era forte. “Sou cuidadora de idosos e quando eu cuido dos idosos eu sempre penso nela. Dizia para mim mesma, que minha mãe podia estar comigo e eu cuidando dela. Sonhava um dia encontrá-la e cuidar dela como eu cuido das outras pessoas. A única coisa que eu penso é em cuidar dela”, disse com a voz calma, mas que deixava transparecera emoção que sentia.

Foi o Facebook da filha mais velha que trouxe a informação que a mãe dela vivia em Corumbá. “Sou muito difícil de ver meu Facebook e domingo passado – dia 27 de julho – fui pra casa da minha filha e pedi para ela abrir meu Face. Ela abriu e perguntou quem era Rosalino, que pedia para me adicionar, disse que não conhecia, mas falei para adicionar porque talvez conhecesse pelo apelido. Fui brincar com meu neto e vi que tinha mensagem e pedi novamente para minha filha ver. Foi quando ela disse que o Rosalino tinha respondido, era um padre que tinha achado minha mãe. Não acreditei no começo e entramos em contato com o padre, não tive condições de falar com ele. Minha filha conversou pediu para mandar fotos e às nove da noite vi a foto e disse: é minha mãe”, contou Izilda, que tem três filhos e quatro netos, ao explicar o momento que trouxe o fim de duas décadas de angústia e incertezas sem saber o paradeiro e o que havia acontecido com a mãe.

A caçula de dona Margarida contou que a sobrinha a informou que finalmente a procura pela mãe trazia uma resposta positiva depois de tantas negativas. “A primeira notícia recebi pela minha sobrinha, Fabiana, que disse que minha mãe tinha sido encontrada. O padre ligou para mim, falou que tinha encontrado ela. Fiz muitas perguntas para confirmar qual era nome dela, a data de nascimento, os nomes dos pais, pedi fotos e quando ele mandou disse que era ela mesma. Desse dia em diante, a vontade de vê-la ficou maior. Tinha seis ou sete anos quando ela foi embora”, disse Elisângela.

O reencontro entre mãe e filhas foi durante a missa celebrada pelo padre Rosalino. Dona Margarida acompanhava a celebração normalmente, ao lado da família da comunidade São Bartolomeu que a “adotou” e a ajuda a viver com um pouco de dignidade, mesmo diante de toda a situação de vulnerabilidade a que está exposta. As filhas e o neto Daniel Lopes Severino, 29, aguardavam numa sala próxima a igreja. Dona Margarida acreditava que as filhas chegariam somente neste sábado.

Lágrimas, alegria e felicidade marcam reencontro entre mãe e filhas

A hora em que o padre Rosalino iniciou a homília exaltando a importância dafamília e chamou Margarida Lopes para ficar perto dele junto ao altar, foi a ‘senha’ para que Izilda e Elisângela entrassem na igreja. Ao se ver novamente diante das filhas, dona Margarida foi tomada pela emoção de viver sem notícias dos filhos por 21 anos e chorou copiosamente. As filhas e o neto a abraçaram e choraram juntos por alguns minutos em que parecia que o tempo havia parado para aquela família. Acabava ali um vazio na vida delas que permaneceu duas longas décadas sem qualquer resposta.

“É um momento único, inesquecível e de muita emoção. A partir de agora é uma vida nova. É um momento muito feliz, uma vida muito nova, nasci de novo. Estou emocionada e feliz, pensei que iria morrer sem ver meus filhos” disse dona Margarida abraçada às filhas e ouvindo as palmas daqueles que assistiam à missa e choravam juntos tomados pela emoção do momento.

A todo o tempo, dona Margarida tocava, abraçava, beijava e acariciava as filhas e exclamava que era “muita felicidade” para ela. Também perguntava seguidamente dos outros cinco filhos. Em São Paulo ficaram Estela, Wilson, Nilson, Ailson e Maria Elisabete e outros 13 netos, além de bisnetos que ela deverá rever e conhecer muito brevemente.

“Agora é uma vida nova”, disse a matriarca ao lado das duas filhas. Que confirmaram que irão levar dona Margarida para morar com elas em São Paulo, mais precisamente no bairro de Itaquera. “Vamos voltar para casa com a minha mãe. Meus irmãos, que ficaram, estão na expectativa de a gente chegar com ela. É uma felicidade geral”, disse Izilda.

“Tenho na memória algumas imagens dela, de quando eu era pequeno. Lembro de quando ela foi visitar a gente e de um almoço em família, tinha uns sete, oito anos. Depois ela foi embora e são essas as recordações que tenho. Estou feliz, é legal ganhar uma avó agora”, disse Daniel, que é tecelão.

Principal responsável pelo reencontro, o padre Rosalino destacou que a família deve ser valorizada. “O principal ambiente onde posso viver uma boa relação é a família. Como é bom ter família, como é bom valorizar a família. Nada melhor, que como cristão, líder espiritual, como comunidade poder ajudar uma família a se reencontrar e sobretudo ser feliz”, disse. “O padre para mim já é uma pessoa da família, ele é maravilhoso e queremos ter contato para que minha mãe possa conversar com ele, vamos manter sempre contato com o padre”, afirmou Izilda.

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