O Brasil quer integrar o Fundo Latino-Americano de Reservas (Flar) para contar com um mecanismo regional para enfrentar os efeitos da crise econômica internacional. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, conversou sobre as intenções brasileiras, nesta sexta-feira (12), com a presidenta do Flar, a advogada colombiana Ana Maria Carrasquilla Barrera.

“Ficou combinado que o Flar fará uma série de viagens por vários paises e virá ao Brasil, para que possamos discutir as condições para podermos ingressar no fundo”, disse Mantega, em Buenos Aires, depois de sair da reunião com ministros da Economia e presidentes de Bancos Centrais dos doze membros da União de Nações Sulamericanas (Unasul), cujo tema principal foi a crise nos Estados Unidos e na União Europeia. Segundo ele, houve consenso de que a América do Sul precisa estar preparada, porque a crise pode durar mais do que o previsto.

“Ficou decidido que vamos ter que nos preparar, tanto para eventuais agravamentos da crise que possam ocorrer, que possam nos afetar, como para uma crise mais longa nos países avançados”, disse Mantega.

Uma das maneiras de fazer frente à crise, segundo o ministro, é a criação de um fundo de contingência, mas isso leva tempo e a Unasul está buscando soluções imediatas. O primeiro passo nesse sentido seria a ampliação do Flar, um fundo criado em 1978 por sete dos 12 paises da Unasul (Bolívia, Colômbia, Costa Rica, Equador, Peru, Uruguai e Venezuela).

Um dos objetivos do Flar é apoiar a balança de pagamentos dos paises membros, concedendo créditos ou oferecendo garantias a empréstimos dados por terceiros. O fundo foi muito útil nas décadas de 1980 e 1990, porque serviu como um complemento ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Para cada dólar que os países tomavam emprestado do FMI, o Flar concedia mais 66 centavos de dólar.

Segundo Mantega, uma das condições para a entrada do Brasil no fundo é o pagamento de uma cota de US$ 500 milhões. Paises menores pagam cotas menores. Alem de fazer parte do Flar, o Brasil defende o fortalecimento do Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF), criado em 1970 e composto por 18 paises latino-americanos, do Caribe e da Europa e por 14 bancos privados da Região Andina. A instituição promove o desenvolvimento sustentável e a integração regional.

Mantega acredita que, para fazer frente à crise, seria necessário um mecanismo mais ambicioso que o Flar, mas admitiu que a situação atual requer medidas imediatas. “Devemos caminhar para um mecanismo mais robusto, mas dando prioridade aos mecanismos já existentes. Não vamos inventar a roda nesse momento. Se houver um agravamento da crise, não teremos tempo”, explicou.

Na reunião dos ministros da Economia, tanto Brasil como outros paises criticaram a atuação do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e exigiram reformas. “ O BID tem dado financiamentos importantes para a América Latina, mas foi desvirtuado ao longo do tempo”, disse Mantega. Segundo o ministro, o BID “deveria ser o FMI dos paises latino-americanos”, mas, apesar de ter um presidente latino-americano, é controlado pelos Estados Unidos. O Brasil quer mudança “nas cotas, na participação de na governança do BID, para que o banco seja, de fato, dos latino-americanos”, disse Mantega. Sua posição foi apoiada por outros países da Unasul.

Na reunião decidiu-se também criar um conselho econômico para agilizar os encontros dos ministros da área econômica e dos presidentes dos Bancos Centrais. O anfitrião, o ministro da Economia da Argentina, Amado Boudou, que também é candidato a vice-presidente nas eleições presidenciais de outubro, fez questão de defender “uma maior integração da cadeia produtiva na região”. E citou como exemplo bem sucedido a integração das indústrias automotivas do Brasil e da Argentina.