Mãe, que ficou 28 anos sem ver os filhos, vai reencontrá-los em delegacia

A corumbaense, camareira Beatriz Domingos Eusébio, 51, viveu 28 anos a procura dos cinco filhos tirados dela pelo ex-marido. Moradora do Distrito de Albuquerque, foi graças ao apoio do Ibiss (Instituto Brasileiro de Inovações pró-Sociedade Saudável) que hoje às 15 horas ela vai rever os cinco meninos, hoje homens adultos. Na Depca (Delegacia de Proteção à Criança […]
| 08/03/2010
- 19:15
Mãe, que ficou 28 anos sem ver os filhos, vai reencontrá-los em delegacia

A corumbaense, camareira Beatriz Domingos Eusébio, 51, viveu 28 anos a procura dos cinco filhos tirados dela pelo ex-marido. Moradora do Distrito de Albuquerque, foi graças ao apoio do Ibiss (Instituto Brasileiro de Inovações pró-Sociedade Saudável) que hoje às 15 horas ela vai rever os cinco meninos, hoje homens adultos.

Na Depca (Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente), que fica no Aero Rancho, a família vai se reencontrar.

Eis a reportagem publicada no Midiamax sobre o sofrimento desta mãe. Material produzido especialmente por Osvaldo Júnior, do Ibiss:

Um pedaço da vida de Beatriz Domingos Eusébio, 51, foi tirado há 28 anos. A profundidade de sua dor pode ser sentida no brilho dos olhos, nas mãos nervosas e nas lágrimas. Ela conta que o marido, em seu último ato de violência, levou embora os cinco filhos – na época, uma escadinha de um a cinco anos –, os quais ela busca reencontrar. A separação aconteceu em Aquidauana, a 130 quilômetros de Campo Grande, no início da década de 80, quando Beatriz tinha 23 anos.

“Meu marido era muito violento”, lembra-se. Aparecido Domingos Eusébio, o ex-marido, morava perto da casa dos pais adotivos de Beatriz, em Assis Chateaubriand, no interior do Paraná. Depois de algum tempo de namoro, os dois se casaram – Beatriz tinha 17 anos. Um ano mais tarde deu à luz o primeiro filho. Nos cinco anos seguintes, mais filhos chegaram. Eram seis, mas a única menina, Marli, morreu com três meses de vida.

Aparecido era serralheiro e, com a família, mudou-se para Mato Grosso do Sul em busca de trabalho. Eles moraram em Amambai, Caarapó, Aquidauana e Dois Irmãos do Buriti. Também residiram por três meses no Paraguai, em Pedro Juan Caballero. “Ele não parava. Revolvia ir embora, vendia todas nossas coisas e ia”, conta Beatriz.

Com o tempo, Aparecido passou a ter relações fora do casamento e a desprezar Beatriz. “Ele tava envolvido com outras mulheres. Aí chegava bêbado em casa e ameaçava me matar. Ele vinha com um dinheiro e falava pra mim: ‘toma esse dinheiro e vai embora’”, relata.

Um dos momentos de violência que marcaram a vida Beatriz aconteceu quando ela estava grávida de Marli. A família morava em Dois Irmãos do Buriti. Aparecido chegou em casa, chutando a porta e agredindo a mulher. “Era de manhãzinha, uma segunda-feira. Eu tava terminando de fazer o café. Aí ele chegou chutando a porta, foi pra cima de mim e começou a me enforcar. Eu grudei no guarda-louça, que caiu no chão. Os meninos choravam desesperados. Meu sogro escutou o barulhão e foi ver o que tava acontecendo. Se não fosse meu sogro, ele tinha me matado. Tinha matado dois: eu e minha filha”, narra.

Ao falar da filha, Beatriz lacrimeja ainda mais. Marli morreu com três meses de vida. Beatriz não sabe precisar a doença que tirou a vida da criança, mas se lembra bem dos sintomas. “A moleirinha dela ficou funda. Ela tava bem fria da cintura pra baixo”. Quando a menina adoeceu, Aparecido ainda estava em casa. Não tardou, no entanto, a viajar. “Eu falei pra ele: ‘Aparecido não vai embora’. Mas ele foi. Ele saiu na sexta. Quando foi segunda-feira, a nenê morreu”, afirma. Beatriz desesperou-se. “Eu fiquei louca da cabeça. Saí na rua com a menina morta no colo, chorando, gritando. Os meninos tudo atrás de mim”.

As violências todas somadas à morte da filha levaram Beatriz a tomar a difícil decisão de deixar o marido. Ela tinha estudado até a antiga 2ª série do 1º Grau. Com pouca escolaridade e muita coragem, resolveu criar os filhos sozinha. “Eu ajoelhei e pedi pra Deus me dá forças pra ir embora. Aí eu peguei as crianças e voltei pra Aquidauana”.

Separações

Em Aquidauana, aconteceram as separações que causam grande dor em Beatriz. Na cidade, ela conseguiu trabalho como doméstica e um quartinho para morar com os filhos. Após uma semana, Aparecido encontrou a mulher e os filhos. “Ele chegou dizendo que ia levar os meninos e que ia me matar. Os vizinhos vieram me ajudar e me seguraram, porque eu ia enfrentar o Aparecido. Eles tinham medo que ele me matasse.

Mas eu queria que me soltassem pra não deixar levar meus filhos”, recorda-se. Aparecido saiu arrastando os quatro filhos mais velhos: Adilson, com então cinco anos, Vanderlei, com quatro, José Roberto, com três, e Luiz Aurélio, com dois. Vandir, com um ano na época, foi levado pelo pai dois dias depois. Dessa vez, Beatriz não quis lutar.

Isso porque um homem, que ela não conhecia e que se dizia amigo do marido dela, contou que Aparecido estava voltando e que portava uma faca e um revólver. Foi a última vez que Beatriz viu os filhos. Todos tinham (ou têm) o sobrenome do pai: Domingos Eusébio.

Ciclo

O drama de Beatriz é um reconto da história de violência sofrida por sua mãe, Arminda Vaz da Silva. “Ela me deu quando eu tinha cinco anos”, lembra-se. Beatriz diz, no entanto, não guardar mágoa da mãe. “Meu pai bebia, batia nela e na gente. Então, eu entendo ela. A gente era muito pobre e ela não tinha condição de criar a gente”. Também sua mãe, Beatriz deseja rever.

Nos seus constantes pensamentos sobre os filhos, Beatriz lembra-se também de Marli. “Tem vez que eu penso: ‘Será que Deus tirou minha filha porque ela ia passar pelo mesmo sofrimento?’”.

Esperança

Hoje, Beatriz mora em Albuquerque, distrito de Corumbá, noroeste de Mato Grosso do Sul. Sua casa é um pequeno quarto sem reboco em um quintal com coqueiro, cajueiro, mangueira e bananeira. Também tem dois cachorros e alguns gatos, que aparecem por lá, ganham comida e vão ficando. Morando no Pantanal, Beatriz convive com uma paisagem feita de muitos morros, árvores e uma parte do rio Paraguai. Ela trabalha como auxiliar de serviços gerais em um hotel local. Voltou a estudar faz um ano e cursa o EJA (Educação de Jovens e Adultos) em uma escola municipal. “Eu tenho tudo aqui. Só falta meus filhos”, diz.

Durante esses anos todos, Beatriz procurou seus filhos como pôde. “Até na Internet, eu já procurei eles”, conta, enxugando as lágrimas. A ânsia de rever os filhos – hoje com idades que variam de 29 a 33 anos – leva Beatriz a exigir certeza: “Vocês conseguem mesmo encontrar eles? Vocês já acharam alguém antes? Eu sofro muito sem eles”.

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