Era um sábado de sol, em 21 de outubro de 2001, quando, a convite de amigos, Luciene e a filha Luane, de dez anos, aceitaram um convite para passar o dia em uma fazenda. O que elas jamais imaginariam era que suas vidas mudariam de maneira tão profunda, pois foi naquele dia que Luane foi diagnosticada com um tumor cerebral.

Embora a ida à fazenda não tenha sido um fator determinante para a descoberta da doença, essa é a primeira lembrança que vem à memória de Luciene ao contar sobre seu processo de luto, nesta reportagem especial do Jornal Midiamax pelo Dia de Finados, celebrado nesta quinta-feira (2).

Luciene recorda que o dia estava tranquilo: Luane brincava com outras crianças quando, de repente, começou a passar mal, sentindo fortes dores de cabeça e vômitos. No mesmo dia, ela entrou em coma. Como estavam na cidade de Rochedo, Luane recebeu atendimento em um hospital local e, posteriormente, foi transferida para Campo Grande.

“Quando chegamos a Campo Grande, a neurologista já nos aguardava, e foi diagnosticado que ela tinha um tumor cerebral do tamanho de uma laranja. Naquele momento, nosso mundo desmoronou”, lembra a mãe.

Luciene ao lado da filha Luane
Luciene ao lado da filha Luane (Arquivo pessoal)

Após uma série de exames, a mãe foi informada sobre a possibilidade de cirurgia, mas devido à sua complexidade, o procedimento apresentava sérios riscos à vida da criança.

“Com fé, decidimos realizar a cirurgia. Luane ficou 18 dias em coma, fez fisioterapia e finalmente voltou para casa. Pouco a pouco, ela recuperou a capacidade de andar, sorrir e surpreendeu todos os médicos”, descreve Luciene.

Com a recuperação de Luane e o diagnóstico de que o tumor era benigno, a família se encheu de esperanças. No entanto, veio outro baque: o diagnóstico estava equivocado. Além disso, o tumor já estava em estágio avançado.

Onze meses se passaram desde o diagnóstico até a perda de Luane. Para a mãe, não existia um dia sequer em que ela não lembrasse do sorriso da filha, que permaneceu até seus últimos momentos.

“Minha história se resume a esses onze meses. Gradualmente, o tumor voltou a evoluir, entrou em metástase. Ela perdeu a visão e a audição, mas Luane nunca desistiu. Em 30 de agosto, ela partiu”.

Dor precisa ser compartilhada

Sala onde ocorre as reuniões do Gaepe
Sala onde ocorrem as reuniões do Gaepe (Henrique Arakaki, Midiamax)

Cinco anos após a perda de sua filha, Luciene ainda sentia a necessidade de compartilhar sua dor e experiências com pessoas que haviam passado pelo mesmo sofrimento. Foi assim que surgiu a ideia do Gaepe (Grupo de Apoio Espiritual às Pessoas Enlutadas), o primeiro grupo de apoio ao luto em Campo Grande.

“Sempre busquei algo para aliviar a dor, um lugar onde pudesse desabafar. Conheci uma mãe que também havia perdido um filho, e foi aí que surgiu a ideia do grupo. Passamos um ano estudando para poder atender as pessoas da melhor maneira possível”, explica Luciene.

Inicialmente, a ideia era que o grupo fosse voltado para pais que haviam perdido seus filhos, mas com o tempo, começaram a receber mensagens de pessoas que passaram por diferentes formas de luto. Hoje, o grupo atende até ex-dependentes químicos.

Para Antônio Flávio Ferraz, estudante de psicologia e membro da organização, o que impulsiona o Gaepe é a esperança compartilhada, mesmo em meio a dor.

“A dor é uma parte inerente da perda e do luto. À medida que você convive com as pessoas, compartilha sua dor e mostra sua saudade sem medo, as pessoas lhe retribuem com pequenas doses de esperança, fornecendo a estabilidade necessária para continuar vivendo”, diz.

Relatos retratam os diferentes estágios do luto

Grupo de apoio
Reunião do Grupo de apoio (Lethycia Anjos, Midiamax)

Em uma sala rodeada por cadeiras, lenços e copos d’água, a reportagem presenciou sete pessoas a compartilharem suas dores e experiências de luto. A reunião começa com uma prece, seguida pela leitura de uma passagem do livro “O Evangelho segundo Espiritismo” de Alan Kardec, e segue para os relatos dos participantes.

Em um encontro que dura pouco mais de uma hora, todos têm a oportunidade de falar. Aqueles que perderam seus entes queridos recentemente compartilham suas histórias com a voz embargada, lágrimas e até sentimentos de culpa e negação.

Gaepe
Gaepe (Henrique Arakaki, Midiamax)

Aos que chegam ao grupo pela primeira vez, é cedido um maior espaço de tempo para contar sua história. Foi assim que, ao longo de mais de 30 minutos, Dona Silvia narra as dores causadas pela perda do marido em 2017 e, mais recentemente, da filha, há cerca de nove meses.

“Quando perdi meu marido e minha filha, senti que perdi também minha fé. É muito difícil para uma mãe enterrar seu filho, é como desafiar o próprio destino”, declara.

Por outro lado, para aqueles que fazem parte do grupo há mais de um ano, como o caso de Marilda, os relatos destacam boas lembranças dos momentos vividos com o marido já falecido e episódios um tanto sobrenaturais onde a presença dele foi sentida nos momentos em que ela mais se sentia desamparada.

Luciene enfatiza que, ao longo dos 17 anos de existência do Gaepe, fica evidente que não existe um período que determine o fim dos sintomas físicos e emocionais do luto. Entretanto, falar sobre como se sente é o pontapé inicial do processo.

Para onde eles foram?

Com raízes no Espiritismo, muitos dos participantes do grupo compartilham a crença de que as almas vêm de um plano espiritual e retornam a ele quando a vida terrena chega ao fim. Para eles, a morte não é uma realidade definitiva, mas sim uma transição.

Entre as inúmeras histórias compartilhadas por Dona Silvia, uma declaração em particular se destaca: a dualidade entre a saudade que sente do marido e filha, e o medo da possibilidade de receber a visita deles em forma de espíritos.

“Sinto muita saudade, mas peço a Deus para não ver meus entes queridos porque morro de medo. Apesar disso, queria muito saber como eles estão, se estão bem ou em um lugar bom”, questiona.

Já na sequência, seus questionamentos encontram respostas repletas de acolhimento. O medo cede espaço à esperança e Dona Silvia até começa a considerar a possibilidade de pedir a Deus para sonhar com seus entes que partiram.

No meio de um cenário repleto de histórias, distintas nuances surgem para retratar os estágios do luto e as diversas maneiras de enfrentar a perda. Em um ambiente onde a dor encontra acolhimento sem amarras ou julgamentos, a esperança irrompe e se faz presente.

Como procurar o Gaepe?

Se você se interessou pelo Gaepe, as reuniões são realizadas sempre aos sábados às 9h, na Rua Dom Aquino, n° 641, em cima da loja Arquitécnica. A reunião é aberta a qualquer pessoa interessada, independente de crenças e religiões.

Mais informações podem ser obtidas pelo telefone: (67) 99300-4312, ou pelas redes sociais: https://www.facebook.com/Gaepe/.