Com 20 mil habitantes, cidade em MS utilizou mais de 76 mil comprimidos para tratamento precoce da covid

Seria necessário que cada paciente que testou positivo para a doença utilizasse 26 comprimidos cada
| 21/03/2022
- 19:40
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Imagem ilustrativa - (Foto: Reprodução)

Há pouco mais de um ano, o tratamento precoce da Covid-19 se tornou um dos assuntos mais debatidos no Brasil e também em Mato Grosso do Sul. Incentivado pelo e desencorajado pela comunidade científica, o uso de medicamentos como a hidroxicloroquina e ivermectina passaram a ser disponibilizados para pacientes diagnosticados com a doença em diversos municípios do Estado. Na época, Rio Verde de Mato Grosso foi uma das cidades que mais compraram o medicamento, adquirindo 80 mil unidades de ivermectina, número quatro vezes maior do que a população do município.

O anúncio da compra, feito pela própria Prefeitura Municipal, ocorreu em 26 de março de 2021. Quase um ano após, a secretaria de Saúde de Rio Verde afirma já ter utilizado 76,5 mil comprimidos. Conforme repassado pela coordenadora de Saúde do município à reportagem, do total de comprimidos adquiridos o município possui apenas 3,5 mil na rede municipal de saúde, o restante teria sido disponibilizado para pacientes da cidade. A quantidade causa espanto, já que se trata de um número três vezes maior do que a população do município, estimada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em 20.025 habitantes.

A reportagem entrou em contato com o secretário de Saúde de Rio Verde, Roberto Martins, para questionar os números, confirmados pelo próprio. Martins comenta que a quantidade pode causar espanto à primeira vista, mas possui explicações. Segundo ele, é recomendado 1 comprimido a cada 30 quilos corporais de um paciente, “ou seja, se uma pessoa tem 90 quilos, vai utilizar três compridos”, explicou ao mencionar que o processo ocorre novamente após quinze dias. “O paciente de 90 quilos utilizaria sozinho seis comprimidos”, exemplificou.

Utilizando o exemplo mencionado por Roberto Martins e a estimativa populacional de Rio Verde, um adulto de 70 quilos que aceitou o tratamento precoce receberia quatro comprimidos de ivermectina. Com isso, seria necessário que Rio Verde possuísse uma população de 19.125 pessoas, pesando 70 quilos, que aceitasse o tratamento precoce. Dados da SES (Secretaria de Estado de Saúde) apontam que Rio Verde possui 2.876 casos confirmados de Covid-19, ou seja, seria necessário que cada uma dessas pessoas recebesse cerca de 26 comprimidos cada. Roberto Martins alega que o tratamento precoce segue sendo oferecido aos pacientes que testam positivo. Os 3,5 mil comprimidos restantes possuem validade até abril de 2023.

Outro município que também passou a oferecer o tratamento precoce contra a Covid-19 foi Maracaju. O anúncio ocorreu no dia 8 de abril de 2021, um dia após o município publicar, em Diário Oficial, a compra de 15 mil unidades de ivermectina no valor de R$ 10.710,00. O secretário de Saúde de Maracaju, Thiago Caminha, alega não lembrar a quantidade de medicamentos adquiridos na época, mas afirma que a compra não foi exclusiva para o tratamento precoce, mas sim para todo o sistema de saúde do município. “Tanto a ivermectina como o dipirona, nós adquirimos para todo o município e não apenas para casos de covid”, explicou.

Tratamento precoce

Na época, a indicação da ivermectina era defendida pelo presidente Jair Bolsonaro e compõe o chamado “kit-covid”, composto por (ou hidroxicloroquina), azitromicina e ivermectina. O Ministério da Saúde incentivava o uso dos medicamentos como alternativa eficaz para supostamente prevenir casos graves da doença que, hoje, já matou 657 mil pessoas.

Apesar das alegações do presidente Jair Bolsonaro, a comunidade científica já afirmou que o uso dos medicamentos pode causar alterações no fígado até mesmo a hepatite medicamentosa. O protocolo preventivo recomenda de 2 a 4 comprimidos por mês, a depender do peso, abaixo do oferecido pelo município de Rio Verde. Até mesmo o laboratório que produz a ivermectina, a farmacêutica Merck, destacou a falta de indícios quanto à eficácia da droga contra a covid.

Em São Paulo, há registro de pacientes que tiveram lesões permanentes no fígado após uso não recomendado da droga. Pelo menos 5 pessoas no Estado vizinho entraram na fila de transplante em decorrência do uso contraindicado.

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