Os 22 feminicídios contabilizados em Mato Grosso do Sul somente neste ano deixaram mais vítimas do que apontam as estatísticas: crianças, na maioria das vezes, filhas das vítimas, não morreram, mas veem-se sem norte, dada a ausência das mães e prisão dos pais. Para eles, o futuro esmaece e torna-se incerto, em meio a um trauma perene e à dor eterna.

Celebrado nesta quinta-feira (12), o também se volta àquelas que tiveram o curso natural do crescimento marcado pela trágica das mães. No universo do crime que dilacera famílias, essas crianças integram uma categoria especial.

São os órfãos do feminicídio, a mais vulnerável população de vítimas, que na maioria das vezes não é vista nos levantamentos oficiais.

A psicóloga Ludmila de Moura, formada pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), que atua na área judiciária de São Paulo e também com adoção, explica que a situação é bastante traumática, principalmente para os filhos.

Ela destaca que crianças com idades abaixo de 10 anos são especialmente mais vulneráveis, já que, nesta fase, o conceito de irreversibilidade da morte tem menor compreensão para elas. Além disso, as mulheres costumam desempenhar função social na criação – na maioria das vezes – mais determinante que a dos pais, que costumam ser menos presentes.

“A figura da mãe costuma ser o centro de segurança e apego para a criança, que se vê de repente sem essa condição, em outra realidade de pouca compreensão, para muitos deles”, explica.

Dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública. (Fonte: MS)

Diferentes traumas e apoio

A psicóloga Ludmila ainda explica que são vários os tipos de traumas que o crime causa nos filhos. Quando acontece na frente dos filhos, o trauma pode ser enorme porque principalmente a criança pode se achar responsável dependendo do motivo da briga que levou ao assassinato e também se culpar por não conseguir evitar a morte da mãe.

Quando acontece, mas os filhos não presenciam, eles podem ficar imaginando como aconteceu e o que poderiam ter feito para evitar.

“Em ambos os casos, pode desenvolver estresse pós-traumático (EPT), com pensamentos intrusivos (invasivos), de difícil controle. Pode desenvolver vários sintomas físicos e emocionais, de depressão à ansiedade, agressividade, distúrbio de sono, sentimento de insegurança, medos, irritabilidade, etc. A tristeza e sentimento de culpa podem levar ao uso abusivo de álcool e outras drogas na adolescência. Também pode apresentar problemas escolares, com dificuldade de atenção e aprendizagem”, explica.

Quando o órfão vai morar com a família, por exemplo, alguns são bem recebidos e acolhidos, outros podem ser rejeitados conforme o tempo e crescimento. Pode haver dificuldade ainda se a família viver em vulnerabilidade.

Se a criança for acolhida pela família paterna, ou seja, pela família do pai assassino, pode ser ainda mais complicado. “Os familiares poderão querer ‘inocentar’ o pai e falar mal da mãe para a criança, acusando-a de ser responsável pela tragédia”, exemplifica.

Há ainda os órfãos sem que algum familiar queira. Estes são levados ao serviço de acolhimento e dependendo da idade à adoção. A dificuldade é em relação a crianças acima de 7 anos, pois não há muitos pretendentes, principalmente se tiver irmãos. 

A questão é que em todos os casos é indicado que o filho seja submetido a psicoterapia. “Na terapia, elaboramos a culpa e as perdas advindas. Além de perder a mãe, também perde o pai, que vai geralmente preso ou comete o suicídio”.

“Infelizmente pouca atenção se dá a esses órfãos, em termos de políticas públicas. Muitos ficam em filas do SUS, à espera de atendimento psicológico, com outros casos, sendo que estes seriam também urgentes, para evitar a cronificação do sofrimento e desenvolvimento de distúrbios emocionais”, conclui.

Crianças presenciaram crimes

Em julho deste ano, Natali Gabrieli da Silva de Souza, de 19 anos, foi morta com a filha de um ano no colo. A jovem foi esfaqueada quatro vezes pelo marido, de 30 anos, e correu até a calçada da casa no Lageado, onde caiu.

O Sargento J. Augusto, do 10º Batalhão, disse que o agressor foi encontrado na casa da irmã, próximo à residência da vítima. Segundo ele, o casal estava bebendo na residência e começou a discutir.

Então, o homem de 30 anos iniciou a série de agressões contra Natali. “Ele estava com bastante raiva, pois deixou ela toda desfigurada”, disse o sargento.

Segundo os familiares da vítima, ela teve os cabelos cortados e foi acertada por uma garrafa na cabeça ainda dentro de casa. Após isso, foi esfaqueada com a bebê no colo. Natali correu para fora de casa, quando colocou a criança de um ano na grama e seguiu para pedir ajuda na frente de casa, onde acabou morrendo.

A criança foi resgatada por um dos moradores e o socorro foi acionado pelo cunhado, que mora ao lado da residência do casal.

Ainda neste ano, o filho de 7 anos de Brenda Possidonio de Oliveira, de 25 anos, assassinada com facadas no pescoço pelo namorado também de 25 anos, no bairro Vila Nathalia, em Campo Grande, na noite do dia 29 de junho, acordou com os gritos da mãe pedindo por socorro.

A criança foi acolhida por uma vizinha que, ao sair para ver de onde vinham os gritos de socorro, encontrou Brenda caída na calçada dando seus últimos suspiros. O menino ainda teria corrido atrás do autor e dito: “Você matou minha mãe”. A criança quis ajudar a mãe, tentando estancar o sangue que jorrava do pescoço, mas Brenda morreu na calçada da casa da vizinha.

O autor ainda tentou cometer suicídio após o feminicídio, mas foi salvo pelos familiares que chegaram à residência a tempo. 

Caso ainda mais sensível, ocorreu em maio do ano passado. Érica Miranda Souza, de 27 anos, foi assassinada na chácara onde morava em Terenos. O marido e autor do crime, de 28 anos, teria ainda feito os filhos da vítima de 2 e 9 anos irem dormir com a mulher, já morta, na cama. O menino mais novo foi encontrado dormindo abraçado com a mãe.

Moradora da propriedade vizinha relatou que o filho de Érica, de 9 anos, foi até ela por volta das 6 horas do dia seguinte. O menino teria dito que o ‘tio’ tinha matado a mãe dele.

A criança contou que após o marido de Érica atirar nela, levou o menino até a sede da propriedade rural, onde guardou a arma de fogo e fez uma ligação telefônica de um aparelho fixo.

Já de volta à casa onde a família vivia, o homem ordenou que o menino fosse dormir junto com o irmão mais novo, de 2 anos, com a mãe. A vítima estava deitada na cama, provavelmente morta, segundo a polícia.

Isso porque o filho contou para a vizinha que chamou a mãe várias vezes, mas ela não respondia. O autor do crime chegou a ordenar que a criança esperasse até o amanhecer para pedir ajuda. O homem chegou a fugir, mas foi preso em outra cidade quando tentava sair do Estado.

Em 26 de janeiro de 2022, Francielle Guimarães Alcântara, de 36 anos, foi morta pelo marido, Adailton Freixeira após passar dias sendo torturada por ele. O crime só foi descoberto após o delegado Camilo Kettenhuber, da 6ª Delegacia de Polícia Civil, desconfiar do laudo da funerária. Isso porque inicialmente as equipes que foram ao local tinham a informação de uma morte natural.

Segundo os exames, ela foi vítima de estrangulamento, asfixiada com um cordão no pescoço. No entanto, a vítima já trazia marcas da tortura que sofria pelo marido, como dentes e unhas quebrados, cabelo cortado e as nádegas em carne viva.

Francielle teve um bebê, que na época do feminicídio tinha menos de dois anos. O bebê na época, logo após o crime, ficou com a irmã.

Adailton foi condenado a 24 anos, 2 meses e 5 dias de prisão em regime fechado e também teve de pagar R$ 15 mil reais pelos danos morais causados à família da vítima.

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