Em Mato Grosso do Sul foram 147 casos de violência contra a mulher nos dez primeiros dias de 2014. Um número alarmante e até mesmo revoltante, numa época em que os direitos de igualdade de gênero são cada vez mais defendidos, mas que ainda assim muitos homens veem as mulheres como propriedade. 

Mas além das vítimas, os familiares das vítimas de violência também sofrem com homens que acreditam que as mulheres são suas propriedades, não suas companheiras. Este é o caso do professor André*, que vive um drama de violência contra a mulher. Há dez anos ele presencia sua irmã sofrendo problemas com o marido, que é extremamente violento. A irmã está neste momento separada dele, mas ele não acredita na separação definitiva. 
 
“Ela sempre acredita nos pedidos de perdão dele, e acaba voltando. Desta vez ela tentou se separar, alugou uma casa perto da minha, mas ele não a deixa em paz. Vivemos um inferno, tivemos um Natal complicado, pois ele a agrediu no dia 16 de dezembro e acabou preso, só que dois dias depois foi solto. E aí tudo piorou, pois ele ficou mais nervoso, tentou agredir a todos da família. 
 
Na verdade, eu não acredito que eles vão se separar definitivamente, pois minha irmã é doente por causa dele, e acredite, já fizemos de tudo para que ela fique separada, cheguei a implorar para ela ir para um abrigo oferecido pela polícia, porque eu sei que ele não vai ficar preso, eu tenho certeza disso”, relata ele sobre a questão da Lei Maria da Penha.
 
E realmente, apesar dos números exorbitantes, o número de mulheres atendidas é baixo se comparado, pois entre 2002 e novembro de 2012, a Casa Abrigo para Mulheres em Risco de Vida recebeu 290 mulheres e 517 crianças. E o fato de ela não ter aceitado ir para o abrigo, deixa a família com medo  constante. “Ele briga com ela quando ela pede que ele mude, seja uma pessoa melhor, e também já bateu nela quando ela descobriu uma traição dele. Não entendo, porque ela tem dois filhos com ele, mas tem o apoio da família, e depois de morta, não vai adiantar mais nada, esse é meu grande medo”, pontua. 
 
Para ele, que não está conversando com a irmã depois de ela titubear em voltar com o marido, ela já está com ele de novo. “E não adianta, ele não vai mudar, ele vai continuar fazendo isso com ela, agora só penso em proteger meus sobrinhos. É muito difícil ver uma irmã nessa situação, mas fiz de tudo, agora a situação deve partir dela”, sentencia. 
 
Morte após separação 
 
Alguns casos terminam em tragédia, como foi o caso da operadora de caixa Dayane Silvestre, morta a tiros pelo ex-companheiro no sábado (4). O ex-companheiro dela Júlio César Barreira , foi apontado como autor dos disparos, e segundo a família, antes de a tragédia acontecer, Júlio sempre deu sinais de violência, o que gerava muito medo.
 
O irmão da vítima, Douglas Silvestre conta que os dois estavam separados há cinco meses, mas que quando eram casados, ela vivia praticamente em cárcere privado. “Quando eles eram casados, soubemos que ele batia nela, proibia o contato, vivia praticamente em cárcere privado”, conta ele informando que o ex-cunhado chegou a quebrar o telefone e máquina fotográfica da operadora de caixa para que ela não ficasse em contato com as pessoas. 
 
“Ele era obcecado por ela, não aceitava que ela tivesse contato, e quando ela nos contava as coisas, falava chorando, implorava para que fizéssemos tudo que ele quisesse pois ele era muito perigoso, mas não aceitávamos”. Douglas se revolta em dizer que mesmo com a intervenção da família nada foi feito. “Quando meu sobrinho nasceu, ele invadiu a Santa Casa, então meu pai fez um boletim de ocorrência, mas na delegacia, ele foi tratado com certo deboche, pois falaram que somente a Dayane poderia ir fazer o boletim de ocorrência, mas ela tinha muito medo e tentamos proteger”. 
 
De acordo com a família, Dayane estava separada há cinco meses de Júlio César. “Achamos que
ele estava conformado, mas foi um engano, infelizmente foi um engano”, lamenta o irmão. 
Júlio César se entregou à polícia, alegou ter matado Dayane “sem querer”, em um movimento brusco e que “a amava demais”. Para a família, ele não pensou no filho do casal e quem ama não mata. 
 
Repercussão 
 
O caso da jovem Giovanna Nantes, 19 anos, tomou conta das redes sociais e da imprensa gerando vários comentários por causa das fraturas sofridas por ela no que a família acredita terem sido causadas pelo namorado dela, um jovem da mesma idade. 
 
Revoltada, a tia de Giovanna, Andressa Montini pede que seja feita a justiça, mas diz acreditar que a menina levará a pior. “Não adianta, teremos de tirá-la da cidade”, explica sobre o fato de a jovem ter sido exposta e de tudo que aconteceu. “Ela é nova, não consegue falar ainda, mas podemos ver as lágrimas escorrendo, esperamos que ela conte o que aconteceu, pois estamos em choque. Sabíamos que ele era muito ciumento, mas nunca deu sinal de agressividade”, conta ela. 
 
Questionada sobre a possibilidade de a sobrinha “perdoar” o namorado como acontece em muitos casos, ela rechaça. “Vamos levar a Giovanna ao psicólogo, vamos dar todo suporte a ela, para que ela consiga sair dessa, pois piores são as marcas psicológicas, toda família foi atingida, e vamos tentar protegê-la ao máximo de tudo isso”, garante. 
 
A família fez protesto e o Ministério Público pediu a prisão preventiva de Matheus, que agora está foragido. Segundo as informações do advogado Armando Garcia, que representa o jovem “nem o pai sabe onde ele está”. O primo de Giovanna, que teria sido o pivô da briga do casal, faz campanha diuturnamente para que o jovem seja preso. A revolta fica clara em suas palavras. Giovanna, em casa, segue sem falar e com vários pinos na face. 
 
Coragem para separar 
 
Vítima de violência doméstica, Renata*, 40 anos, diz acreditar na versão que Dayane apresentou para a família. Ela ficou casada durante cinco anos e há nove meses se separou depois de sofrer agressão física do marido. “Ele nunca tinha sido agressivo, até que um dia logo depois de uma conversa ele ficou fora de si e começou jogar coisas em mim, aí meu sinal de alerta tocou e pela primeira vez senti medo dele”, conta a mulher. 
 
Segundo ela, quinze dias depois veio em outra discussão aconteceu uma agressão física de fato. “Eu cobrava que tivéssemos mais condições de vida, que ele tivesse mais ânimo, então ele se irritou e me deu dois socos na cabeça, com a força bati o rosto no vidro do carro, foi aí que eu senti muito medo, e resolvi me separar”, pontuou. 
 
A mulher conta que não procurou a delegacia, mas também não quis pagar para ver a mudança do marido. “Ele disse que tinha acabado a paciência dele e que eu ia ver, não quis esperar, senti muito medo de morrer e deixar meu filho sem mãe, então me separei e toda minha família ficou sem entender, pois nosso casamento não tinha brigas”. 
 
Renata garante que hoje prefere ficar sozinha. “Estou traumatizada, não quero nem saber de namorar e casar outra vez acredito que não vai fazer parte dos meus planos”, garante ela que também não prestou queixa contra o ex-marido. 
“Não queria me expor, foi muito difícil separar, ainda gostava dele, mas minha vida era mais importante”. 
 
Denúncia 
 
Segundo a promotora Ana Lara Camargo de Castro, da Vara da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, parentes, amigos, vizinhos podem acionar o serviço 190 da Polícia Militar, o serviço 180 do Governo Federal, procurar a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher ou diretamente o Ministério Público. 
* Os nomes foram modificados a pedido dos entrevistados
(Colaboraram Juliene Katayama e Nealla Machado)