Esta sexta-feira (26) completa um ano que uma menininha de dois anos deu entrada na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) Coronel Antonino já morta nos braços da mãe, Stéphanie de Jesus. Autópsia apontou que Sophia de Jesus Ocampo teria agonizado por até seis horas antes de morrer naquela quinta-feira de 2023. O padrasto Christian Campoçano Leitheim é acusado de ter cometido violência contra Sophia.

A menina, que sempre apareceu sorrindo nas fotos, teve uma breve vida marcada pelo sofrimento e abusos. A garotinha teria sido levada mais de 30 vezes às unidades de saúde depois de sofrer torturas e estupro. 

A perita Rosângela Monteiro, que atuou no caso Nardoni, em 2008, teria apontado que a menina foi abusada várias vezes. “A violência sexual foi claramente identificada pelo rompimento de hímen, a heperemia em partes da vagina e esquimoses na face interna das coxas, e o rompimento do hímen já estava cicatrizado, portanto, fora realizado em data anterior da morte da vítima”, diz parte da análise.

‘Não foi acidente’: médico legista fala que Sophia pode ter agonizado até a morte.

Um relatório do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), sobre as mensagens trocadas entre Stéphanie e Christian, revelaram torturas e até ameaças de quebrar o pescoço de Sophia. 

Em agosto de 2022, a mãe de Sophia questiona o marido sobre uma marca de mordida no braço da menina, e ele responde: “sabe que não controlo a mordida, ela é macia demais”.

No dia 16 de novembro, em mais uma mensagem enviada do padrasto da menina para a mãe de Sophia, ele fala que deu uma surra na , e que percebeu que ela ficou com um galo na cabeça e estava com a boca sangrando. 

Além disso, os dois ainda teriam sido denunciados por tortura contra Sophia quando ela teve a perna quebrada a chutes por Christian. A cena foi presenciada pelo filho do autor que prestou depoimento falando sobre o episódio. “Foi meu pai, meu pai que chutou ela pra rua, chutou ela duas vezes, aí deixou ela machucada”.

Sem data para julgamento

Christian e Stéphanie em dezembro passado durante audiência. (Alicce Rodrigues, Jornal Midiamax)

O caso policial que mais marcou os campo-grandenses em 2023 completa um ano com a indefinição da data de julgamento da mãe e do padrasto de Sophia. O julgamento estava previsto para março deste ano, mas o juiz Aluízio Pereira dos Santos retirou o caso da pauta em 10 de janeiro passado após acolher recurso da defesa dos réus.

Os dois iriam passar pelo Tribunal do entre 12 e 14 de março. A pronúncia foi aceita pelo juiz no dia 7 de dezembro. Christian é acusado de homicídio qualificado por motivo fútil, meio cruel, contra menor de 14 anos e por estupro de vulnerável. Já a mãe, Stéphanie, foi pronunciada por homicídio qualificado por motivo fútil, meio cruel e por omissão.

O casal negou a autoria dos crimes durante audiência, em dezembro passado, e culpou um ao outro pela morte da criança. Uma nova data para o julgamento ainda será marcada pela Justiça.

Responsabilidade institucional

O caso que mais marcou os campo-grandenses em 2023 fomentou debates sobre a crueldade humana e falhas institucionais no acolhimento de e adolescentes em

“Ninguém se sentiu responsável”. Foi o que declarou ao Jornal Midiamax a defensora pública e conselheira estadual de Direitos Humanos, Neyla Mendes, no fim do ano passado. 

A análise da profissional aponta que o órgão que poderia intervir de forma rápida e energética era o Conselho Tutelar, que teria condições de atuar rapidamente retirando a criança do lar e depois informando a Justiça, na preservação do bem-estar.

Crime que mais marcou 2023 em MS, Caso Sophia levantou debate sobre proteção institucional.

Sophia faleceu aos 2 anos de . (Reprodução Redes Sociais)

Dados da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública) apontam que o abuso sexual foi mais frequente entre os menores de em 2023. Quanto menor a idade, há mais registros de estupros. 

Ao longo do ano passado, 47,50% das vítimas de estupro em eram crianças. O Estado totalizou 2.627 abusos sexuais em 2023, sendo 1.248 contra crianças. 

Adolescentes ficaram em segundo lugar, com 840 registros, o que representa 31,97% dos casos. Jovens vêm em seguida, com 233 estupros. Com adultos foram 212, idosos foram 19 registros e o número de casos em que a idade da vítima não foi informada somaram 75.