A nova novela da TV Globo, ambientada em Mato Grosso do Sul, vem trazendo várias discussões desde a sua estreia em horário nobre na brasileira, especialmente no que tange à produção de . Essa palavra, inclusive, tem causado um certo estranhamento por parte dos telespectadores, uma vez que o roteiro não utiliza o termo no feminino, mas no masculino. Assim, o ‘o soja' impressiona por ter referências históricas, mas não é popularmente usado pelos moradores e profissionais da área no Estado.

Vale lembrar que a novela Terra e Paixão roda em Mato Grosso do Sul porque o próprio autor, Walcyr Carrasco, já tem familiaridade com a região devido às suas visitas a um tio que morava em Dourados. Aqui, ele conheceu a ‘terra vermelha' e quis levar essa lembrança para as telas. Assim, durante várias interações entre os personagens, a expressão ‘o soja' se faz presente no folhetim de forma constante.

Segundo Mauro Rocha Mathias, professor especializado em Língua Portuguesa e que acompanha a novela, trata-se de um fenômeno chamado “pedantismo gramatical”. Em resumo, a pessoa sabe que existe um erro, mas continua usando o termo com intenção. Além disso, o especialista acredita que a escolha de Walcyr em colocar ‘o soja' no roteiro esteja ligada às suas raízes familiares e, também, à própria história da inserção da palavra no idioma português.

Soja já foi conhecida como ‘feijão de soja'

Conforme o professor, a palavra soja é de origem chinesa e foi incorporada no idioma português tal qual era originalmente escrita: soya.

“A palavra ‘soja', em chinês, não tem gênero. Mas na língua portuguesa tem o gênero feminino e masculino para os substantivos. Nesse caso, por convenção, pensou-se em colocar ‘a soja', no entanto, como é um grão masculino, alguns antigos, principalmente no interior, falam ‘ soja' ou feijão chinês. Então, por conta dessa corruptela que acontece na língua portuguesa desses fenômenos linguísticos, no interior as pessoas têm o habito de chamar ‘o soja', mas são pessoas mais antigas”, afirma o especialista.

Na percepção do professor, a variação linguística não é à atoa e Waldyr Carrasco adotou ‘o soja' para homenagear os antigos parentes plantadores de soja na região de Dourados, o que permitiu a ele usar de forma mais livre esse recurso de estilo.

“Hoje em dia ninguém fala ‘o soja', só que ele quis reforçar um estilo próprio na escrita dele, então surge no texto que seja falado ‘o soja', mas é mais uma questão estilística”.

Portanto, o termo ‘o soja' é de fato verdadeiro e principalmente usado por pessoas que vieram com a herança do ‘feijão de soja'. Porém, o acesso à Internet e popularização da palavra no feminino deixou a terminologia antiga praticamente em desuso ou restrita a grupos praticamente residentes no interior.  

Walcyr Carrasco tem respaldo poético

Apesar de Mauro afirmar achar estranho o termo ‘o soja' no folhetim, alega que Walcyr Carrasco está respaldado pela licença poética, especialmente por ter familiares herdeiros da variação linguística para o masculino. Além disso, pode trazer boas discussões sobre estereótipo de linguagem e de gêneros.

O soja ou A soja?

O Jornal Midiamax também foi atrás de outras personalidades para entender qual o nível de familiaridade com o termo. Para uma empresária do setor de soja, que tem fazendas em Mato Grosso do Sul, as negociações em seu escritório seguem a terminologia feminina, ou seja, ‘a soja'.

“Nós do escritório usamos a soja. Na fazenda acredito que também”, diz.

Porém, nas redes sociais, sul-mato-grossenses afirmam o quanto o termo ‘o soja' é mais usado principalmente no interior.

Assim, é possível perceber que não existe certo ou errado, mas sim heranças linguísticas que ainda se mantêm ao longo do tempo.

“Inclusive a minha avó falava ‘o soja' e exatamente por essa questão. Pela origem da palavra, de origem chinesa, e também porque chamavam de ‘feijão soja' ou ‘feijão chinês' como era ‘feijão' e feijão é um substantivo masculino, essa masculinidade é transferida também para a palavra soja. Embora pra gente soe incomum, a palavra não está de toda errada. É um dos fenômenos do idioma, é uma característica bem marcante da variação linguística”, conclui o professor.