Baixo número de ambulâncias, surto de doenças e retenção de macas fazem com que o tempo de espera por atendimento chegue a 21 horas em Campo Grande.

Leitores do Midiamax relatam que, desde o começo de julho, há uma demora para atendimento seja do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) ou do Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso do Sul, especialmente quando se trata de transferência de um paciente de uma unidade de saúde para um hospital. 

A demora, nesses casos, pode chegar a 21 horas como foi para a saladeira Luciana Brandão, de 44 anos, que esperou das 23h de domingo (9) até às 21h de segunda-feira (10) para ser transferida da UPA Moreninhas para a Santa Casa, mesmo com a vaga liberada já no hospital. A mulher hipertensa caiu em casa e bateu a cabeça, o que gerou um grave sangramento. 

Conforme conta a filha, Stephanie Brandão, de 21 anos, a família precisou desembolsar R$ 1.026,00 para que uma ambulância particular fizesse a transferência da mulher que chegou em estado grave na Santa Casa e foi internada no CTI (Centro de Terapia Intensiva). 

“Ela tem pressão alta, desmaiou, bateu a cabeça e ficou desnorteada, não fala coisa com coisa. Isso foi negligência porque liguei em tudo quanto é lugar, até para deputados, e ninguém fez nada. A minha mãe estava toda mijada, vomitando sangue e sangrando”, recorda a filha. 

Campo Grande tem apenas uma viatura Ursa (para atendimento avançado) em circulação. (Nathalia Alcântara/Midiamax)

Poucas ambulâncias para muitas ocorrências

Campo Grande tem 897,93 mil habitantes, de acordo com o Censo Demográfico 2022. São 16 viaturas para atender toda cidade com quase 900 mil moradores, sendo 5 do Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso do Sul e 11 do Samu. 

Contudo, Campo Grande já chegou a ter 13 viaturas do Samu em 2019.

No CBMMS, as ambulâncias são denominadas viaturas URs (Unidades de Resgate). Na Capital, dos cinco veículos, quatro são para suporte básico e um é Ursa (Unidade de Resgate e Suporte Avançado).

As ambulâncias do Samu e do Corpo de Bombeiros fazem atendimento de vítimas de acidentes de trânsito, emergências clínicas e no transporte inter-hospitalar de pacientes. 

A prioridade das duas entidades é o atendimento de casos de urgências e emergências, como acidentes graves de trânsito, paradas cardiorrespiratórias, obstrução das vias aéreas e incêndios. O tempo de atendimento varia de acordo com a complexidade e gravidade da ocorrência. 

Casos ‘menos graves’ esperam mais tempo

A classificação de prioridades é um dos pontos para a demora no atendimento na Capital, como foi o caso da idosa que esperou 40 minutos por uma ambulância depois de cair de um carro de aplicativo, do idoso que sofreu AVC e esperou por horas para ser transferido de uma UPA para a Santa Casa e de um jovem de 15 anos que esperou uma ambulância sentido muita dor com o joelho deslocado.

“Há sempre a ponderação das ocorrências mais graves primeiro. Considerando esses fatores, aquelas ocorrências não consideradas de urgência ou emergência serão atendidas posteriormente, conforme disponibilidade”, afirma o CBMMS. 

Já a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde), responsável pelo Samu, afirma que as prioridades são os atendimentos de rua, como são chamadas as ocorrências em que o paciente precisa de socorro, em detrimento aos transportes de pacientes às unidades hospitalares. 

“Uma vez que estes já estão com quadros estabilizados e possuem acompanhamento médico”, afirmou a Sesau em nota. 

Surto de doenças aumenta demanda

Balanço do Samu e do CBMMS mostram que a demanda na Capital é alta, visto que mensalmente o Samu recebe 20 mil ligações e faz 4 mil atendimentos por mês de diferentes complexidades. 

Já o CBMMS diz que cada UR chega a atender até 20 ocorrências por dia, o que representa uma média mensal de 3.100 atendimentos. 

Contudo, a rede pública em Campo Grande também encara nesta época do ano um aumento de atendimentos devido à oscilação de tempo entre quente e calor e baixa umidade do ar. 

O levantamento da Sesau aponta uma alta demanda nas duas últimas semanas e, principalmente, nos dois últimos dias.

Segundo o coordenador de Urgência da Sesau, Yama Higa, a mudança brusca de temperaturas penaliza especialmente os idosos que são acometidos por doenças cardiovasculares como infarto, derrame e AVC. 

“A atualização da última semana mostrou aumento de atendimento geral, principalmente, em mais idosos com doenças cardiovasculares e doenças respiratórias”, afirma.

Conforme o coordenador da Sesau, doenças cardiovasculares precisam ser tratadas em hospitais, o que explica o aumento da demanda de transferência de pacientes de unidades de saúde para hospitais. 

“20 minutos”

Não é difícil encontrar um campo-grandense que não tenha esperado por mais de uma hora para ser atendido por uma ambulância. 

De acordo com a Sesau, o tempo médio de espera para atendimento de casos de urgência é de 20 minutos, contudo há relatos de que a demora seja maior. 

“Sofri acidente em junho do ano passado e tive que aguardar 1h e 40min. Veio SAMU e precisou de apoio da URSA. Tive múltiplas fraturas”, comentou uma leitora nas redes sociais. 

“Essa cidade tem acidentes a todo minuto. Tem que aumentar a frota dos bombeiros e do Samu”, comentou outro. 

Na terça-feira (11), uma idosa que ia para uma consulta médica passou mal e bateu a cabeça antes de entrar em um carro de aplicativo, em Campo Grande. A mulher precisou esperar o atendimento caída no chão por 40 minutos.

Já o CBMMS explicou que, em média, cada ocorrência demora de uma a duas horas, conforme a demanda: desde o recebimento de chamado, triagem, despacho, deslocamento, atendimento propriamente dito, regulação médica, transporte até unidade de saúde até a limpeza e desinfecção da viatura para o próximo chamado.

O Midiamax perguntou ao Corpo de Bombeiros e ao Samu quantas ambulâncias estão em manutenção e qual a previsão para a normalização dos atendimentos, mas não recebeu resposta. O espaço continua aberto para futuras manifestações.