População não vê o que comemorar na data da abolição da escravatura

Está nos livros de história e também na memória dos brasileiros o ato da princesa imperial do Brasil, feito em 1888. À época, Isabel assinou a abolição da escravatura e deu liberdade aos negros. Tal atitude, propagada por todos os cantos do mundo, na verdade, para muitos negros brasileiros, não significa de fato a libertação deste povo.

Ao menos é assim que o vendedor de ervas naturais Paulo Fialho de Souza, baiano de 54 anos, entende a história. O Midiamax falou com ele e com outras pessoas para saber a opinião de cada um sobre o que, para eles, significada a data de hoje. Confira o vídeo abaixo.


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Paulo Fialho, mais conhecido como mestre Mato Grosso dá aulas de capoeira. Arte que segundo ele, não pode ser considerada como um esporte, mas sim como uma expressão da cultura popular. Filho de pai italiano e de mãe africana, nascida na região do Gabão, o vendedor formado também em Educação Física, conta que levou muitas chibatadas da vida, mas nem por isso deixou a essência e o aprendizado dos quilombos.

Sem papas na língua e com muita bagagem na memória, mestre Mato Grosso é objetivo e para ele o que se comemora no mês de maio é o Dia das Mães e não a libertação dos escravos. Curioso, não? Mas ele tem na ponta da língua uma resposta.

“Celebro o dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, Zumbi dos Palmares. Negro tem que deixar de ser coitadinho e parar de acomodação”, conta.

Esclarecido sobre sua origem, seu povo e história a vontade é ampliar o texto e ouvir os relatos do baiano sincero. Mas, o espaço, de fato é para todos e se faz necessário ouvir também a voz oprimida daqueles que de alguma forma se sentem excluídos e percebem, que apesar do passar dos anos, há ainda a existência de um povo escravizado.

“Vê essa história do petróleo, os gravatinhas roubando enquanto o povo aqui, que paga os impostos, é deixado de lado. Todos são escravos deste sistema, o negro, o branco, aleijado, o pobre”, conta o idoso vendedor Arlindo Francisco da Costa, 71.

Na ótica de Arlindo, o tal do preconceito não é só racial e esbarra na diferença entre as classes sociais. Leonarda , 41, divorciada e mãe de 3 filhos também se lembra do ato da princesa em 1888. Mas, de forma geral, assim como o idoso Arlindo, sabe que a ‘liberdade’, não foi conquistada ali. A liberdade dela, por exemplo, é vivida hoje.

“Há alguns anos eu e uma outra mulher fomos em uma loja que precisava de atendente. Fomos contratadas, ela ficou como atendente, mas o chefe me levou para trabalhar de faxineira na casa dele. Disse que eu não tinha perfil”, relata.

Na época ela disse que aceitou o emprego, pois precisava de um trabalho. Apesar das atuais dificuldades enfrentadas por ela, como os obstáculos que tem para ajudar o filho a pagar uma faculdade pelo fato de ele não ter conseguido bolsa integral, hoje a postura de Leonarda seria diferente. Questionada se aceitaria a mesma mudança de cargo, ela, apesar da estrutura franzina, mas com muita força de vencer, rebate: “hoje eu escolheria”.