“A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”, diz célebre de Chico Buarque que versa sobre o luto, um dos sentimentos mais desafiadores para quem o enfrenta. Invariavelmente, todos, um dia, vão se deparar com a dor da perda. Mas, há casos em que restabelecer o rumo da vida fica ainda mais difícil.

Como daqueles que perderam entes queridos pelas mãos da violência. Para eles, lidar com a realidade torna-se ainda pior. É mais que uma partida de forma bruta e inesperada, é buraco no peito de quem sabe que a dor física fez parte e abraçou o último suspiro de vida.

Diariamente, as notícias narram esses episódios. O “quem morreu, quem matou” do dia a dia, que estampa manchetes, movimentam as redes e que, na maior parte das vezes, é insensível com a dor desamparada daqueles que permaneceram, mas perderam alguém.

Para quem fica, resta lidar com a eterna saudade e esperança de que os dias fiquem menos cinzas, a dor diminua e que a Justiça seja feita.

Amor que só aumenta, apesar da ausência

“O amor incondicional nasce com a chegada de um filho. E só aumenta, independente da presença física dele”. A frase é de Cristiane de Almeida Coutinho, mãe de Matheus Coutinho, jovem assassinado aos 20 anos com 7 de fuzil em abril de 2019, no , em

Inocente, Matheus perdeu a vida, após pistoleiros o confundirem com o próprio pai, que seria o alvo da execução. Para os jornais, a barbaridade do crime foi pauta inevitável, que culminou no julgamento considerado o maior de todos os tempos de Mato Grosso do Sul. Para Cristiane, porém, o assassinato brutal tem outra perspectiva, e deixou feridas que não cicatrizam. 

Cristiane usou palavras do poeta Fabricio Carpinejar para definir como tem se sentido. Em uma entrevista, Fabrício diz que ‘Perder um filho é uma desumanidade. Você não vai amar menos um dia sequer esse filho. O amor só aumenta, mesmo ele não estando presente’, disse.

Cristiane afirma que não existe superação para uma mãe e a dor às vezes bate mais forte, mas o que incomoda é que as pessoas aparentam não querer que toque no assunto.

“Querem que superemos. Não querem que toquemos no assunto, mas não existe superação para uma mãe. A dor não irá passar. Mas, gosto de falar do meu filho. Meu amor por ele é de sempre e para sempre”, afirmou.

Uma conversa com Matheus, no dia do aniversário de Cristiane, cinco dias antes da morte do filho, é a foto de perfil em uma das redes sociais.

Mensagem guardada é tesouro quando a saudade bate

“Você é a melhor mãe do mundo todo. Não tem ninguém que se compare a você e se temos bom caráter e bom coração é porque você fez isso. Eu te amo muito, mãe. Obrigada por ser minha mãe querida”, escreveu Matheus às 7h30 do dia 4 de abril daquele ano, poucos dias antes de ser morto.

Na mensagem que serve de amparo, há também motivação pela Justiça. Cristiane, a propósito, atuou como assistente de acusação no julgamento dos réus da morte do próprio filho, ocorrido neste ano. O trio foi condenado a um total de 67 anos de prisão no maior julgamento da história de Mato Grosso do Sul.

Mensagem enviada por Matheus Coutinho para a mãe, cinco dias antes de ser assassinado. (Arquivo pessoal)

Quarto arrumado e certeza de que filho não voltará

Seis anos se passaram desde que Wesner Moreira faleceu. O quarto dele continua intacto: da pulseira da maternidade às roupas, sapatos, material escolar, boletim, fotos, certificados, relógio, cada item guardado ajuda a matar a saudade.

Wesner foi embora cedo, aos 17 anos, e de uma forma ainda mais difícil de acreditar. Em fevereiro de 2017, durante uma suposta ‘brincadeira’ de mau gosto, dois, até então ‘colegas’, introduziram uma mangueira de ar no ânus de Wesner, causando-lhe ferimentos e em seguida sua morte.

O crime foi cometido no Lava Jato, localizado na Avenida Interlagos, na Vila Morumbi, onde a vítima havia acabado de começar a trabalhar. Os acusados foram condenados a 12 anos, mas a defesa entrou com recurso e por isso a dupla responde em liberdade.

“Onde olho, o vejo”, diz à reportagem Marisilva Moreira da Silva, mãe de Wesner. Ela conta que o adolescente sonhava em servir o Exército, além de outros milhares de sonhos que todo jovem tem. Marisilva também conta que perder um filho é como perder um pedaço de si.

“Fico lendo as coisas dele, as fotos, arrumando, bate aquela saudade e choro bastante. Peço muito para Deus para me dar força para seguir em frente. Eu ainda choro muito. Onde eu olho, o vejo”, diz.

Itens que serão guardados para sempre pela mãe de Wesner. (Nathalia Alcântara, Midiamax)

Para se distrair, Marisilva diz que vai às vezes vai para a casa da mãe. Agora, com a chegada do de ano, o coração vai ficando ainda mais apertado. “Todo dia é difícil. Dói demais, ainda. Estou vivendo um dia de cada vez. Às vezes, acho que não vou aguentar, mas quando chega a noite, oro e agradeço por passar mais um dia”, afirma. “O processo do luto é viver cada dia de uma vez. Não tem como arrancar essa dor do peito, mas posso amenizar um pouco”, completa.

Pulseira e saída de maternidade do Wesner. (Nathalia Alcântara, Midiamax)

No Dia de Finados, Marisilva procura visitar o túmulo do filho e aproveita para orar e relembrar bons momentos ao lado dele. “Ele era maravilhoso, bondoso… Quando pedia para ele ter cuidado, ele falava que ele não fazia mal para ninguém, então, quem faria para ele?”, relembra.

Marisilva disse que se Wesner tivesse ido embora por uma doença também ia sofrer, mas não tanto quanto está sofrendo pela forma como ele perdeu a vida.

No caso dela, porém, o recurso que mantém os réus em liberdade dificulta a encerrar o ciclo. “Eles foram condenados, mas estão soltos, com a família deles, filhos. Para mim parece que foi ontem. É uma dor que nunca vai passar”, conclui, já aos prantos. “Tenham fé, orem, e se apeguem na bondade e caridade”, orienta a quem passa pelo mesmo sentimento.

Neste Dia de Finados, o Jornal Midiamax também publicou uma reportagem especial sobre grupo de apoio a enlutados que funciona em Campo Grande. A matéria pode ser conferida clicando AQUI.