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Humanizar é respeitar o direito da mulher em escolher como será o nascimento do bebê

Seja parto normal ou cesariana, o que conta mesmo são as boas práticas

Mariana Lopes Publicado em 21/02/2018, às 10h48

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Seja parto normal ou cesariana, o que conta mesmo são as boas práticas

Apesar das 34 horas de trabalho de parto, a fisioterapeuta Rafaela Monteiro de Alencar Moura, 27 anos, trouxe a primeira filha ao mundo da maneira que sempre sonhou, através de um parto normal e humanizado.

As primeiras dores das contrações começaram leves e espaçadas. Era uma sexta-feira a tarde, dia 29 de janeiro de 2016. A bolsa ainda não tinha estourado, então, por orientação médica, ela permaneceu em casa. A doula começou a acompanhar o trabalho de parto à noite, quando as dores ficaram mais fortes.

No início da madrugada de sábado, Rafaela foi à maternidade para fazer o exame de dilatação e conferir os batimentos cardíacos do bebê. 

“Estava com quase 3 centímetros  de dilatação. Voltei às cinco horas da tarde e estava com cinco centímetros, mas a bolsa ainda não tinha estourado. Depois  desse horário as contrações  começaram a ser mais frequentes”, lembra Rafaela.

Às 22h do sábado, 30 de janeiro de 2016, ela foi internada. “Não  aguentava mais de dor, as contrações estavam ritmadas e com intensidade bem forte. Estava com 8 centímetros e cheguei aos 10 até rápido,  mas a bebê não descia”, conta Rafaela, que até chegou a pedir à médica que fizesse uma cesariana.

Mas com um pouquinho mais de paciência e carinho, não foi preciso que Rafaela desistisse do parto normal. Além do apoio do marido, que acompanhou as 34 horas de trabalho de parto, ela também contou com a condução da médica obstetra, que a tranquilizou dizendo que estava tudo bem e que logo ela teria a filha nos braços.

Mas neste momento, o trabalho de outra profissional também foi importante. A doula, que a acompanhava desde a noite do dia anterior, começou os procedimentos para ajudar o bebê a se posicionar dentro do ventre, como agachamento, subir e descer escadas e os exercícios com a bola.

Enfim, às 5h21 da manhã de domingo, dia 31 de janeiro de 2016, nasceu a pequena Manuela, com 3.230 quilos e 49,5 centímetros. “Foram muitas horas, já estava cansada, com medo, mas foi um momento  lindo, a Manu nasceu no tempo dela, de forma natural. A única intervenção necessária foi para estourar a bolsa”, relata Rafaela, que hoje vive a segunda gestação e se prepara para mais um parto normal.

Rafaela e Manuela

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Esquecida no pós-cirúrgico

Assim como Rafaela, a jornalista Luciana Brazil, 36 anos, também sonhava em ter um parto normal. Mas durante o pré-natal do primeiro filho, ela topou com uma médica que de cara falou que só fazia cesariana. “Mas ela me deixou livre para eu optar em ela acompanhar a minha gestação e o parto ser feito pelo médico que estivesse no plantão da maternidade”, explica Luciana.

No início, Luciana considerou a proposta da médica, mas conforme a gestação avançava, bateu a insegurança em cair em mãos de profissionais que ela poderia não conhecer o trabalho. E assim, ela se rendeu à ideia de passar pelo procedimento cirúrgico.

Dia 10 de fevereiro de 2017 foi a data escolhida para o nascimento de Lucas. Era uma sexta-feira de Verão. A família esperava por esse momento e contava as horas para ver o rostinho dele.

Luciana conta que durante a cesariana tudo ocorreu bem e dentro do planejado. Mas o pós-operatório foi bastante angustiante. “O Lucas nasceu às 14h43 e eu só fui pro quarto às 21h, Depois da cirurgia, fui pra recuperação e ali foi o meu problema. Ainda meio sonolenta por causa da anestesia, eu olhava para o relógio e via a hora passando, via as macas com as outras mães ficarem lá só um pouco e já saiam, e comecei a ficar aflita, não tinha nem muita força pra levantar. Fiquei seis horas na recuperação, praticamente esquecida e sem poder ter contato com meu filho”, desabafa Luciana.

Neste caso, o trauma não foi ocasionado pela forma como a mãe escolheu em dar à luz, mas sim por uma falha no atendimento realizado pela equipe de profissionais da maternidade. E este é ponto principal na hora do nascimento de um bebê: as boas práticas que humanizam os procedimentos, seja em um parto normal ou em uma cesariana.

Cesariana x parto normal

Vale lembrar que cadaparto é umaexperiênciapessoal e particular. E a mãeprecisa de liberdade e respeitoparaescolher a maneiracomoquertrazer o filho ao mundo.

“A humanização nada mais é do que o repeito do protagonismo da mulher durante toda a gestação, isso inclui a realização de exames, vacinas, medicação. Basicamente é o respeito às escolhas da mãe – claro, desde que não implique dano a ela e ao bebê”, explica a médica obstetra Rubia Borges.

​No caso da cesariana, é possível tornar o procedimento cirúrgico humanizado com boas práticas médicas. Em primeiro lugar, Rubia enfatiza que esta deve ser uma escolha consciente da mulher, sem influencia ou pressão de outra pessoa, nem mesmo o profissional que a acompanha. 

E médica ainda pontua outras atitudes que tornam o momento e o ambiente mais leve. “Na hora do nascimento, o calor humano faz toda a diferença, ter uma companhia que seja da escolha da mãe, para ela se sentir acolhida. No desenrolar a cirurgia é importante o médico conversar com a mulher, para ela saber o que está acontecendo.Depois da cirurgia, é feito o contato pele a pele entre a mãe e o recém-nascido, deixá-lo no colo dela, esperar o cordão parar de pulsar. Esse momento pós-nascimento, a primeira hora de vida do bebê, é importante ter o vínculo, a amamentação, a mãe sente que participa ativamente do nascimento do filho dela. Mas tudo isso demanda tempo”, explica Rubia.

Sobre o mito dos riscos de um parto normal, Rubia esclarece que todo procedimento tem risco. “O parto normal bem assistido é muito melhor do que uma cesária, porque é fisiológico. Acredito na natureza e o parir é algo natural. Com boas práticas, não há perigo”, ressalta. 

No final das contas, o que faz a diferença mesmo é o tratamento e o trabalho em conjunto de toda equipe de profissionais que atuam no nascimento de uma bebê.

Doula

A demanda do trabalho das doulas cresce a cada ano. Basicamente, essa profissional oferece às mães apoio físico e emocional na hora do nascimento do bebê. “Ajudar com formas não farmacológicas a diminuir a dor das contrações, com massagem, manobras, orientando as posições da mulher para  ajudar na descida do bebê. Além da parte emocional, o incentivo, não deixar desistir, mostrar que ela é capaz de poder parir. Nem  toda mulher precisa de uma doula, mas todas merecem. A gente nunca sabe como vai ser”, explica Tatiana Marinho, doula há 14 anos.

O trabalho da doula geralmente está presente em partos normais e busca, justamente, humanizar o momento do nascimento. “A maioria das pessoas que busca doula é para parto normal. Às vezes, acontece de ir para a cesariana, antes ou depois do trabalho de parto. Existe  doula que não acompanha quando vai para o centro cirúrgico, por uma questão pessoal, que não acham que tenham essa importância. Eu sempre tive dúvida em relação a isso, mas na experiência que já tive, vi que foi importante, porque a cesariana não era a escolha da mãe”, pontua Tatiana.

Porém, quando a cesariana é uma opção da mãe desde a gestação, a história muda e abre espaço para discussão. “Não  fecho contrato com cesariana eletiva, mas existem  outras doulas que acompanham”, enfatiza Tatiana. Embora, ela acredite que uma cesariana possa ser humanizada. “Depende mais da equipe médica, do comportamento das pessoas dentro do centro cirúrgico e como vão apresentar o bebê à mãe”, avalia.

Jornal Midiamax