Um “novo jeito” de tomar tereré exibido pela novela “Terra e Paixão”, ambientada em Mato Grosso do Sul, está dividindo as opiniões dos sul-mato-grossenses. É que a trama das 21 horas fez uma espécie de adaptação da cultura local, mostrando os personagens com guampas individuais ao invés de dividirem o mesmo copo e a mesma bomba, como de costume. Além disso, em “Terra e Paixão”, são raras as vezes que uma garrafa de água aparece perto de quem está tomando tereré – os personagens seguram suas guampas como se a água contida nelas fosse infinita.

Sempre que se deparam com a representação, sul-mato-grossenses mais tradicionais se sentem desrespeitados pela maneira como o folhetim tem difundido o tereré, que é Patrimônio Imaterial e Cultural de Mato Grosso do Sul. Por isso, há quem diga que “nem a licença poética pode mudar uma tradição”.

No entanto, também há sul-mato-grossenses adeptos da tal prática individualista de tomar tereré. Eles alegam higiene e “proteção a saúde”, especialmente após a pandemia do Coronavírus, que chegou a fazer prefeituras emitirem decretos proibindo as rodas de tereré.

Contudo, a pandemia teve o fim decretado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em maio deste ano, pouco antes da novela estrear. Desse modo, e bem antes disso, não há mais restrições para que as rodas de tereré aconteçam. Ainda assim, por algum motivo desconhecido da audiência, “Terra e Paixão” resolveu colocar em cena personagens com guampas individuais por duas vezes.

Alguns acreditam que o desconhecimento da cultura local tenha feito os atores “passarem a maior vergonha em cena”, enquanto outros pensam que, talvez, eles teriam nojo, ou ainda estariam certos, “pois é assim que se deve tomar”.

Representação do tereré

O fato é que o tal tereré “higiênico” de “Terra e Paixão” virou assunto de um debate sem consenso nas redes sociais. Ao mesmo tempo em que sul-mato-grossenses tradicionais reiteram o desrespeito, os menos ligados à tradição apoiam a maneira exibida pelo folhetim e se dizem adeptos do que seria um “novo normal”.

Em meio a essa discussão, cabe destacar que o remake da novela “” (2022) levou ao ar uma cena do protagonista Zé Leôncio (Marcos Palmeira) ensinando a ex-sogra Mariana (Selma Egrei) a consumir a bebida. Em sua fazenda no Pantanal de Mato Grosso do Sul, Zé Leôncio apresentou a tradição para a carioca tal como se conhece em MS. Ele pegou a própria guampa, com a mesma bomba que havia acabado de tomar, e deu para ela experimentar. A idosa achou amargo e não gostou.

Vale lembrar ainda que “Pantanal” foi toda gravada durante a pandemia do Coronavírus e “Terra e Paixão” não. Mesmo assim, o remake optou por mostrar a cultura como ela é.

Afinal, “Terra e Paixão” está certa ou errada ao exibir uma forma singular de tomar tereré? Sem um contexto declarado e explicado ao telespectador, a novela estaria “ensinando do jeito errado para um Brasil que não conhece a cultura local”, destacam moradores.

Em contrapartida, os inúmeros defensores alegam que esse deveria ser o jeito único de se tomar tereré. “Já faço isso desde antes da Covid, aqui em casa é cada um com sua bomba”, comentou uma campo-grandense.

Doenças e vírus?

Quando se justifica as sequências de “Terra e Paixão” alegando que o compartilhamento do tereré pode transmitir vírus e doenças, o argumento parece não se aplicar ao folhetim, já que os personagens rotineiramente se beijam, enfiando suas línguas dentro da boca de outros colegas. Ainda que seja apenas um beijo técnico e alguns sem a língua, o boca a boca acontece tal qual no tereré. Quer dizer que o beijo não dá doença mas o tereré dá?

“Será que o povo é tão esquecido que acabamos de sair de. Uma PANDEMIA. Se quer tomar tereré, o melhor é ser individual sim. A novela não vai passar uma imagem errada depois de mais de 700 mil mortes no país”, pontua uma sul-mato-grossense.

Outro ponto observado pelos defensores da cultura é que as mesmas pessoas que dizem que tereré individual é mais higiênico e também é a forma correta, seriam as mesmas que dividem narguilé em rodas nas tabacarias ou quintais e varandas de amigos. Será?

“Tradição é tradição, se quer mostrar a cultura, então que mostre do jeito certo. Tereré é pra ser tomado em grupo numa roda de amigos ou até mesmo em dois, mas com uma única guampa. Estão encenando uma cultura totalmente errada e não é só no tereré não, esse sotaque ridículo que nada se parece com o nosso está de dar vergonha”, opinou Marcilei da Silva

“Essa tá por fora da casinha! Tenta mostrar a cultura sul-mato-grossense e comete erros. Não existe em MS ‘tererê' e sim ‘tereré'. Todos tomam na mesma guampa e não cada um com a sua… Daqui a Globo vai inventar história para justificar!”, comentou Leneldo Ferreira, que é professor.

Por fim, uma opinião ainda mais ácida sobre o assunto polêmico. “Falou o pessoal ‘higiênico' que o cãozinho da família lambe a boca (depois de lamber o fiofó)”, disparou Joelcio Fernandes.

Existe jeito certo de tomar tereré?

A cultura paraguaia difundida em Mato Grosso do Sul ensina o compartilhamento e segue o teor da socialização, fato que é destacado pelo morador Rommel Yatros, crescido e criado na fronteira.

“O tereré nada mais é que água filtrada na erva-mate. Tomar tereré é um evento, uma roda. Tem o que serve e coordena a roda, que gira no sentido horário, e quem acaba de tomar volta a guampa para o e agradece, pois quando faz isso demonstra que está satisfeito e não quer mais. A roda de tereré é onde se discute sobre tudo, inclusive nada, onde se resolve grandes demandas, chora as mágoas, se conquista a pessoa amada. E nesse universo, compartilhar a guampa é selar o compromisso, apertar os laços de amizades . Por isso, quando se insiste em quebrar o espírito, nos manifestamos”, explica.

Cada indivíduo, obviamente, tem o direito de escolha e pode tomar o tereré da forma como bem entender. Contudo, o sul-mato-grossense se mostra um povo defensor da cultura que propaga. O mesmo acontece quando a população vê alguém tomando tereré com guaraná, suco e outros líquidos que não sejam água. Imediatamente, o povo de MS chia, mesmo que esse seja o hábito de outras regiões.

O leitor acima resume o sentimento de pertencimento e o que implica em tantas reclamações: “quando quebram o espírito, nos manifestamos”, frisa ele.

Mudança na tradição do tereré?

Em 2020, durante um dos auges da pandemia, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul publicou um texto falando da mudança de hábitos em decorrência da Covid-19.

“Tomar tereré e chimarrão de forma solitária? Mudanças de hábitos? Talvez esse seja o caminho para que o povo não perca o prazer de degustar a bebida, seja ela o tereré ou o chimarrão. O caminho sugerido é que se faça uso dessa tradição com a consciência de novos tempos, não compartilhe o uso das ‘bombas' (para quem não conhece, é uma espécie de canudo feito de aço). E o apreciador vai ter de optar entre: o social; se deliciar sozinho; e na terceira hipótese, distância de 1,5m, e cada um com a sua cuia e bomba na mão, estranho, né?”, disse o MPMS na época.

No mesmo texto, o Ministério Público Estadual pontuou sobre a mudança na tradição.

“Tradição muda? Muitos hábitos e possivelmente tradições devem mudar a partir da descoberta do novo coronavírus. O narguilé, uma tradição entre os Turcos e Libaneses, e no Brasil mais uma moda, por conta de uma novela das nove. Uma tradição importada e que tem como adeptos em sua maioria os adolescentes, é preocupante. O uso desse ritual também coletivo deve ser levado em conta.

O tabaco ou o narguilé é uma escolha, porém, os especialistas não recomendam o uso de nenhum dos dois. Para fumar o narguilé é necessário compartilhar o bocal entre os usuários, esse ritual pode transmitir doenças como herpes, hepatite C, tuberculose e a COVID-19″, problematizou.

Entretanto, três anos depois, a pandemia chegou ao fim. Ao que parece, a Covid-19 deixou lições e mudou os hábitos de muitos, mas, vale lembrar que a pandemia não está mais presente.

O futuro do tereré “higiênico”

Voltando ao tema tereré higiênico de “Terra e Paixão”… Como não há uma situação pandêmica e a novela não se passa no período da pandemia, a representação do tereré individual soa equivocada para parte dos sul-mato-grossenses preocupados em como a TV Globo está mostrando a cultura.

O individualismo, no entanto, também destaca a tendência e a mudança de comportamento entre os moradores, que se manifestaram e disseram ser, em boa parte, adeptos. Desse modo, enquanto envergonha alguns, a novela das nove ambientada no Estado pode estar antecipando um comportamento do futuro, ou ainda representando um sul-mato-grossense traumatizado com vírus, mesmo sem saber.

Ao mostrar personagens tomando o tereré higiênico, a direção de “Terra e Paixão” tem uma intenção. Eles foram colocados em cena de tal maneira após alguma decisão ou algum contexto, ainda desconhecido do público.

Na sua opinião, os atores e a equipe global sentem nojo de dividir a mesma bomba, optam por uma suposta higiene enquanto beijam bocas de outros colegas e fumam narguilé compartilhado, ou simplesmente surgem dessa maneira por não saberem que a tradição secular é mais compartilhada do que individualizada? Fica a questão.

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