perdeu nesta segunda-feira (11) um de seus maiores ícones representantes da gastronomia que simboliza a Capital de MS. O libanês José Thomaz morreu de causas naturais, aos 98 anos, mas deixa um legado imensurável para a sociedade campo-grandense.

Não apenas pelo sabor, mas pelo método incomum de cobrança, baseado na confiança com o cliente. Sua esfirraria, localizada na Rua Sete de Setembro na Capital, atraía que, muitas vezes, só passavam por lá para experimentar o atendimento.

A esfirra sempre foi e continua sendo um marco, eleita de forma unânime pela população como “a melhor”. Para os moradores da Capital, o comerciante de origem libanesa representou mais que um vendedor de esfirras: a atitude de não anotar as comandas e confiar no que o cliente declara ter consumido sempre causou em todos a sensação de “sou honesto e confiam na minha honestidade”.

Por isso, ir à lanchonete Thomaz Lanches representa para o consumidor, em mais de quatro décadas, uma experiência além da gastronomia e atinge o íntimo da população. Com a cultura de não anotar os pedidos, o libanês dizia a todos, de forma implícita: “confio em vocês”.

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Thomaz deixou legado em Campo Grande – (Fotos: Arquivo Pessoal da família)

E quem não quer se sentir confiável?

Proporcionar o bom sabor, junto ao fato de possibilitar à população se mostrar honesta e correta em público, consolidou a lanchonete que funciona há 45 anos em Campo Grande.

Para os campo-grandenses, esse foi o segredo que Thomaz usou para fidelizar a clientela em mais de quatro décadas, atravessando gerações: oferecer confiança e acreditar na integridade de todos, mesmo que alguns eventualmente pudessem “passar a perna”.

Ser um comerciante que “confia na palavra” do cliente deu a José Thomaz respeito e fez o mesmo se tornar uma figura admirável em Campo Grande. Indo além da admiração pelos salgados deliciosos, ele ganhou ainda mais respaldo pela postura quase inacreditável como empreendedor.

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Filho publicou homenagem ao pai

Comoção geral

Fora da curva, José Thomaz viu que o conjunto de ações se tornou uma espécie de marketing espontâneo e positivo para sua esfirraria e percebeu o segredo que fazia os clientes sentirem vontade de voltar: não era só para degustar os maravilhosos salgados.

Por ser o único a empregar essa cultura tão singular, fez todos sentirem sua perda nesta segunda-feira (11). De forma geral, sul-mato-grossenses se manifestam comovidos com a partida do libanês que fez história na cidade.

Muitos sequer chegaram a ver José Thomaz, mas os que puderam presenciar o atendimento do comerciante só comentam elogios.

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Lanchonete na Sete de Setembro

Uma tradição

Marca registrada da Capital, a lanchonete tem 45 anos desde que abriu as portas e é point obrigatório não só para quem vive na cidade morena, mas para qualquer visitante que chega. A fama logo se espalha e a vontade de conhecer a tal esfirraria toma conta dos curiosos em passar pelo “crivo da confiança”.

As esfirras de Thomaz começaram a ser comercializadas oficialmente no ano de 1978, sendo um dos lugares mais tradicionais para se comer esfirra e comida de origem árabe em Campo Grande.

Segundo Ricardo Thomaz, filho do fundador, as receitas são todas familiares e, ao longo do tempo, a lanchonete foi se expandindo. O libanês José Thomaz, patriarca da família Thomaz, chegou ao Brasil com 9 anos e em 1978 abandonou a venda de bebidas para se dedicar à confecção de salgados junto à esposa Marina. Já há alguns anos, são os filhos que tocam o negócio.

Não há um morador da capital sul-mato-grossense que não tenha experimentado ou ouvido falar nas delícias da casa de esfirras. Famoso por não anotar os pedidos e confiar na honestidade dos clientes, o local se consolidou e virou queridinho da população.

Autoras do livro e parte da família no estabelecimento (Foto: Raquel de Souza)
Autoras do livro e parte da família no estabelecimento (Foto: Raquel de Souza)

Thomaz virou livro

Por si só, a história do comerciante é tão interessante que virou um livro, escrito pelas pesquisadoras Elaine Cristina Paganotti e Maira Nunes Farias, em parceria com a professora Maria Augusta de Castilho. Em setembro de 2021, elas lançaram a “José Thomaz: Um Libanês Visionário em Campo Grande”, com todos os detalhes da trajetória do patriarca.

Para os filhos, ter a vida do pai eternizada em um livro foi um momento de muita emoção. “Livro é uma coisa que fica para a eternidade. Toda a família deu sua contribuição, combinamos lembranças, relembramos fatos, histórias interessantes. Na verdade, foi um presente que acabou virando uma obra muito legal para quem tiver oportunidade de ler”, resume José Thomaz Filho.

Entre os seis filhos do fundador, José Thomaz Filho e Ricardo Thomaz ficaram responsáveis por gerenciar os negócios, que hoje já incluem uma segunda unidade na Avenida Bom Pastor. As receitas da família e o ingrediente principal — a confiança nos clientes, que não têm os pedidos anotados — continuam sendo seguidos à risca.

“Nós conseguimos transportar essa visão do meu pai de que não é só o que conta em uma empresa, não é só o lucro, é ter o prazer de receber. Esse é o legado que ele nos deixou”, comenta Thomaz Filho. “É um modelo de atendimento que ele passou para a gente, de valorizar o cliente. Isso se transforma em amizades, temos clientes que viraram amigos de muitos anos”, completa Ricardo.

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Sede na Rua Sete de Setembro amanheceu fechada – (Fotos: Anna Gomes, Jornal Midiamax e Arquivo Pessoal da família)

Morte de José Thomaz

Seis filhos, dez netos, dois bisnetos e uma viúva, de 82 anos, com quem estava junto há nada menos que 66. A família de José Thomaz já se preparava para a despedida do libanês que montou a esfirraria mais famosa de Campo Grande, é o que diz o neto do ícone da gastronomia local.

José Thomaz morreu na madrugada desta segunda-feira (11), aos 98 anos. No entanto, conforme os familiares, o libanês já se encontrava muito debilitado há algum tempo. De acordo com o neto, Rodrigo Thomaz, todos conseguiram se despedir do avô e estavam próximos quando Thomaz partiu.

“Ele já estava acamado há um tempo e faleceu aos 98 anos, foi um descanso para a família. A gente já estava se preparando para este momento, mesmo com toda tristeza”, afirma o herdeiro.

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Thomaz, a viúva Marina e dois dos filhos do casal – (Fotos: Arquivo Pessoal)

“Deixou tudo bem estruturado”, diz neto de Thomaz

A causa oficial da morte ainda não foi confirmada, mas todos acreditam que o idoso morreu de causas naturais provocadas pela idade avançada.

“E ele mesmo já deixou tudo bastante estruturado, todo o legado que deixou, sempre tratando muito bem os clientes”, disse o neto Rodrigo Thomaz ao Jornal Midiamax.

Para além da tristeza de netos, filhos e bisnetos, a viúva de Thomaz, Marina Mazini, de 82 anos, passou as últimas seis décadas de sua vida ao lado do libanês e agora conviverá com a ausência do marido.

Jamais será apagado

No entanto, os familiares acreditam que José Thomaz não estará presente apenas nos sabores de suas receitas, mas também no legado de seu atendimento e na sensação de confiança que conquistou clientes ao longo dos últimos 45 anos. “Isso jamais será apagado”.

O velório do comerciante acontece desde às 11h no Cemitério Parque das Primaveras, na Avenida Senador Filinto Müler, 2211, Parati, em Campo Grande. Os estabelecimentos da família estão fechados nesta segunda (11) devido ao luto e não há confirmação se abrirão nos próximos dias.

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