Nos meios urbanos de , um mesmo trecho de asfalto – ainda que por falta de opção – é compartilhado por pedestres, ciclistas e motoristas. Em meio ao vai e vem implacável do trânsito, uma cena caótica se forma propiciando a ocorrência de acidentes. O resultado? 1.189 mortes no trânsito em um intervalo de doze anos.

Entre 2011 a 2023, Campo Grande contabilizou uma média de 100 mortes ao ano, em decorrência de acidentes de trânsito. Os dados do Programa ‘Vida no Trânsito', da Agetran (Agência Municipal de Transporte e Trânsito), mostram que, apesar da redução registrada nos últimos anos, garantir a segurança no trânsito ainda é um desafio ao poder público da cidade.

No primeiro ano da série histórica, Campo Grande acumulou 132 mortes, desse total a maioria corresponde a motociclistas (82), seguido de ciclistas (20), pedestres (19), condutores (6) e passageiros (3). Em 2023, o número total de vítimas caiu para 56, ou seja, uma redução de 57%.

Total de mortes no trânsito de 2011 a 2023 (Madu Livramento, Midiamax)

Para compor as estatísticas, foram consideradas vítimas fatais aquelas que vieram a óbito no local do acidente, assim como as que faleceram em um período de até 30 dias em decorrência do acidente, conforme orientações da OMS (Organização Mundial da Saúde), para que haja padronização na contagem das vítimas.

Renan Soares, chefe da divisão de estatísticas e sinistros de trânsito da Agetran, ressalta que o programa ‘Vida no Trânsito', uma iniciativa internacional adaptada em Campo Grande, visa analisar acidentes fatais e desenvolver melhorias para reforçar a segurança nas vias urbanas da cidade.

“Todos os acidentes fatais em Campo Grande passam por análise. O Vida no Trânsito é coordenado pelo GGIT (Gabinete de Gestão Integrada de Trânsito), composto por 42 entidades, abrangendo diversas áreas relacionadas à segurança e saúde no trânsito.”

Neste ano, até o dia 26 de janeiro duas mortes foram contabilizadas, sendo um motociclista e uma pedestre.

Vulneráveis, pedestres morrem antes mesmo do socorro chegar

Acidente
Acidente Maria Mirtes (Alicce Rodrigues, Midiamax)

Aos 91 anos, a rotina assídua da ambulante Maria Mirtes nas calçadas da Avenida Afonso Pena foi interrompida por um acidente de trânsito. Na manhã do dia 17 de janeiro, Maria foi vítima de um atropelamento ao atravessar a Avenida e ser atingida por um motociclista.

Primeira morte de pedestre em 2024, Maria se tornou mais uma entre as inúmeras que compõem as estatísticas de mortes no trânsito em Campo Grande. Nos últimos doze anos, 22 pedestres morreram em decorrência de acidentes nas vias urbanas da cidade.

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Maria Mirtes (Ana Laura Menegat, Midiamax)

O maior pico ocorreu em 2013, quando foram contabilizadas 22 mortes, de lá para cá os números se mantiveram altos, até 2019, quando o percentual de óbitos começou a cair.

Em 2023, a Capital registrou o menor índice de toda a série histórica, com seis mortes de pedestres em vias públicas. Apesar da redução, a segurança dos pedestres segue como o principal desafio para as autoridades de trânsito devido à maior vulnerabilidade que representam.

Total de mortes de pedestres no trânsito (Madu Livramento, Midiamax)

Renan Soares destaca que, somente após 2011, Campo Grande passou a implementar políticas públicas voltadas à segurança dos pedestres, com a criação da campanha ‘Pedestre eu cuido'.

“Os pedestres seguem como uma das maiores preocupações devido a sua vulnerabilidade. O respeito a eles é uma questão que estamos construindo com a sociedade, junto isso, investimos na estrutura da cidade, com a instalação de faixas elevadas, reforço das sinalizações onde há maior fluxo de pedestres”, explica.

Na falta de ciclovias, ciclistas se arriscam em meio aos carros

Acidente de bicicleta na Mata do Jacinto (Marcos Erminio/Jornal Midiamax)

Para quem pedala todos os dias, ser ciclista em Campo Grande é um desafio. De 2011 a 2023, foram contabilizadas 122 mortes no trânsito da Capital. O primeiro ano da série histórica concentra o maior pico de mortes, com 22 acidentes fatais envolvendo ciclistas.

De lá para cá, os números caíram ano a ano, com exceção de 2014, quando foram registrados 16 óbitos em Campo Grande. Entre 2015 a 2023, os números tiveram uma redução significativa e se mantiveram abaixo de 10 por ano.

Total de mortes de ciclistas no trânsito (Madu Livramento, Midiamax)

O caso mais recente em via urbana ocorreu em maio de 2023. Wyllyan Caldeira, de 18 anos, morreu após ser atropelado por um ônibus no bairro Nova Campo Grande. No momento do acidente, o jovem pedalava pela rua, quando um motorista abriu a porta do carro, derrubando o ciclista, que foi então atingido por um ônibus e veio a óbito no local.

A morte de Wyllyan – e dos dois outros ciclistas que vieram a óbito em 2023 – expôs um problema crônico: Campo Grande precisa de mais ciclovias e conexões que interliguem diferentes regiões da cidade.

Acidente no Nova Campo Grande (Arquivo, Midiamax)

Membro do coletivo Bici nos Planos, Gabriel Maciel Campanini, 30, destaca que Campo Grande tem tudo para se tornar uma das principais capitais no uso de bicicleta, no entanto, faltam políticas públicas que incentivem o uso da bicicleta e melhoria nas vias.

“Muitas avenidas comportam uma ciclovia sem problemas, também é possível a instalação de bicicletários seguros nos terminais de ônibus para incentivar um transporte intermodal. Esses são exemplos de melhorias de baixo custo que podem fomentar o uso da bicicleta como meio de transporte, basta que exista a vontade política de fazê-las”, ressalta.

Um ponto importante a ressaltar é que Campo Grande possui a segunda maior concentração de bicicletas entre as capitais, enquanto lidera em proporção de bicicletas por habitante entre os estados, com uma taxa de 26 veículos para cada 100 habitantes.

Motociclistas lideram estatísticas de óbitos

Acidente em Campo Grande (Ana Laura Menegat, Jornal Midiamax)

Na tarde de 1º de janeiro de 2024, o porteiro Ailton José de Arruda, de 49 anos, partiu para o trabalho como de costume. Sem saber, aquele trajeto que fazia há 28 anos seria seu último. Primeira morte no trânsito registrada neste ano, Ailton morreu após ser atingido por uma caminhonete que furou o sinal vermelho no cruzamento das ruas Rui Barbosa e Dolor Ferreira de Andrade.

Principais vítimas do trânsito, os motociclistas correspondem a 62,5% das vítimas de toda a série histórica, com 743 mortes entre 2011 a 2023.

Total de mortes de motociclistas no trânsito (Madu Livramento, Midiamax)

O maior pico de mortes ocorreu em 2012, com 83 óbitos em vias urbanas da Capital. Passados doze anos, os números tiveram uma queda significativa, passando para 39 mortes no último ano. Apesar da redução, acidentes envolvendo motociclistas ainda estão presentes no cotidiano da população campo-grandense.

Acidente
Acidente em Campo Grande (Alicce Rodrigues, Midiamax)

Um ponto de alerta é que, a maioria dos acidentes ocorre devido à imprudência e desrespeito às sinalizações de trânsito, tanto por parte dos condutores quanto dos próprios motociclistas.

“Quando analisamos os fatores que levaram ao acidente as principais causas são infrações como beber e dirigir, velocidade excessiva e dirigir sem CNH (Carteira Nacional de Habilitação)”, esclarece Renan Soares.

Motoristas representam menor percentual de mortes

Total de mortes de condutores no trânsito (Madu Livramento, Midiamax)

O menor percentual de vítimas corresponde aos condutores de veículos quatro rodas, como carros e caminhões. Entre 2011 e 2023, Campo Grande contabilizou 67 mortes de motoristas.

A precariedade das vias em Campo Grande se mostra como um fator determinante nos acidentes de trânsito. Há pouco mais de um mês, o motorista de um Ford Ecosport perdeu a vida ao colidir com uma carreta em um trecho de bifurcação no macroanel, próximo ao aterro sanitário, na região do bairro Los Angeles.

A carreta, seguia pelo macroanel no sentido oeste-leste, quando entrou na contramão, resultando em uma colisão frontal. Apesar da sinalização horizontal e vertical, o trecho carece de iluminação adequada.

Total de mortes de passageiros no trânsito (Madu Livramento, Midiamax)

Na madrugada de 10 de dezembro de 2023, uma trágico acidente culminou na morte de uma criança de 10 anos. O carro, no qual ela era passageira, perdeu o controle na Avenida Dr. Olavo Vilella de Andrade com a Rua Dr. Werneck e colidiu contra um poste. O carro era conduzido pela mãe da criança que perdeu o controle devido à alta velocidade.

As estatísticas da Agetran revelam que, ao longo de doze anos, Campo Grande registrou 53 mortes de passageiros decorrentes de acidentes de trânsito, sendo 2011 o ano mais fatal, com sete vítimas.

Mortes estampadas no asfalto

Estrela pintada em trecho da Capital em 2011 (Divulgação, Estrelas no Asfalto)

Em 2011, estrelas amarelas pintadas no asfalto evidenciavam que ali houve um acidente fatal. A iniciativa, criada pelo GGIT (Gabinete de Gestão Integrada de Trânsito), consistia em sinalizar locais onde ocorreram acidentes com morte para alertar os motoristas.

Os locais escolhidos para a pintura seguiam critérios do banco de dados da Agetran sobre acidentes com mortes. Na época, a pasta considerou usar frases feitas pelos moradores, para serem gravadas em placas que seriam instaladas nestas ruas.

No mesmo ano, foram implantadas 12 placas em cruzamentos com semáforos marcados por mortes provocadas por acidentes. Com uma estrela amarela, as placas evidenciavam a frase: “Reflita e viva a vida”.

Das estatísticas nasceram também as histórias – em Julho de 2012 – a e publicitária Val Reis criou o projeto “Estrela no Asfalto”, com o objetivo de mapear os locais e vítimas fatais em acidentes de trânsito na Capital.

Em entrevista ao Midiamax em 2011, a jornalista explicou que o intuito era humanizar as vítimas fatais de acidentes de trânsito, fazendo com que as mesmas sejam lembradas, e não se tornem apenas um número estatístico.

“O site não mostra apenas quantas pessoas morreram no trânsito, mas quem foi a vítima, o lado humano da pessoa que perdeu a vida no asfalto”, disse na época. O projeto, contudo, foi arquivado anos depois.

Placa na José Antônio (Nathalia Alcântara, Midiamax)

Segundo a chefe de educação para trânsito da Agetran, Ivanise Rota, a ação das estrelas foi realizada no início do Projeto ‘Vida no Trânsito', junto ao Projeto ‘Pedestre, Eu cuido', com a intenção de chamar a atenção para o alto número de óbitos registrados naquele ano.

Cuidados básicos podem evitar tragédias

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Sinalização de trânsito (Divulgação, PMCG)

A regra é bem clara. O CTB (Código de Trânsito Brasileiro) estabelece que os demais condutores devem sempre garantir a segurança dos menores, como motociclistas e ciclistas. No entanto, em Campo Grande, essa prática não é amplamente aplicada, e a maioria dos acidentes decorre da imprudência dos condutores.

“Independente de como a pessoa esteja no trânsito, é preciso observar a segurança em todos os trajetos. Muita gente negligencia isso, as vezes por estar perto de casa. Pedestres precisam se atentar a travessia, não usar o celular, muitos acham que é problema só dos motoristas, mas não é”, orienta o chefe da divisão de estatísticas e sinistros de trânsito da Agetran.

Devido à fragilidade dos motociclistas, ciclistas e pedestres, condutores devem tomar alguns cuidados para evitarem atropelamentos, como:

  • Não induzir o pedestre atravessar mais rápido;
  • Dar a preferência;
  • Reduzir a velocidade próximo aos ciclistas e pedestres;
  • Respeitar faixa de pedestre, inclusive as passarelas nas rodovias;
  • Sinalizar e olhar no retrovisor antes de fazer qualquer manobra.

Também é preciso que os automóveis maiores mantenham uma distância mínima de 1,5 m do ciclista. O condutor deve respeitar as normas de circulação, obedecer aos limites de velocidade das vias, não trafegar na ciclofaixa e estar atento, principalmente, nos cruzamentos e faixas de pedestres.

Placa alerta condutores que passam pelo centro de Campo Grande (Nathalia Alcântara, Midiamax)