Comemorativo ou não, o Dia do Ciclista, celebrado neste sábado (19), tem sua força. Ao menos para quem usa a bicicleta como meio de transporte em Mato Grosso do Sul, a “briga” é para que a data fomente reflexão. Para eles, ser apenas lembrados não é suficiente. Querem ser vistos como parte do trânsito. E respeitados.

A data celebrada neste sábado remete à morte do estudante Pedro Davison em 2006, vítima de um atropelamento em uma área onde a circulação de veículos era proibida, no Distrito Federal. Por aqui, há casos semelhantes. Em Campo Grande, três ciclistas perderam a vida em acidentes nos primeiros oito meses de 2023.

A regra é bem clara. O CTB (Código de Trânsito Brasileiro) estabelece distância mínima de quem conduz bicicleta – demais condutores devem sempre garantir a segurança dos menores, como motociclistas e ciclistas. No entanto, em Campo Grande, essa prática não é amplamente aplicada, e a maioria dos acidentes decorre da imprudência dos condutores.

Em 21 de janeiro de 2023, a cidade testemunhou sua primeira vítima deste ano. O ciclista Aminto Pereira do Nascimento, de 72 anos, morreu após ser atropelado por um Fiat Mobi na Avenida Três Barras. Aminto bateu no para-brisa do automóvel e foi socorrido pelo Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), porém, não resistiu aos ferimentos e morreu após ser encaminhado para a Santa Casa.

Maio de 2023, cerca de quatro meses após a morte de Aminto, Wyllyan Caldeira, de 18 anos, passou a integrar as estatísticas de acidentes fatais no trânsito.

O ciclista morreu após ser atropelado por um ônibus no bairro Nova Campo Grande. No momento do acidente, Wyllyan pedalava pela rua, quando um motorista abriu a porta do carro, derrubando o ciclista, que foi então atingido por um ônibus e veio a óbito no local.

Na noite de 3 de junho, Campo Grande registrou sua terceira vítima deste ano. Um ciclista de 45 anos foi atropelado na BR-060 por um Renault Sandero. O motorista envolvido no acidente abandonou o veículo e fugiu sem prestar socorro. A vítima, que nem chegou a ser identificada, faleceu no local.

Dados refletem a falta de segurança

Acidente ciclista
Bicicleta ficou destruída com acidente (Foto: Leitor Midiamax)

Em sete meses e meio, o número de ocorrências com ciclistas em Campo Grande corresponde a 80% do total registrado no ano anterior. Isso evidencia um problema já enraizado: a cidade não proporciona um ambiente seguro para os ciclistas.

Dados da Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) revelam que, em 2023, o Samu atendeu 597 ocorrências envolvendo bicicletas, o que abrange quedas, colisões e atropelamentos. Em 2022, durante o ano inteiro, foram registradas 751 ocorrências semelhantes.

Quanto ao número de acidentes fatais, em 2023, Campo Grande contabiliza três vítimas. Entre os anos de 2020 a 2022, foram registradas seis mortes anualmente. O ápice ocorreu em 2019, com oito óbitos.

Um ponto importante a ressaltar é que Campo Grande possui a segunda maior concentração de bicicletas entre as capitais, enquanto Mato Grosso do Sul lidera em proporção de bicicletas por habitante entre os estados, com uma taxa de 26 veículos para cada 100 habitantes.

Insegurança é sentida diariamente

Bicicleta
Acidente de bicicleta na Mata do Jacinto (Foto Marcos Erminio/Jornal Midiamax)

Para quem vivencia isso na prática, pedalar pela cidade é visto como um desafio. Gabriel Maciel Campanini, 30, é membro do coletivo Bici nos Planos e ressalta que a falta de segurança é algo que os ciclistas precisam lidar diariamente.

“Não considero Campo Grande segura para ciclistas pela falta de conscientização e fiscalização dos motoristas. Todos os problemas conhecidos do trânsito e que causam acidentes envolvendo carros e motos são ainda mais graves pros ciclistas”, ressalta.

Gabriel enfatiza que a imprudência faz com que os motoristas subestimem o impacto de suas ações, que para eles podem parecer triviais, mas para os ciclistas podem ser fatais.

“Uso de celular, excesso de velocidade, atravessar sinal vermelho e preferenciais, abrir porta sem olhar pelo retrovisor. Qualquer atitude dessas, que são rotineiras dos motoristas de Campo Grande, podem levar um ciclista a uma lesão grave ou a óbito”.

Ciclistas se sentem vulneráveis

O CTB estipula que os veículos devem manter uma distância lateral de 1,5 metros dos ciclistas. No entanto, Gabriel relata que a lei frequentemente é desrespeitada, e os condutores costumam ultrapassar de forma perigosa, tirando a chamada “fina” para assustar o ciclista.

“Recebemos relatos de desrespeito quase toda semana em nosso grupo. A maioria dos casos acontece com ciclistas mulheres. Isso vem de uma ideia que muitos motoristas têm que o ciclista não tem direito a usar rua, que bicicleta é só pra passear no parque, agem assim para ativamente tentar expulsar ciclistas das ruas”, lamenta.

Além da imprudência dos motoristas, os ciclistas também enfrentam riscos de assaltos e violência. Em 11 de agosto, um ciclista de 35 anos foi esfaqueado durante uma tentativa de roubo na Avenida Calógeras, no centro de Campo Grande.

A vítima estava pedalando na Calógeras, entre a Avenida Afonso Pena e a Rua 15 de Novembro, quando foi abordada por um indivíduo armado com uma faca. O ciclista relatou aos bombeiros que o criminoso estava tentando roubar sua bicicleta.

(Foto: Marcos Ermínio / Midiamax)

Na periferia nem chegam ciclovias

Outro problema que os ciclistas enfrentam é a falta de ciclovias e ciclofaixas, especialmente nas regiões periféricas de Campo Grande. Isso força os ciclistas a compartilhar as vias com carros e motos.

Mesmo nos bairros mais populosos da cidade, as ciclovias são praticamente inexistentes, como é o caso do Nova Campo Grande, onde Wyllyan foi atropelado. Como resultado, quem precisa atravessar a cidade de bicicleta está exposto a uma série de riscos.

Gabriel acredita que o número de ciclovias e ciclofaixas em Campo Grande ainda está muito aquém do ideal. Exemplo disso é que nos locais onde ocorreram as três mortes este ano não haviam espaços designados para ciclistas.

“Na década passada tivemos um salto na quantidade de ciclovias, mas desde 2017 só foram construídos 6 km de infraestrutura cicloviária na cidade inteira. Uma média de 1 km por ano é inaceitável”, ressalta.

De acordo com um mapa disponibilizado pela Planurb (Agência Municipal de Meio Ambiente e Planejamento Urbano), as ciclovias de Campo Grande se concentram nas seguintes avenidas:

  • Dos Cafezais
  • Gury Marques
  • Doutor Nasri Siufi
  • Nova America
  • Graça Aranha
  • Lúdio Martins Coelho
  • Duque de Caxias, Noroeste
  • Prefeito Heráclito Diniz de Figueiredo
  • Afonso Pena
  • Desembargador José Nunes da Cunha Nelly Martins
  • Cônsul Assalf Trad
  • José Barbosa Rodrigues
  • Amaro Casto Lima
  • Senador Filinto Muller

Sobram ruas, mas faltam ciclofaixas

Na cidade, ciclofaixas ainda são poucas e não têm conexão entre si. (Foto: Arquivo)

Apesar de cruzar ruas de diferentes bairros, os ciclistas ainda criticam a escassez de faixas para atender a demanda da cidade, uma vez que, a maioria está localizada nas avenidas mais conhecidas.

“Campo Grande possui muitas avenidas largas onde ciclovias e ciclofaixas poderiam ser facilmente construídas, mas tem faltado vontade política nas administrações recentes. Além disso, muitas ciclofaixas já existentes estão desaparecendo, como é o caso da Avenida Consul Assaf Trad”, destaca Gabriel.

No mapa, é possível identificar diversos trechos de ciclovias isoladas, sem conexão entre elas. Por exemplo, na Rua Artur Pereira, a ciclovia ao longo do Córrego Lageado abrange apenas 14 cruzamentos. Na Rua da Divisão, a situação se repete, atendendo apenas 18 ruas.

Como resultado, ciclistas que iniciam seus percursos em ciclovias são obrigados a compartilhar espaço com carros pouco tempo após o início do trajeto.

“Faltam ciclovias e ciclofaixas no centro da cidade, onde só há a da Avenida Afonso Pena. Além disso, falta uma infraestrutura conectando as ciclovias e ciclofaixas já existentes. Muitas delas simplesmente terminam abruptamente, como a ciclofaixa da Avenida Fábio Zahran. Outras não têm conexões com nada, como a Rua da Divisão, no Aero Rancho”, destaca Gabriel.

A longo prazo, Gabriel Campanini destaca que seria importante a instalação de infraestruturas cicloviárias conectando bairros aos terminais de ônibus, que por sua vez deveriam oferecer bicicletários seguros para que as pessoas possam pedalar até os terminais e então seguir viagem até o centro ou outras regiões de ônibus.

“O ideal seria uma integração intermodal como ocorre em outras capitais do país, como São Paulo e Curitiba”, ressalta.

Na tentativa de mudar essa realidade, existem movimentos como o Bici nos Planos, um coletivo de ciclistas criado em 2018 e afiliado à União de Ciclistas do Brasil.

“Nós realizamos pesquisas, campanhas, fóruns de discussão e pressionamos o poder público para melhorar as condições para os ciclistas em Campo Grande e Dourados”, explica Gabriel.

Em meio a inseguranças, ciclistas fazem o que podem e se mobilizam para que o governo invista em políticas públicas de proteção aos ciclistas e, que os condutores se conscientizem quanto ao respeito a quem, assim como eles, fazem parte do trânsito.

Dia do Ciclista
Ciclistas pedem respeito (Henrique Arakaki, Jornal Midiamax)