No dia em que choveu mais de 100 milímetros em , o guia de turismo Rosivan Cardoso da Silva teve a sorte de registrar o momento exato em que a cachoeira Boca da Onça voltou a ter água. A maior cachoeira do Estado, com 156 metros, estava seca desde agosto de 2022.

Foram muitos meses de seca no atrativo turístico até que nesta sexta-feira (24), sob chuva e com um grupo de turistas de Minas Gerais, , Rio Grande do Sul o “milagre” aconteceu. As imagens mostram a beleza e imponência da cachoeira, bem como a alegria extrema de quem presenciou o momento.

“Foi um momento muito especial. Fizemos o passeio com chuva, o grupo era muito animado e eu cheguei a brincar que se eles tivessem sorte veriam a cachoeira com água. E foi o que acontece um, um momento lindo, perfeito”, explica Rosival que é guia no atrativo há cinco anos.

A sorte dele foi tão grande que, devido à rotatividade, cada guia faz o passeio da Boca da Onça entre quatro e sete vezes no mês. “Foi uma alegria só foi muito emocionante ver a queda de 156 m e a água caindo”, diz ao Jornal Midiamax, emocionado.

Atrativo turístico impactado pela cachoeira seca

A maior cachoeira do Estado está dentro de um passeio turístico também chamado de Boca da Onça. O atrativo está localizado no km 26 da MS-178, entre e e nesta sexta-feira (24), o gerente era só felicidade.

Luis Henrique Soares de Melo, gerente geral da Boca da Onça, comemorou o momento e esperançoso acredita que a cachoeira deve se manter com água. Ele relaciona a falta de água na cachoeira com a escassez da chuva.

“Um dos principais motivos da falta de água, na nossa região, se deve à diminuição do volume de chuva, nesses últimos três anos, ocasionada pelo fenômeno La Niña que afeta as regiões sul, sudeste e centro-oeste com secas e temperaturas elevadas”, explica o gerente geral, Luis Henrique Soares de Melo.

Como agravante, o rio que abastece a cachoeira tem extensão de apenas 5 km, nascendo e terminando dentro da fazenda onde está o atrativo. Isso significa que a água que desce pela cachoeira se deve principalmente às nascentes da sua extensão.

“Precisa ter bastante água no solo, ele precisa estar encharcado mesmo para que a cachoeira esteja com água. Mas devido a escassez de água dos últimos anos, com o La Niña, o solo secou e a cachoeira também. Agora, como tem chovido bem, acreditamos que a cachoeira vai continuar assim”, explica.

De acordo com a gerência da Boca da Onça, no dia 3 de fevereiro a água voltou a cair na cachoeira, mas no mesmo dia ela secou, pois foi “água da enxurrada provocada pela chuva, não havendo ainda água suficiente vinda do lençol freático”.

O mesmo aconteceu nesta semana, quando foram cerca de 7 horas de água, porém em quantidade menor do que a de hoje.

Situação ocorre há pelo menos seis anos

Há pelo menos seis anos a falta de água na maior cachoeira de é notícia. Desde 2017, o Jornal Midiamax registra a situação da Boca da Onça, mas até hoje não há explicações pautadas em pesquisa, que desvendem o mistério. Desde agosto de 2022, não tem água na cachoeira, que já passa boa parte do ano seca.

No primeiros dias de 2023, a advogada Luana Silva esteve na Boca da Onça. Curiosa pelo passeio, ela disse ter se decepcionado ao dar de cara com a cachoeira seca. “Fiquei muito triste”, conta ela, que viajou de São Paulo para .

No dia da visita, 4 de janeiro, a cachoeira estava totalmente seca. No mesmo dia, chuva torrencial e histórica caía em Campo Grande, onde em apenas cinco dias de janeiro, foram registrados 204 mm de chuva.

O comparativo com a Capital se deve porque a principal explicação para a falta de água na cachoeira é a redução das chuvas. O volume de chuvas impacta diretamente no fluxo de água que cai da maior cachoeira do Estado.

Chuvas irregulares na região

Dados do Cemtec/MS (Centro de Monitoramento do Tempo e do de MS) mostram que o fenômeno La Nina, de fato, influenciou no volume de chuvas de 2022. Em janeiro e fevereiro de 2022, as chuvas ficaram abaixo da média na região.

Em Bonito, choveu 25 mm em janeiro e 15 mm em fevereiro de 2022, o que significa 13% e 11% do total esperado para os meses, respectivamente. “O fenômeno favorece as chuvas abaixo da média histórica, o que acentuou a situação de estiagem/seca na região”, diz relatório do Cemtec/MS.

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(Foto: Reprodução Cemtec/MS)

Em 2023, o é outro, com chuvas acima da média na região. Em janeiro, choveu 210 mm em Bonito e, em fevereiro (até o dia 15), foram registrados 195 mm de chuva por lá. Entre os dias 9 e 15 de fevereiro, choveu 110,4 mm em Bonito.

Sem pesquisas específicas na região

Apesar de polêmica e de grande repercussão, não há nenhum estudo específico sobre a cachoeira Boca da Onça. Mas ambientalistas e pesquisadores da região apontam várias situações que podem impactar, como escassez de chuva, desmatamento e avanço da agricultura na região.

Pesquisador e professor de Geografia da UFMS (Universidade Federal de ), Frederico dos Santos Gradella conduziu pesquisas na Serra da Bodoquena e destaca que desde 2019 há redução de chuvas em Mato Grosso do Sul. Como consequência, impacto no fluxo de água de todos os rios.

“A princípio há muita necessidade de estudo de como a necessidade de chuva tem impactado nos rios. O córrego da cachoeira Boca da Onça é pequeno, não é grande e com captação de água forte. Quando enfrenta estresse hídrico, tem essa tendência”, explica.