Imagens feitas por passageira do ônibus 080, que faz o trajeto entre os terminais e General Osório, retratam as condições às quais diariamente são submetidos usuários do transporte público de Campo Grande. Mais cedo, outro problema envolvendo ônibus do fez alunos andarem a pé e se atrasarem para o trabalho.

Em vídeo encaminhado, é possível notar dezenas de pessoas apertadas disputando cada centímetro do pouco espaço disponível no veículo. Sem opção de esperar o próximo carro, muitos se arriscam pendurados nas escadas.

“O ônibus é lotado e a gente fica na porta pendurada junto com outras dez pessoas. Todo dia é isso, todo santo dia. Não tem condições”, comentou leitora do Jornal Midiamax.

De acordo com ela, a cada ponto de embarque e desembarque a situação piora e passageiros perdem o pouco de paciência que têm. “Quem vai na porta fica espremido e ainda tem que descer e depois subir novamente toda vez que alguém precisa passar. Hoje levei uma pisada com força no pé, é um empurra, empurra, muita gente”, acrescentou. 

Além da lotação, a falta de manutenção dos ônibus administrados pelo Consórcio Guaicurus são outro fator que provoca dor de cabeça em moradores. Também na manhã desta segunda-feira (27), ônibus quebrado fez com que passageiros se atrasassem para compromissos, depois de serem obrigados a esperar a substituição de veículo que parou em meio à Avenida Ministro João Arinos.

“O motorista parou e disse que o câmbio tinha quebrado, que não conseguia trocar a marcha. É complicado porque o ônibus é programado. No meu caso, vou perder o que passa no terminal do Hércules Maymone e chegar atrasado no serviço”, comentou passageiro.

Prefeitura repassa verba milionária ao Consórcio Guaicurus

Somente em 2022, o Consórcio recebeu R$ 31,2 milhões em verbas públicas, sem apresentar melhorias no serviço prestado. Somando, assim, mais de R$ 63 milhões em dois anos.

Com a aprovação da isenção do ISSQN (Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza) e de subsídios do município e governo do Estado como forma de custear as gratuidades com o passe estudantil – que há pouco tempo eram incorporadas à tarifa -, a tarifa técnica caiu para R$ 5,15, com passe pago pelo usuário final no valor de R$ 4,65.

Então, o governo do Estado firmou repasse anual de R$ 10 milhões e o município de Campo Grande estabeleceu subsídio no valor de R$ 12 milhões. Já o valor do ‘perdão’ do ISSQN anual chega a R$ 10 milhões. Com isso, o grupo de empresas que explora o transporte coletivo da Capital terá R$ 32 milhões em recursos públicos e perdão de dívidas só em 2023.

Reportagem do Jornal Midiamax mostrou que, somente em 2023, o Consórcio Guaicurus receberá mais de R$ 32 milhões entre subsídios do poder público e benefícios fiscais. Apesar disso, o grupo de empresas de ônibus de Campo Grande mantém frota sucateada e é alvo de reclamações diárias de passageiros.

Vale lembrar que o Consórcio Guaicurus não coloca novos ônibus em circulação desde 2019 e mantém frota com idade média acima da estipulada em contrato de concessão, conforme apontou perícia judicial em ação ingressada pelas próprias empresas de ônibus na Justiça.

A expectativa é de que o número de novos ônibus possa chegar a 30 até o fim do ano, para dar alívio aos usuários que pagam tarifa de R$ 4,65 e que coloca Campo Grande com o 10º passe mais caro entre as capitais.

A concessão do transporte público de Campo Grande, alvo de processo na Justiça de Mato Grosso do Sul por suspeita de corrupção, foi entregue ao Consórcio Guaicurus após licitação encerrada em outubro de 2012, no “apagar das luzes” da gestão do então prefeito Nelsinho Trad (PSD).

O grupo formado pelas empresas Viação Cidade Morena, São Francisco, Jaguar Transportes Urbanos e Viação Campo Grande ganhou o direito de explorar o transporte da cidade por duas décadas. O faturamento previsto à época somava a quantia bilionária de R$ 3,4 bilhões.

Frota tem 140 ônibus a menos

A prefeitura de Campo Grande confirmou ao Jornal Midiamax que a frota de ônibus da Capital está reduzida. O Consórcio Guaicurus tirou de circulação 140 ônibus nos últimos três anos, passando de 552 em 2019 para 412 em 2022.

Em contrapartida, Campo Grande ganhou 36 mil novos moradores, saltando de cerca de 906 mil em 2019 para 942 mil no ano passado, conforme dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

O número está abaixo do mínimo estipulado em contrato, que é de 575 ônibus em circulação. Enquanto isso, passageiros precisam aguardar mais de 1 hora para conseguir um ônibus, dependendo do horário e da linha.

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