Ao chegar a Brasília em 1991, Marilu Guimarães entrou em todas as comissões que conseguiu, mudou o jeito de se vestir para ser ouvida e, em Pequim, com outras deputadas, construiu a Frente Parlamentar Feminina do Congresso Nacional.

E se atualmente tem a ministra do Planejamento Simone Tebet, Cida Gonçalves como ministra da Mulher, as senadoras Tereza Cristina (PP) e Soraya Thronicke (União Brasil), parte do trabalho se deve a ex-parlamentar, que é a mulher que puxou a mão de tantas outras rumo à política na capital federal do Brasil ao ser eleita a primeira deputada federal pelo Estado.

A história de Marilu faz parte da série de reportagens especiais que o Jornal Midiamax publica nesta semana de comemoração e reflexão sobre o Dia da Mulher, celebrado no dia 8 de março.

Participou de mais de 20 comissões e brilhou como deputada federal. Mesmo do PFL (Partido da Frente Liberal), levantou bandeiras consideradas ‘de esquerda’, como a igualdade de direitos para as mulheres e a preservação do meio ambiente. No entanto, foi um pouco antes, em Campo Grande, que descobriu o pior lado para as mulheres no meio político: o machismo.

Marilu Guimarães, quando disputou a Prefeitura de Campo Grande (Arquivo pessoal)

“Foi pesado, foi muito pesado. Eu senti a realidade muito mais na minha cara. Como candidata a deputada [estadual], o voto era espontâneo. Eu sou daqui, sou uma pessoa que tem a vida aberta, apesar de não ser filha de político e nem mulher de político. Mas quando a coisa virou para esse nicho de poder barra pesada que é o Executivo, aí meu amor, a coisa foi complicada”.

Hoje Marilu tem 71 anos e pretende lançar um livro ainda em 2023 com a sua trajetória. Formada em Educação Física e Direito, a ex-parlamentar foi deputada estadual entre 1987 a 1989; vice-prefeita de Campo Grande entre 1989 e 1991 e disputou as eleições à prefeitura, indo para o contra Juvêncio César da Fonseca.

De bailarina a constituinte

De origem artística, Marilu era bailarina e teve um programa de televisão em Mato Grosso do Sul. Da sua comunicação e de projetos sociais, a enxergaram como uma possível candidata. “Gostava de levar essa coisa que era elitizada, como a dança, para as populações mais carentes. Com isso meu nome foi crescendo, mas hora nenhuma eu tive a intenção de ser candidata. Minha família era classe média, que valorizava o social, mas meu pai, por exemplo, não gostava de participação política, essa de dentro dos quadros. Só que isso foi acontecendo. Sou grata a todos que enxergaram isso, falaram: olha, esse trabalho é uma gota no oceano, na política você consegue ampliar esse trabalho”, conta.

A perspectiva de levar arte para mais pessoas a encorajou a se tornar candidata e, assim, foi eleita deputada estadual. “Tive o prazer de ser deputada estadual constituinte. Dentro da área do Direito foi a mais importante. Participei da área econômica e social, eu ouvi os sentimentos da população, tive um feedback social imenso. Peguei uma liderança de bancada e aí não teve outro jeito”.

Xingamento no Obelisco e foto ‘comprometedora’

Após o trabalho como deputada estadual, Marilu foi o nome cotado no partido para disputar as eleições. À época, Lúdio Martins Coelho cogitou Chico Maia, mas as pesquisas internas apontavam a deputada como a líder disparada das intenções de voto.

“E aí começou essa briga pesada mesmo, quando eu ousei a ser candidata a prefeita. Que não era nem meu sonho”. No caminho, além da falta de dinheiro, a diferença de tratamento por ela ser mulher.

Nessa época, Marilu enfrentou o que descreve atualmente como o ‘Mito da Beleza’, apontado por Naomi Wolf como movimento de controle e disputa femininos. De acordo com a escritora,

“a medida em que as mulheres iam exigindo acesso ao poder, esta estrutura recorreu ao mito da beleza para prejudicar de forma substancial o progresso das mulheres”.

“Hoje eu encontro esse livro, compro e distribuo. Mas na época eu não sabia lidar com isso, eu não estava preparada para isso. Eu era da dança, da televisão, da emoção. Era espontânea. Não tinham me preparado. Aqui, na época, era uma cidade pequena de mentalidade, onde as coisas aconteciam no Bar do Zé, que os políticos iam lá e fofocavam. Eu não tinha retaguarda”, lembra.

Dois fatos marcantes, além dos diversos ataques contra a honra de Marilu, foram o dia em que o Obelisco e viadutos de Campo Grande amanheceram pichados com xingamentos e ofensas. “Estava escrito ‘galinha, piranha’. Aquilo para mim era uma coisa horrível. Meu pai era muito conservador e isso fazia ele sofrer. Eu tinha uma admiração absurda pelo meu pai e eu via ele sofrendo. Eu era uma mulher extremamente seletiva em relação a uma série de coisas, e isso acontecendo”.

Outro episódio foi uma suposta foto comprometedora que um jornal de grande circulação em Mato Grosso do Sul dizia ter. “O jornalista entrou em contato comigo. Não vou dizer o nome porque ainda está vivo, o jornal ainda está aí. Estampava na primeira página. ‘Amanhã, nesta semana, foto comprometedora de Marilu’. Aquilo foi me irritando, que eu agi diferente. Pedi para publicarem a foto”.

Pas-de-deux, passe do ballet (Imagem ilustraiva)

Por quase um mês o jornal a pressionou com a postagem que, no fim das contas, era a parlamentar de malha fazendo um padedê [do francês pas-de-deux, que significa passo de dois], um passo de ballet com seu companheiro de dança em uma apresentação cultural.

“Isso, nos anos 90, na cabeça dos políticos, poderia comprometer a minha candidatura. Estar de malha e fazendo um padedê era coisa de galinha. Um machismo muito forte. Uma violência moral, escrita em todos os lugares, que levou um tempo para sair de mim”, relembra Marilu.

Também, certa vez, Marilu visitou uma favela em Campo Grande. Logo depois, espalhou-se o boato de que ela havia ‘se banhado em álcool’ para se desinfetar.

“Tinha um homem, um repórter alto, de verdade, que disputou a vereador e não teve nenhum voto. Ninguém falou nada. A minha vontade era trazer isso para discussão na época, falar, ‘olha, esse aqui, ninguém falou nada’. Ficou tudo por isso mesmo. Era homem”, conta, sobre a diferença de tratamento a tudo o que era feito por ela enquanto pessoa pública.

Assim, a campanha à Prefeitura de Campo Grande seguiu. Na equipe, entretanto, com muito respeito. “Tudo o que o Lúdio tinha era o chapéu dele. Não tinha fundo partidário, não tinha cota feminina, então sequer foram essas as questões na época. Quatro horas da manhã ele me chamava e a gente seguia de fusca para fazer campanha. Os outros iam de caravana”, conta.

O ex-prefeito Lúdio Martins Coelho e Marilu Guimarães (Arquivo pessoal)

E, apesar das diferenças políticas, havia muito respeito entre a dupla. “Nós tínhamos todas as diferenças que você possa imaginar. Eu, de um lado, progressista. Ele chegava para mim e falava: ‘escuta mulher, tem que matar onça. As onças vão matar os bois’. Eu falava: ‘não pode, vai agredir o meio ambiente’. Mas existia um respeito, apesar das diferenças”.

A ex-deputada federal conta que o atraso era imenso não só nas ideias políticas, como no dia a dia. “Tive que aguentar coisas que eu nem imaginava que aconteciam no Executivo. E no fim nós perdemos por muito pouco, levando em conta que disputamos contra um homem de tradição política no Executivo, que era o Juvêncio César da Fonseca. Nós não tínhamos estrutura financeira nenhuma”.

Marilu conta que, desta época, ficou uma lição muito importante: para entrar na política, a mulher precisa ter não só qualificação acadêmica, mas emocional também.

“Fui vendo que a política estava mudando, era preciso ter gente estruturada de marketing, senão não teria como concorrer.

As pessoas falavam: ‘a gente gosta de você, deputada, mas você não dá dinheiro pra gente terminar nosso puxadinho’. E não adianta entrar com discurso intelectual onde naquele momento o que funciona é um prato para matar a fome. É impossível você julgar diante de um quadro de fome.

E eu não estava querendo aquilo, eu estava querendo direitos, uma coisa um pouco maior. Eu senti que não conseguiria tocar um jogo político desses”.

Anos depois, uma conversa franca com o adversário revelou sequelas físicas dos desgastes emocionais na disputa. “Ainda acordo com dores muito fortes na coluna. Isso tudo tem fundo emocional. Mas são águas passadas, faço meditação. Muitas pessoas passaram por coisas piores”, reflete.

Brasília

Em seguida, Marilu foi eleita como deputada federal em 1991 e depois reeleita em 1995. “Era uma mulher de Mato Grosso do Sul que causou estranheza, que não tinha essa repercussão e nem esse prestígio que tem hoje. Uma mulher, loira, que é uma coisa que tinha que se trabalhar bastante, essa questão da imagem da mulher no poder”.

A ex-deputada ri quando lembra que teve que cortar o cabelo e ‘zerar’ o batom, mudar as roupas para poder ‘quase que anular o lado feminino’ e ser entendida, ouvida e olhada por um outro lado.

Marilu e o ex-vice-presidente da República Marco Maciel (Arquivo pessoal)

“A primeira vez que eu subi na tribuna as pessoas pararam, e eu fiz o que tinha que fazer. Naquele momento eu passei a existir dentro do Congresso. Aquela história ainda de onça na rua, que existe até hoje se duvidar… Fui bem recebida. Eu entrei trabalhando com as questões de meio ambiente, criança e as questões da mulher. Isso geralmente não é disputado dentro dos partidos, entrei e elegi as minhas bandeiras, comecei a trabalhar em cima delas”.

Marilu atuou no Congresso com Fábio Feldman, fundador da SOS Mata Atlântica. “Fizemos um trabalho seríssimo nessa área. Na questão da mulher, de todos os partidos, PP, PC do B, fomos a Pequim, inserir direitos. Eram direitos que estávamos partindo quase que do zero. Criamos a Frente parlamentar das Mulheres que existe até hoje”.

Quando começou a ser discutida a questão da violência contra a mulher na Câmara Federal, os homens reagiram. “Eles diziam que nós estávamos ‘inventando história’, ‘não existe isso’. A questão do clima, do meio ambiente, do buraco da camada de ozônio. Os deputados riam. Isso não dá feedback eleitoral”.

Uma das experiências como parlamentar a marcou. “Fui parar em um garimpo ao realizar uma atividade de campo sobre a exploração da mulher nessas áreas. Lá, tinha um mural com o preço das pessoas, isso mesmo. E uma valia menos que uma dose de whisky barato. Isso me marcou muito. Era uma coisa tão absurda a violência e a gente em uma situação de impotência sobre essas questões até hoje”.

Os anos de Congresso deixaram marcas que fizeram Marilu entender que não precisa mais concorrer para participar da política. “Fiz de todas essas as minhas bandeiras pessoais. Participo da política de fora. Temos hoje mais mulheres no poder, mulheres sul-mato-grossense, fico numa faceirice que você não imagina”.

Mulher no Poder

Para Marilu, a lição dos anos de disputa política são o empoderamento feminino não só ocupando espaços, mas tendo consciência de como ocupá-los. “Acho, e falo isso a partir da minha experiência pessoal, que termos representação qualificada é muito importante. Esse é o nosso desafio. E acredito que discutir mais esses termos misoginia, sororidade, faz com que eles cheguem na população mais simples, que popularize esses significados”.

Marilu quer lançar neste ano livro sobre sua trajetória

“O que é uma mulher empoderada? Às vezes não conseguimos colocar em prática os nossos direitos, apesar de sabermos deles, por falta de qualificação emocional, não só acadêmica. Temos que estar preparadas, porque é um jogo difícil, de manipulação. Se a gente não se prepara para esse mundo, que ainda é um mundo masculino, fica mais difícil. É preciso saber enfrentar essas nuances de manipulação velada”.

Ainda. Que a mulher precisa ter consciência do que quer na política. “O básico hoje para crescer, avançar esse panorama, qualificar e termos quadros no Poder é a mulher ter consciência disso. Exercitar o seu direito de falar, saber que é responsável pela sua vida. Porque ainda tem mulher que atribui sua própria vida em casa e na política aos outros. É preciso saber que ela mesma é responsável pelos seus passos e seus desejos. Só assim ela vai conseguir empoderar e multiplicar isso em outras mulheres”.

Sobre a cota feminina, Marilu acredita que participar sabendo que está só preenchendo uma vaga é um desrespeito de gênero ainda maior. “A colocação de mulheres como fachada é um desrespeito ainda maior. A mulher que quer ser política não pode topar qualquer parada. Se não tiver condições, nem vá”.

Para Marilu, é preciso ter um grupo que queira trabalhar junto e que tenha ideias afins.

“Senão vai ser só um robô manipulado por ideais que não acredita. Então é melhor ficar em casa, no bairro, fazendo políticas sociais que ao menos você acredita. E pronto, você está fazendo política também”, finaliza.

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