Lugar muitas vezes escondido na cidade que prefere não olhar para baixo, os pontilhões são à primeira vista apenas pontes que ligam o trânsito de Campo Grande de um bairro a outro. Quem fica poucos segundos no semáforo talvez não perceba, mas além de um pontilhão, ali também existe uma casa.

As moradias são precárias, feitas de madeira, com lona e panos. Cheias de buracos que não escondem os corpos mirrados pelo efeito da droga e de uma vida calejada pelas dificuldades. 

Vanessa Lourenço, de 36 anos, mora há nove meses embaixo de uma ponte em Campo Grande, entre as grossas vigas de concreto que sustentam todo trânsito que passa pela via acima. 

“Eu arrumo meu barraquinho bem arrumadinho, planto plantas, é o único que tem banheiro, eu mesma que fiz tudo. Tenho o sentimento de cuidar mais do ambiente para a gente dormir, almoçar, jantar, mas eu pretendo sair daqui o mais breve possível, se for a vontade de Deus”, conta Vanessa. 

Ela morava sozinha no local, até que no último dia 31 de outubro, noite das Bruxas, encontrou a “witch” (bruxa, em inglês) uma gata filhote nas cores preta e branca, que tem feito companhia a mulher negra, de corpo magro e cabelos escuros. Vanessa preferiu ir morar longe da família, que ainda vive em Campo Grande, para tentar se recuperar da dependência química.

“Por enquanto, conto com ajuda, faço diárias nas casas das pessoas quando me chamam para poder comprar shampoo, uma pasta de dente”, detalha a mulher. 

Jardim e arte sob o asfalto

Próximo ao barraquinho de Vanessa, ela enfileirou vasos de plantas. Além de mexer com a terra, a mulher também pinta quadros para “ocupar a mente”. Recolhe itens como tintas, azulejos, pedaços lisos de madeira, que são jogados no local, e com os dedos faz os traços abstratos que ornamentam as telas. 

Diferente de Vanessa, Ana Lúcia, de 38 anos, afirma que não nutre nenhum sentimento ao pontilhão. O sonho era que ficar ali fosse temporário, mas o temporário já dura oito anos. Antes de lá, morava no bairro Taquarussu, e preferiu se afastar da família, especialmente dos quatro filhos. 

“Eu só não entortei de vez por causa da aproximação que tenho com os meus filhos. Não tenho casa nenhuma, por isso estou aqui. Tenho planos com o meu marido para sair daqui, a gente passa uns apertos, mas a gente acaba vivendo a mesma rotina, mas é difícil”, conta a mulher baixa, de cabelos escuros. 

O que ia para o lixo vira pintura

Ronerverson dos Santos, de 32 anos, construiu o barraco no ângulo de 45 graus, desafiando as leis da natureza em um solo castigado pela correnteza da água em dias de chuva. As mãos são finas e calejadas, levemente sujas pelos materiais de pintura. Na calçada da via movimentada, comercializa as telas feitas com pedaços de azulejo e madeira, tudo que encontra na reciclagem ou recebe por meio de doações.

Aprendeu a pintar com o artista de rua “Meia-Noite” no início deste ano, mas desde a juventude gostava de desenhar como hobby. 

“Eu queria encontrar com o Meia-Noite para agradecer o que me ensinou. Na escola eu já desenhava bastante. Vendo um quadro aqui a ali, com o que consigo vou comprando o material ou reciclo também, mas preciso muito de verniz e pincéis de pintura, os que tenho são emprestados”, pede o artista, também conhecido como Roni. 

Pessoas veem a arte como profissão e terapia. (Foto: Henrique Arakaki/Jornal Midiamax)

Ele mora na região do pontilhão há dois anos com a esposa e conta que nutre sentimentos pelo lugar, mas que deseja ir para uma moradia com melhores materiais e mais segurança. 

“Daqui é para melhorar. Esse é o nosso sentimento de lar. Aqui a gente passa perrengues, o vento leva tudo às vezes, já perdi muito material de trabalho, tento buscar o melhor, por isso eu me dedico mais às artes. O meu sonho é uma casa com tijolo, porta e, principalmente, segurança. Esses tempos teve acidente em que o carro invadiu aqui, esse é o nosso medo”, relata o homem. 

A maioria das pessoas que passam pelo local são conhecidas e ajudam com doações. Porém, tem dias que quem vive ali não consegue fazer nenhuma refeição. “Nem sempre conseguimos, mas Deus é bom e sempre dá um jeito”, acredita. 

Gata Witch e tela pintada por Vanessa. (Foto: Henrique Arakaki/Jornal Midiamax)

Ignorado por uns, morada para outros

As histórias que você conheceu até agora falam sobre a relação das pessoas que vivem sob os pontilhões com as estruturas que elas transformam em casa. O Jornal Midiamax escolheu mostrar essa realidade no Dia do Urbanismo, comemorado nesta terça-feira (8).

No urbanismo, o conceito de “não-lugar” refere-se a espaços transitórios, como aeroportos, ponto de ônibus, shopping e pontilhões, em que permanecem “anônimos” para a maior parte da cidade. Em termos gerais, não há sentimento atribuído àquele lugar, pelo menos para quem só passa por ali.

Porém, no caso da Vanessa, Roni e Ana Lúcia, que vivem abrigados sob a ponte, o ‘não-lugar’ se transforma com a criação de relações de afetividade.

“Na teoria geográfica, o espaço se transforma em lugar quando passamos a atribuir a ele sentimentos, sejam positivos ou negativos, estabelecendo vínculos com os mesmos. Assim, há espaços na cidade em que gostamos de permanecer, como parques, pois os entendemos enquanto lugares. Os não-lugares não permitem esse tipo de vínculo, pois são espaços de transitoriedade, onde permanecemos anônimos e não há permanência”, explica o doutor em arquitetura e professor da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), Julio Botega.

O professor explica que os “não-lugares” são frequentados por visitantes, turistas, pessoas que em geral não possuem vínculo com o espaço. Mesmo que seja temporário para alguns, para outros podem ser considerados como “lugares”, pois é ali que dormem, se alimentam, estão com a família e animais.

Roni recolheu da água a tela maior inacabada e terminou de pintá-la sozinho. (Foto: Henrique Arakaki/Jornal Midiamax)

O não-lugar

O conceito de “não-lugar” foi criado pelo pesquisador francês Marc Augé, em 1992. São as pessoas que definem se a relação com o espaço é de “lugar” ou “não-lugar” de acordo com a satisfação em estar no ambiente, conforme explica o professor na Universidade Federal de Rondonópolis (MT), José Sturza, que estudou sobre o tema no doutorado. 

“Os não-lugares são espaços globais, isto é, se encontram replicados em várias cidades de forma padronizada voltada à circulação de pessoas e ao consumo”, explica o docente.

Os lugares são espaços significativos na construção da identidade humana e coletiva e a falta de convívio entre pessoa e lugar pode provocar uma crise de identidade. 

“Durante a pandemia da COVID-19 a casa, um lugar por excelência para muitas pessoas, deixou de sê-lo, pois o fato de ficar mais tempo em casa tornou-se estressante, entediante. Nesse caso a casa-lugar passou a ser uma casa-não-lugar. Após a pandemia necessitamos resgatar a casa como lugar”, exemplifica o geógrafo.

Assistência social no ‘não-lugar’

O Jornal Midiamax entrou em contato com a Prefeitura de Campo Grande para questionar sobre os projetos de assistência social desenvolvidos com as pessoas que vivem sob os pontilhões da cidade.

Em resposta, a SAS (Secretaria de Assistência Social) respondeu que o Serviço Especializado em Abordagem Social é ofertado para as pessoas que utilizam espaços públicos como moradia e sobrevivência e que as abordagens sociais na rua ocorrem 24h por dia, nos sete dias da semana, incluindo feriados e finais de semana.

As buscas são realizadas na região central, principalmente nas imediações da antiga rodoviária, viadutos, marquises, entroncamentos e locais onde a população em situação de rua costuma se abrigar, afirma a SAS. 

“As equipes buscam sensibilizar a pessoa abordada sobre o risco social que se encontra, oferecendo o acolhimento institucional ou encaminhamento para tratamento da dependência química em Comunidades Terapêuticas por meio da parceria com a Subsecretaria de Direitos Humanos – SDHU”, relatou a secretaria em nota.

Prefeitura desenvolve projetos para acolher pessoas em situação de rua. (Foto: Henrique Arakaki/Jornal Midiamax)

Existem 11 comunidades em Campo Grande, vinculadas à pasta, que dispõem de 300 vagas para tratamento da dependência química. As unidades de acolhimento estão localizadas em vários pontos da cidade, destinadas a atender vários perfis, como imigrantes, migrantes, famílias e pessoas sozinhas.

As pessoas abordadas têm a opção de aceitar ou recusar o acolhimento, conforme direito previsto no artigo quinto da Constituição Federal. 

3,6 mil acolhidos em 9 meses

De acordo com dados da SAS, até setembro deste ano, foram realizados 3.609 atendimentos nas Unidades de Acolhimento Institucional para Adultos e Famílias. A pasta contabiliza o número de atendimentos, pois uma mesma pessoa pode passar nesses locais mais de uma vez e para diferentes finalidades.

O Serviço Especializado em Abordagem Social realizou 2.958 atendimentos no mesmo período, enquanto o Centro POP (Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua) fez 5.861 atendimentos.