A primeira fase da Operação Cascalhos de Areia, deflagrada na última quinta-feira (15), já reuniu indícios que apontam para suposta rede de empreiteiras nas mãos de laranjas e supostamente usadas por uma quadrilha para desviar dinheiro da Prefeitura de Campo Grande com contratos firmados durante a gestão de Marquinhos Trad (PSD).

Assim, um vendedor de queijos que sequer sabia ter mais de R$ 200 milhões em contratos públicos numa empreiteira da qual é dono no papel, sócios que compraram a preço de banana outra construtora com contratos milionários e um empreiteiro que, apesar de dono de construtora, bate ponto como engenheiro em outra, são os grandes achados dos mandados de busca e apreensão.

Os indícios colocam André Luiz dos Santos, o Patrola, no foco das investigação.

Ele é apontado como verdadeiro operador das empresas investigadas. Além disso, segundo denúncia anônima que deu início às apurações, supostamente seria sócio do ex-prefeito Marquinhos Trad (PSD) no ‘esquema’. O político nega.

No entanto, as informações apuradas mostram que o empreiteiro teria acesso facilitado pela administração municipal a licitações, e usaria a rede de empreiteiras nas mãos de laranjas para desviar milhões dos cofres municipais com obras que nunca teriam sido realizadas e seriam difíceis de ‘conferir’.

Os contratos visados pela suposta quadrilha são de cascalhamento em vias não pavimentadas e de aluguel de máquinas. Não é a primeira vez que o setor de construção civil de Campo Grande se torna pivô de escândalo de corrupção, como no caso da Operação Lama Asfáltica.

Empreiteiras de Campo Grande: ‘dança de laranjas’ e farra

Segundo fontes ouvidas pelo Jornal Midiamax, André Luiz dos Santos seria o operador do esquema de ‘laranjas’ para comprar as empresas e, assim, vencer todas as licitações de cascalhamento na Capital, em possível conluio com o então prefeito de Campo Grande, Marcos Marcelo Trad.

André, inclusive, teria ganhado o apelido de ‘Patrola’ justamente por usar basicamente uma patrola para ‘disfarçar’ os serviços contratados na hora da medição, que é sempre realizada por um fiscal do órgão público.

Porém, segundo fontes ligadas aos órgãos de controle externo que acompanham os contratos, há elementos colhidos na busca e apreensão que já devem comprovar a suspeita e implicar o ex-prefeito no esquema de corrupção.

A suspeita da investigação se deu a partir de indícios que comprovariam a transição dos contratos entre empreiteiros, para pessoas que não são do ramo, sempre a preços muito baixos.

Vendedor de queijos com contrato de R$ 219,7 milhões

Um dos exemplos investigados é Adir Paulino Fernandes, que chegou a ser preso por porte ilegal de arma durante a operação, mas explicou que vive da renda de queijos. Ele foi detido na Chácara Santa Dirce com um revólver calibre .32 e quatro munições, sendo duas deflagradas e duas intactas.

O homem ainda relatou que era vendedor de queijos e recebia R$ 2.500 por mês. Adir atuaria, portanto, como um ‘laranja’, a serviço de Patrola. E esse seria também o caso de Edcarlos Jesus da Silva, da MS Brasil Comércio Eireli e Engenex Construções, assim como Paulo Henrique Silva Maciel, outro apontado como sócio da Engenex.

O esquema teria ‘vista grossa’ de agentes públicos, como o ex-secretário de Infraestrutura Rudi Fioresi e Medhi Talayeh, Supervisor Sisep (Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos).

Os dois servidores públicos foram nomeados por Marquinhos Trad (PSD), conforme apontam as investigações do Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção) e do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado).

Portanto, só de contratos, André Luiz teria na verdade, mais de R$ 380 milhões:

  • Engenex Construções e Serviços Ltda (R$ 14.542.150,59), de Paulo Henrique Silva Maciel e Edcarlos Jesus Silva, com Ariel Dittmar Raghiant atuando como ‘responsável técnico’, na região do Imbirussu;
  • Andre Luiz dos Santos Ltda, o Patrola (R$ 24.705.391,35) na região do Prosa;
  • Engenex Construções e Serviços Ltda, com Ariel Dittmar Raghiant atuando como ‘responsável técnico’, (R$ 22.631.181,87) na região do Lagoa;
  • R$ 219.738.348,88 da JR Comércio e Serviços Eireli, de Adir Paulino Fernandes;
  • R$ 108.079.795,25 da MS Brasil Comércio e Serviços Eireli, de Edcarlos Jesus Silva.

Patrola e Marquinhos teriam revoltado servidores

De acordo com a denúncia, Patrola venceria licitações de cascalhamento de vias não asfaltadas, “para evitar fiscalização na execução dos trabalhos”, já que seria mais difícil de medir o serviço que sequer havia sido realizado.

A denúncia aponta ainda que o fiscal apenas tirava uma foto de uma única pá carregadeira no local, como ‘prova’ da medição do serviço. Com o dinheiro das licitações vencidas por Patrola, Marquinhos compraria imóveis, que seriam gerenciados pela esposa do empreiteiro, em Campo Grande.

O servidor aponta na denúncia que esquema semelhante é realizado em Corumbá, na licitação de maquinários alugados e limpeza de ruas, e o valor da licitação ganha foi utilizado para a compra de uma fazenda em Corguinho.

Por fim, o servidor desabafa. “Estamos cansados de nos submeter a esse sujeito na Prefeitura Municipal, pois nos obrigam a fraudar licitação, já que a ordem vem de cima”.

A partir dessa investigação, os promotores Adriano Lobo e Humberto Lapa Ferri, da 29ª e 31ª Promotoria de Justiça do Patrimônio Público de Campo Grande, começaram a analisar os contratos de aluguel de maquinários e cascalhamento na Prefeitura, que culminou na operação deflagrada.

Acionado pela reportagem, Marquinhos Trad afirmou não ter nenhum tipo de negócio com André Luíz dos Santos, o Patrola, mas admitiu que o conhece ‘como amigo’.

‘Gordo’ na farra com Marquinhos: “eu gosto de bunda”

Entre os amigos íntimos, André Luiz é chamado de ‘Gordo’ e ficou famoso pelas festanças que promove.

Foi assim que acabou implicado no escândalo de assédio sexual que tornou o ‘amigo dele’, Marquinhos Trad réu.

Patrola supostamente desfrutava dos prazeres carnais com o círculo íntimo do ex-prefeito e acabou citado por uma das vítimas após uma ‘festinha particular’ regada a sexo, bebida e drogas em uma fazenda de Coxim.

Desde a época, a reportagem do Jornal Midiamax aguarda retorno de André Luiz para se manifestar sobre a denúncia feita pela acompanhante de luxo.

Uma das mulheres que compareceram na 1ª Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher de Campo Grande contou que teria conhecido ‘Gordo’, o André Luiz dos Santos, no gabinete do então prefeito Marquinhos Trad.

Naquele dia, ela já teria sido assediada pelo empreiteiro, que teria dito dentro da sala de Marquinhos na Prefeitura Municipal de Campo Grande: “Dá uma viradinha porque eu gosto de bunda”.

Após a conclusão do inquérito, os dois foram denunciados à Justiça.

Marquinhos: ‘denúncia fala da execução, não da licitação’

Questionado se acompanhava a execução dos contratos de cascalhamento em bairros sem asfalto enquanto prefeito, Marquinhos desconversa. “Tudo pregão eletrônico. Não existe. Se você ler de fato a denúncia anônima de 8 linhas eles falam da execução, não da licitação. Além disso, faz o levantamento dos valores de contrato que ele tem ou teve durante meus 5 anos e o que ele tem no Governo do Estado. Por que vocês não fazem isso?”, questionou.

No entanto, o Jornal Midiamax divulgou desde o primeiro dia da operação que além dos R$ 24.705.391,35 em contratos com a administração municipal para serviços de cascalhamento na região do Prosa, Patrola mantém atualmente, R$ 195,8 milhões em obras públicas na região do Pantanal.

A reportagem apontou inclusive que os valores pagos a outros fornecedores por quilômetro quadrado no interior do Estado são menores. Há menos de dois anos, um empreiteiro recebeu R$ 27,2 milhões para cascalhar 59,2 quilômetros de uma rodovia pantaneira.

Ou seja, a empresa fechou a licitação por R$ 459,6 mil o quilômetro de cascalhamento. Já a ALS Construtora recebeu da Agesul R$ 1,3 milhão por quilômetro, R$ 922,4 mil a mais por quilômetro de cascalho que o outro empreiteiro, para realizar exatamente o mesmo serviço em trecho semelhante da mesma rodovia.

Empreiteiro dos políticos

Segundo fontes que acompanham a atuação de órgãos de controle externo e combate à corrupção em Mato Grosso do Sul, ‘Patrola’ seria uma espécie de ‘coringa’ para políticos regionais.

Desta forma, as suspeitas são de que juntos implementariam supostos esquemas de desvio de verbas públicas em contratos de obras públicas com difícil aferição.

Como seria considerado ‘de confiança’, o empreiteiro assumiria a parte arriscada de colocar o CPF e o CNPJ à disposição, contando com mais aliados como ‘laranjas’.

Em troca, supostamente manteria verdadeiro propinoduto em Mato Grosso do Sul com devolução de parte dos lucros inflados para os ‘companheiros’.

Portanto, contratos estrategicamente visados por esquemas de corrupção, como locação de equipamentos, obras mais facilmente ‘disfarçáveis’, como cascalhamentos, manutenção de vias não pavimentadas, seriam os prediletos do esquema.

Com o avanço do sistema, supostamente para diversas prefeituras e órgãos públicos, ‘Patrola’ teria se tornado o “empreiteiro dos políticos”. No entanto, o estilo descuidado e fanfarrão do empresário teria colocado todos na mira de denúncias.

Há relatos de festanças regadas a churrascadas e outros tipos de prazeres que teriam se tornado verdadeiro palco para exposição de esquemas com detalhamento de como funcionariam e quem beneficiariam. Tudo sempre, segundo as testemunhas, intercalado com muita bravata.

André Luiz foi procurado pela reportagem do Jornal Midiamax em três ocasiões e não atendeu as ligações até a publicação da matéria. Todos os contatos foram devidamente documentados e o espaço segue aberto para manifestação.