Para atender investidores que estão tirando os pantaneiros originais e acelerando a destruição do Pantanal de Mato Grosso do Sul, o Estado está trocando antigos corredores, caminhos que se mantinham secos na maior parte do ano, por estradas que rasgam as áreas com ‘novos donos’.

É assim que a rodovia MS-228 tirou a paz de quem vive na Nhecolândia e virou um ‘corredor moderno’ para criminosos como narcotraficantes ou arrastadores de caminhonetes. Anunciadas no governo passado como obras para ‘tirar o Pantanal do isolamento’, as estradas viraram pesadelo.

“Quem é pantaneiro mesmo, quem entende como isso aqui funciona e como deve ser preservado, sabe que na verdade o isolamento era nossa última linha de defesa contra a destruição. Os políticos não criam uma legislação porque querem favorecer quem está de olho nestas terras baratas. Vão destruir o Pantanal. Este povo não entende que a extinção é para sempre”, lamenta fazendeiro cuja família está há 5 gerações na região.

Em uma das partes até então mais preservadas do bioma pantaneiro, na Nhecolândia se vê cada vez menos as lentas e pouco agressivas comitivas que transportavam boiadas gigantescas de uma parte a outra. Agora convive com o vai e vem descuidado de caminhões boiadeiros, chamados de ‘uber do boi’.

‘Novos ricos’ tiram pantaneiros e destroem fazendas históricas

Com uma das terras mais baratas do Brasil, e sem legislação específica para barrar a destruição do Pantanal, as áreas alagáveis de Mato Grosso do Sul viraram alvo de investidores que estão tirando os pantaneiros originais e acelerando o desmatamento.

Assim, os novos ‘donos’, geralmente recém-ricos influentes ou poderosos, assumem fazendas históricas que mantinham o bioma intacto. As propriedades que abrigaram gerações estão sendo desmembradas e despedaçadas em empresas ruralistas que priorizam o lucro.

Segundo o presidente do IHP (Instituto Homem Pantaneiro), coronel da reserva da PM (Polícia Militar), Ângelo Rabelo, o que está ocorrendo, na prática, é uma “mudança de mãos no Pantanal”.

“O dono encontrou aqui uma área barata, o que gera muita atratividade. Por exemplo, se a pessoa vai plantar soja em Chapadão do Sul, paga, em média, de R$ 80 a R$ 100 mil no hectare, em Bonito, ainda atuando na agricultura, de R$ 30 a R$ 40 mil o hectare. Aqui é possível se comprar por muito menos. É a última terra barata do Brasil e isso despertou cobiça em quem tem recursos. No entanto, a proposta é clara, é de ganhar dinheiro e isso é uma mudança de mãos”, explica.

‘Mata virgem tá bem pouco mesmo’: diz quem sente a destruição do Pantanal

Uma das estradas no Pantanal de MS. Fonte: Marcos Ermínio/Jornal Midiamax
Uma das estradas no Pantanal de MS. (Marcos Ermínio, Jornal Midiamax)

Morador da região desde 1992, quando o pai montou uma conveniência na região da Nhecolândia, Luis Cláudio do Carmo, de 33 anos, fala que a família viu “duplicar e triplicar” o número de fazendas e assistiu à mudança com a construção da MS-228.

“Muita fazenda foi dividindo para os filhos e também tá chegando muita gente nova. É um pessoal de fora. Tem até de outros estados. Estão abrindo espaço e com isso a mata virgem mesmo tá bem pouco, diminuiu muito”, relata.

“É um vai e vem danado nestas estradas e até por isso ampliamos o nosso negócio, para atender a todos. Até local para pernoitar nós fizemos aqui”, disse.

De fato, a poeira come solta no ir e vir dos veículos, principalmente caminhonetes e caminhões, como os chamados “uber do boi”, que substituem as comitivas pantaneiras com a implantação da MS 228.

‘Patrola’ recebeu km mais caro da estrada e desmatou fazenda que comprou na região

Feita em revestimento primário, não pavimentada, a obra foi executada pelo empreiteiro André Luis dos Santos, o ‘Patrola’. Tragicamente, ele é um dos novos donos que comprou terra no Pantanal e ‘meteu o trator’. Foi flagrado cometendo crime ambiental ao destruir uma área de mais de 1.300 hectares.

Ele tinha autorização para destruir aproximadamente 900 hectares, e usou as mesmas máquinas da obra pela qual recebeu do Governo de MS com o quilômetro mais caro da rodovia. Patrola virou pivô de um escândalo de corrupção com a primeira fase da Operação Cascalhos de Areia.

O dono da ALS Logística e Transportes, André Luís dos Santos, conhecido como André Patrola, possui atualmente cinco contratos para rodovias estaduais e mantém R$ 195,8 milhões em obras públicas na região do Pantanal.

Segundo a Operação Cascalhos de Areia, deflagrada na semana anterior, com 17 alvos, Patrola seria parte de um grupo que supostamente fraudava contrato com a Prefeitura de Campo Grande na gestão de Marquinhos Trad (PSD).

Acionado pela reportagem, Trad nega tudo e afirma não ter nenhum tipo de negócio com André Luís dos Santos, o Patrola. Mas, o político do PSD admite que conhece o empreiteiro ‘como amigo’.

Segundo PIC (Procedimento Investigativo Criminal) que deu origem às investigações, Patrola seria aliado em supostos esquemas de corrupção. Na prática, Patrola venceria licitações de cascalhamento de vias não asfaltadas, “para evitar fiscalização na execução dos trabalhos”, já que seria mais difícil de medir o serviço que sequer havia sido realizado.

Destruição do Pantanal e rota nova para crime organizado

Segundo pantaneiros e fazendeiros locais que falaram com a reportagem do Jornal Midiamax, além do poeirão que levanta, a rodovia está atraindo o crime organizado e acelerando a destruição do bioma.

Pantaneiro no corredor construído no Pantanal da Nhecolândia. Foto: Marcos Ermínio/Jornal Midiamax
Pantaneiro no corredor construído no Pantanal da Nhecolândia. (Marcos Ermínio, Jornal Midiamax)

Autoridade com quatro décadas de experiência na preservação e no combate a incêndios, um servidor público que não será identificado pela reportagem ressalta que as estradas deveriam “cumprir papel estratégico e exclusivo” de escoar a produção.

No entanto, notícias de crimes não param de chegar. As mais recentes, ligadas à “passagem de Hillux” roubadas, ao uso da estrada para o tráfico de drogas e também a farra de grupos que procuram o local para lazer aos fins de semana.

Sendo assim, falando com pantaneiros, fazendeiros e representantes de entidades que atuam em prol do Pantanal, entendemos primeiro o “raciocínio geográfico” de quadrilhas, já que usam a estrada como conexão para outras regiões do país e do mundo.

Rabelo ressalta que acompanha a evolução das estradas e também recebe denúncias sobre a região.

Segundo ele, as comitivas pantaneiras sempre estiveram presentes ali justamente porque o bioma era conservado e é possível a construção do corredor, desde que bem planejado e administrado para não causar a destruição do Pantanal.

Além do trabalho da PRF e o patrulhamento rural, envolvendo equipes locais da PM e o DOF (Departamento de Operações de Fronteira), a PF (Polícia Federal) também monitora o tráfico internacional de drogas na região.

No início deste mês, durante operação deflagrada em Corumbá, Coxim, Campo Grande e, simultaneamente, nos estados da Bahia e São Paulo, ficou constatada a concentração de quadrilhas do ramo no Pantanal.

Fazenda na região do Paiaguás escondia droga que chegava em aeronaves. Fonte: PF/Divulgação
Fazenda na região do Paiaguás escondia droga que chegava em aeronaves. (Polícia Federal, Divulgação)

Segundo a investigação, Coxim é um município próximo aos “dois pantanais”, como a região da Nhecolândia e o Paiaguás. Mesmo com acesso difícil até as fazendas, o que melhorou com a construção do “corredor”, o território também passou a ser usado por traficantes para distribuírem cargas milionárias de drogas para os grandes centros e até mesmo fora do país.

No dia 6 de junho, quando iniciaram as buscas da Operação Ardea (nome científico da garça-branca, pertencente à fauna pantaneira), agentes da PF ressaltaram que os suspeitos usavam aviões para fazer o transporte da droga. Nesta constância, também usam as estradas para trazer droga vinda da Bolívia.

Ainda conforme a PF, foram cumpridos seis mandados de prisão e busca e apreensão em 25 alvos. Ao todo, o grupo teria movimentado cerca de duas toneladas de cocaína. As investigações ainda estão em andamento.

Estrada se tornou ‘barreira’ para animais, denuncia biólogo

Comitiva pantaneira passando pelo 'corredor' no Pantanal de MS. Foto: Marcos Ermínio/Jornal Midiamax
Comitiva pantaneira passando pelo ‘corredor’ no Pantanal de MS. (Marcos Ermínio, Jornal Midiamax)

Já o biólogo e pesquisador do IHP, Wener Hugo Arruda Moreno, de 26 anos, ressalta que a abertura da estrada se tornou uma “barreira geográfica” para algumas espécies que convivem no Pantanal.

“Já viu a altura daquilo ali? É um aterro gigante e, quando você dificulta o trabalho do animal você gera um cansaço nele. Por exemplo, é como se fosse um paredão e o animal, se precisa toda vez escalar para chegar até determinadas áreas, em uma grande extensão como ali, tudo isso para se alimentar e se reproduzir, é um prejuízo enorme”, comentou.

De acordo com Arruda, existirá um custo maior para os animais e até para as plantas existentes no bioma.

“Nós acreditamos que não foi feito um levantamento prévio. É um local com uma fauna muito rica de onças, antas, tamanduás e espécies ameaçadas. Algo que não é muito falado também é a microfauna, então, precisa sim ser pensado o que acontece com formigas, cupins, invertebrados, sapos, rãs, pererecas, répteis, serpentes e tudo o mais que esta grande barreira possa atrapalhar”, opinou.

Presidente do Sindicato Rural vê vantagens: ‘reduziu o frete’

Fazendeiro diz que peões agora vão até Corumbá ou cidades vizinhas com maior frequência. Foto: Marcos Ermínio/Jornal Midiamax
Fazendeiro diz que peões agora vão até Corumbá ou cidades vizinhas com maior frequência. (Marcos Ermínio, Jornal Midiamax)

Enquanto uns estão preocupados com a destruição do Pantanal como o conhecemos, outros ressaltam interesses mais práticos e imediatos.

O dono de cinco fazendas no Pantanal, e presidente do SRC (Sindicato Rural de Corumbá), Gilson Barros diz que está no Pantanal desde 1984. Antes, tinha propriedade na região do Paiaguás, porém, com a expansão dos negócios, é um dos que compraram propriedades na região da Nhecolândia.

Ele defende a estrada. “Ali na região da Nhecolândia, o corredor viabiliza várias coisas. Por exemplo, temos um frete inimaginável de caro. São 175 km de frete para levar insumos e fica mais caro do que levar algo de Corumbá a Campo Grande”, diz.

Para Barros, o aumento na circulação de veículos é inevitável.

“O frete se tornou muito mais barato e aí você consegue abastecer a fazenda toda semana. Outra coisa, se acontece de algum peão se machucar no fim de tarde, uma picada de cobra, você antes ficava rezando e esperando ele aguentar o avião chegar no outro dia, porque se alguém se deslocar e atolar na estrada poderia morrer à míngua lá. Hoje, se isso acontecer, a pessoa pega a estrada e procura Corumbá, Miranda e Aquidauana”, exemplifica.

Rodovia em Corumbá, onde será feito revestimento primário – Chico Ribeiro, Subcom, Arquivo

Porém, na verdade, não são apenas os fretes com insumos para as fazendas que tiveram acesso facilitado à Nhecolândia. Nos fins de semana, a região é tomada por grupos que usam as áreas como praça de lazer.

Sem qualquer tipo de licenciamento ambiental na maioria das vezes, partes alagadas do Pantanal sul-mato-grossense viram pista para brincadeiras com veículos e motocicletas off-road.

Além disso, uma das denúncias, já no final do “corredor”, como os pantaneiros dizem, é a chegada de grupos que abusam com farras aos finais de semana.

“É um local que está sem regras e então é fundamental que estas obras sejam precedidas de uma análise, dos riscos que podem trazer ao Pantanal. Assim que a gente recebe, encaminhamos para os responsáveis. Agora, com a estrada cascalhada, o acesso foi ainda mais facilitado e as pessoas que estão indo lá não tem relação de causa e efeito com o Pantanal, no sentido de respeito. O ir e vir precisa sim ter critérios”, apontou Rabelo.

Empresários do setor turístico concordam que falta regulamentação e incentivo para a exploração ordenada de atividades de turismo de aventura ou contemplativo. São modalidades que, segundo eles, poderiam adiar a destruição do Pantanal e assegurar geração de renda na região.