Política

Eleitor citado em pen drive confirma troca de combustível por apoio e complica vereadores

Os arquivos de um pen drive periciado pela Inteligência do Ministério Público listam nomes de eleitores, datas de abastecimento e até as placas dos veículos. Com gravidade das provas, Justiça Eleitoral promete ouvir testemunhas em 2 de agosto.

Arquivo Publicado em 18/07/2013, às 22h38

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Os arquivos de um pen drive periciado pela Inteligência do Ministério Público listam nomes de eleitores, datas de abastecimento e até as placas dos veículos. Com gravidade das provas, Justiça Eleitoral promete ouvir testemunhas em 2 de agosto.

Começa a se complicar a situação dos vereadores eleitos em Campo Grande que estão envolvidos em processos por supostos crimes eleitorais cometidos nas eleições de 2012. Uma manobra da defesa de Alceu Bueno (PSL) tenta retirar da ação depoimentos que confirmaram um esquema para distribuir combustível em troca de apoio eleitoral, mas o conteúdo de um pen drive do comitê do vereador revela provas dificilmente contestáveis.

O material, que já foi gravado pelo serviço de inteligência do Ministério Público, reúne listagens com centenas de nomes de eleitores em cadastros que registram ainda endereço, telefones, coordenadores por quem foram ‘recrutados’, quantos abastecimentos recebidos e até as placas dos veículos beneficiados no suposto esquema de distribuição de combustível. São muitos indícios para explicar.

Gasolina X apoio

Um dos inúmeros eleitores listados contou para a reportagem do Midiamax que recebeu combustível em troca de apoio político para o vereador Alceu Bueno (PSL) nas eleições de 2012. F. R. de S. contou que teve de pedir votos para o candidato para ‘ganhar’ gasolina. Em ligações telefônicas gravadas, vários eleitores que estão na lista confirmaram como funcionaria a suposta distribuição de combustível durante a campanha eleitoral de Bueno.

A reportagem, aleatoriamente, telefonou para alguns das centenas de eleitores listados nos documentos, descobrindo rapidamente como funcionava o sistema. Em várias ligações, os eleitores disseram que conheciam o candidato, chegaram a falar da proposta para ganhar gasolina em troca de apoio, mas não admitiram que participaram.

Mesmo assim, o terceiro confirmou que pediu votos para Bueno em troca de combustível, mesmo não sendo oficialmente contratado pelo comitê eleitoral do então candidato. Evangélico, Alceu tem nas listagens o nome de inúmeros pastores e referências a igrejas.

F.R., que mora no bairro Guanandi, disse que não era contratado, mas recebeu uma proposta para pedir votos para o candidato, ganhando combustível em troca. “A gente participou de algumas reuniões, ouvimos as propostas e decidimos ajudar”.

“Em troca vocês abasteciam o carro”?, questionamos. “Sim, mas foram poucas vezes. Bem pro final que eu peguei. Não foi muitas vezes não”, declarou.

A reportagem perguntou se o eleitor conhecia outras pessoas que receberam a proposta e ele negou, mas disse que no dia que fechou o acordo, ainda que sem contrato, encontrou outras pessoas. “Olha, assim, aquele dia que eu estava lá tinha algumas pessoas, mas, que eu conheço e tenho contato, não. Telefone ou alguma coisa deste tipo”, detalhou.

F. R. de S. informou que recebeu a proposta de um primo que trabalhava para o candidato. “Ele trabalhava pra ele e falou: ‘se você quiser’… Eu disse que queria, lógico. Mas, não tinha contrato não”, finalizou.

Proposta confirmada

Outra eleitora, identificada na lista como A. Z., moradora do bairro Maria Aparecida Pedrossian, cuja placa do carro também estava anotada em uma das planilhas entregues ao Ministério Público Eleitoral, teria, segundo o documento, abastecido em agosto.

Ela disse à reportagem que não trabalhou na campanha, mas confessou que recebeu uma proposta para adesivar o carro em troca de combustível. “Nem cheguei a receber nada. Não quis participar. Tinha a proposta de adesivar o carro e em troca abastecer. Mas, não quis fazer”, disse a eleitora, que preferiu dizer que não se recorda do nome da pessoa que fez a proposta.

Tudo registrado

As listagens com centenas de nomes foram entregues ao promotor Clóvis Smaniotto. Ele cuidou do caso até receber uma licença-prêmio de três meses por assiduidade nos últimos cinco anos. A promotoria recebeu um pen drive das mãos de Roger de Jesus Freitas, assessor de Bueno e ex-gerente do Depósito Bueno, de propriedade do vereador.

A testemunha disse que era responsável pela logística do repasse para aquisição de combustível.

Em algumas das listas há várias relações de nomes de pessoas que supostamente receberiam o combustível. Nas tabelas constam placas de carro, endereço, nome completo, telefone e até a data que as pessoas receberam ou receberiam o combustível no valor de R$ 25 ou R$ 26 semanais. O valor equivale a aproximadamente o custo de dez litros de gasolina na época das eleições.

Há ainda uma relação com nomes, placas de carro, modelos, e até uma data apontada como dia no qual o eleitor teria colocado o adesivo no veículo. No pen drive também estão inúmeros arquivos reservados com materiais para a campanha, incluindo artes para imprimir santinhos, agenda do candidato e até a escala de trabalho dos contratados.

Contabilidade frágil

No arquivo entregue ao promotor também consta um recibo de pagamento feito a um cabo eleitoral residente no bairro São Conrado. O curioso é que o recibo, no valor de R$ 500, refere-se a remuneração mensal da eleitora.

Considerando que a maioria dos envolvidos em denúncias alegam que só distribuem combustível a cabos eleitorais e na lista, segundo Roger, constam centenas de eleitores, se todos fossem cabos eleitorais, os gastos de campanha facilmente extrapolariam o total declarado pelo vereador na prestação de contas à Justiça Eleitoral, que informou despesa de R$ 184.673,00.

Dentro do comitê

O Midiamax teve acesso aos depoimentos feitos ao promotor e pode comprovar a gravidade das denúncias. A primeira testemunha ouvida, Roger de Jesus Freitas, disse ao promotor que era responsável pela logística do repasse para aquisição de combustível, em um plano que, segundo ele, foi arquitetado pelo próprio vereador em cinco campanhas dele, incluindo a de 2012, quando foi eleito vereador.

Roger acredita que o Alceu gastou R$ 50 mil distribuindo R$ 26 semanais a cada eleitor cooptado. A testemunha afirma que recebia o dinheiro das mãos de Alceu, mas não sabe a origem e acredita que não tenham sido declarados, visto que não teria como “demonstrar origem lícita”.

A testemunha afirma que embora tenha trabalhado como coordenador logístico da campanha, o nome dele não apareceu na prestação de contas porque era empregado do “Depósito Bueno”, de propriedade do vereador. Ele disse ainda que em agosto, setembro e outubro de 2012 recebia seu pagamento do comitê, com dinheiro que acredita ser de “caixa dois”.

Adair Souza da Mata também prestou depoimento ao promotor no dia 20 de junho. Ele se apresentou como coordenador financeiro da campanha e contou a mesma história relatada por Roger.

Segundo Adair, o esquema era feito pelos coordenadores de campanha, inclusive ele, que eram incumbidos de angariar eleitores que aceitassem a proposta de adesivar o carro e pegar o vale-combustível ou o dinheiro em espécie no comitê. O cabo eleitoral garante que o esquema foi arquitetado pelo próprio candidato, que ordenava os coordenadores da campanha.

TRE-MS promete considerar provas

O promotor pediu para a juíza responsável pelo caso incluir os novos depoimentos no processo, mas o vereador conseguiu uma liminar de última hora derrubando os depoimentos. As testemunhas, que estavam no Fórum Eleitoral para depor, foram impedidas de contar o que sabem na ocasião.


Após a repercussão negativa da decisão, nesta semana a juíza Elisabeth Rosa Baish autorizou nova audiência, considerando que os depoimentos são fundamentais para sentenciar.A audiência está marcada para o dia 2 de agosto.


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Jornal Midiamax