Uma criança que chora insistentemente é tratada como caso ‘normal’ por quem ouve e se abstém de fazer alguma coisa, seja no sentido de ajudar ou até de denunciar possíveis maus-tratos, mas a cena de um cachorro sendo maltratado acaba comovendo e mobilizando uma força-tarefa para que o autor deste crime seja punido.

Se a mesma indignação com os maus-tratos ao cachorro tivesse sido aplicada no caso da menina de 2 anos que acabou morta na noite dessa quinta-feira (26), em Campo Grande, a criança talvez pudesse estar viva se recuperando do abalo emocional e das feridas deixadas no corpo pequeno e sem condições de defesa. A criança morreu após repetidas agressões feitas pelo padrasto de 25 anos preso e pela própria mãe, de 24 anos.

Choros constantes eram ouvidos da casa onde a pequena de 2 anos vivia com a mãe, padrasto e irmão, em um bairro da região norte de Campo Grande, o primeiro endereço onde a menina morou com a mãe, já que atualmente morava em outro endereço. Uma vizinha que não quis se identificar contou ao Jornal Midiamax que na semana anterior encontrou com a menina e sua mãe em um supermercado e tudo aparentava estar bem. 

Ela, inclusive, disse à reportagem nesta manhã que não sabia que a menina havia morrido e contou que ouvia o choro da criança que vinha da residência.

A mulher disse que ela e vizinhos denunciaram em maio de 2022 a mãe da menina por maus-tratos a um cachorro que a mulher deixou morrer. Na época, a mulher chegou a ser detida e levada para a Decat (Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes Ambientais e de Atendimento ao Turista). Depois desse episódio, a mulher se mudou para outra cidade e tempo depois retornou para a Capital.

Outro vizinho que conversou com a reportagem contou que sempre ouvia o choro da criança, mas disse que “criança chora mesmo”. E nisto nada foi feito e a menina morreu. A mulher passou a morar com a mãe, avó da criança, após ser despejada, segundo os vizinhos. 

O casal está preso pelos crimes de homicídio qualificado por motivo fútil e estupro de vulnerável. 

Família denunciou agressões há 1 ano

A família da criança já havia denunciado o padrasto e a mãe da menina pelo crime de maus-tratos há 1 ano. Tanto a mãe como o padrasto da criança estão presos.

O primeiro registro feito por maus-tratos foi no dia 31 de dezembro de 2021, pelo pai da menina, na DEPCA (Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente). Nele, o pai narra que foi casado com a mãe da criança por 3 anos, e que após a separação tinha direito a visitas livres, e toda vez que ia buscar a filha, a criança estava com hematomas.

Quando questionava a ex-mulher sobre os machucados da filha, a mulher relatava que a criança havia caído ao brincar com um gato. Toda vez que a menina ia para sua casa estava machucada e ele passou a questionar a mãe da criança insistentemente.

Os hematomas pararam de aparecer por um tempo. O pai da criança ainda disse que conversou com sua ex-sogra, que relatou que a filha estava maltratando a neta constantemente e que a menina era mal alimentada e vivia em condições insalubres.

O outro registro do boletim de ocorrência foi no dia 21 de novembro de 2022, quando a criança apareceu com a perna quebrada e com hematomas nas costas. A mãe da criança disse ao ex-marido que a filha havia caído no banheiro.

A criança chegou a ser levada para a ser ouvida por psicólogos na DEPCA, mas como tinha pouca idade não foi possível realizar escuta especializada. Na época, foi pedido exame de corpo de delito.

O Jornal Midiamax tentou falar com a DEPCA para mais detalhes sobre as investigações e o que foi feito desde as denúncias da família, mas não houve retorno até a publicação desta reportagem.

Mãe confessou que agredia filha

Segundo o delegado Pedro Henrique, que atendeu o caso, o homem ficou em silêncio durante o depoimento e a mãe da menina confirmou que batia na filha, mas com “menos intensidade” que o marido. A mãe justificou que as agressões tinham o objetivo de ‘corrigir’ a menina. A mulher relatou que tinha medo do marido.

Ainda segundo o delegado, a criança apanhava por motivos banais. Em relação à última agressão anterior à morte da menina, o casal disse à polícia que demorou para levar a menina para a unidade de saúde em razão dos hematomas que a criança tinha no corpo e o temor dos ferimentos levantarem suspeita das agressões.

Mãe estava com a filha há 4 horas morta em casa

Segundo o relato das médicas, quando a criança chegou à unidade de saúde, ela já estava morta há pelo menos quatro horas com sinais de rigidez, com hematomas por todo o corpo e sangramento pela boca. Ainda segundo as médicas, a mãe estava estranhamente tranquila e só ficou nervosa quando foi informada que a polícia seria acionada para o local.

Em exames feitos pelas médicas na unidade de saúde, elas constataram sinais de estupro na criança. Com a chegada dos policiais, a mãe da menina negou que tivesse levado a filha até a UPA já morta, mas disse que ela e o atual marido aplicavam ‘corretivo’ na criança.

A mulher contou que a filha ficava com o padrasto enquanto ela trabalhava durante o dia, e que o marido batia na criança com socos e tapas para corrigir a menina. O padrasto da menina foi encontrado em casa pelos policiais e negou que tenha agredido a enteada naquele dia, dizendo que bateu na criança há três dias.

30 atendimentos médicos na ficha da criança

A criança já tinha em seu histórico médico o registro de 30 atendimentos feitos e, em um deles, a menina havia fraturado a tíbia. 

O pai da criança relatou que já tinha registrado dois boletins de ocorrência contra a mãe da menina por maus-tratos. Os registros dos boletins de ocorrência foram no dia 31 de dezembro de 2021 e 22 de novembro de 2022, na DEPCA (Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente).