A Justiça Federal já deu início aos interrogatórios dos réus acusados de um golpe de mais de R$ 4 bilhões, em um esquema de pirâmide financeira. O marido da cantora Perlla, Patrick Abrahão Santos Filho, apontado como o principal captador de investidores para a organização criminosa, será ouvido ainda nesta semana.

Desde o dia 31 de julho tanto testemunhas de acusação, um total de 12 das cidades do Rio de Janeiro, Paraná, são ouvidas. Já o depoimento de Patrick está marcado para o dia 4 deste mês, no período da tarde. Ivonélio Abrahão da Silva deve ser ouvido no dia 7 deste mês também no período da tarde.

Diorge Roberto de Araújo Chaves, que também virou réu, deverá ser ouvido junto de Patrick e Ivonélio, depois da redesignação de sua audiência. Durante umas das audiências, Diorges teria pedido a magistrada a retirada de algemas no durante a videoconferência. “Instado, o agente penitenciário, bem como o chefe de segurança, informou ser a única pessoa a acompanhar as videoconferências realizadas no presídio, estando com apenas 4 policiais para cuidar de todo pavilhão de presos. Ressaltou que é norma de segurança que a saída do pavilhão se dê mediante uso de algemas, ressaltou a proximidade do local de realização das videoconferências com a portaria e informou não haver possibilidade de fechamento da porta da sala de vídeo com o réu sem algemas, pois não teria como garantir a segurança do local, pois trabalha com outros presos em local próximo. A defesa pediu registro em ata, consignando que o interno não oferece risco.”

Mas, o pedido foi negado pela juíza, dando sequência à audiência com os presos algemados. O TRF3 (Tribunal Regional Federal da 3ª Região) negou habeas corpus ao marido da cantora Perlla, Patrick Abrahão Santos Filho. A defesa de Patrick por várias vezes tentou a liberdade do acusado, sem sucesso, tendo mais este negado no dia 28 de julho durante audiência.

Membros do grupo formado por Patrick e mais cinco – Ivonélio Abrahão da Silva, Diego Ribeiro Chaves, Fabiano Lorite de Lima, Cláudio Barbosa, Diorge Roberto de Araújo Chaves – viraram réus por organização criminosa, lavagem de dinheiro, ilegal de instituição financeira, gestão fraudulenta e crime contra o patrimônio da União e ambiental.

A denúncia

A denúncia contra o grupo foi aceita pelo juiz Bruno Cezar da Cunha Teixeira, da 3ª Vara Federal. Foi publicado no Diário Oficial da Justiça Nacional, no dia 31 de janeiro deste ano. No despacho é relatada a existência de provas concretas da organização criminosa. 

Ainda segundo o despacho, a organização seria muito bem estruturada, onde cada integrante ocupava um ‘cargo'. Patrick é apontado como o principal captador de investidores para o grupo. Já Diego Ribeiro atuaria como presidente da Trust Investing, sendo o responsável pelos novos contratos. 

Fabiano é apontado como o diretor de marketing da empresa com a divulgação, Cláudio seria o diretor de tecnologia da Trust Investing. Diorge Roberto atuaria como o diretor financeiro da empresa e responsável pelo controle dos recursos captados dos investidores, segundo descreveu o juiz na sentença.

Na descrição do juiz, Patrick usava as suas redes sociais para ‘ensinar' os seguidores a enriquecer investindo na Trust Investing. Ivonélio, pai de Patrick, além de diretor nacional da empresa, figuraria também como proprietário da igreja Ministério Internacional Restaurando as Nações, que era usada para atrair novos investidores. 

Ainda segundo a denúncia, as contas bancárias da igreja também eram empregadas em favor do esquema criminoso em tese.

“Constata-se, assim, que os fatos narrados são compreensíveis e estão suficientemente aclarados e individualizados (a necessidade de plena individualização ocorre ao cabo da instrução processual penal), assim como as imputações, o que assegura o pleno exercício do direito de defesa, dado que a peça cumpre com suficiência com os requisitos do art. 41 do CPP”, ressaltou.

Por fim, o juiz despachou: “Assim, com base no art. 396 do Código de Processo Penal, recebo a denúncia, pois verifico, neste instante de cognição sumária, que a acusação está lastreada em razoável suporte probatório, dando conta da existência das infrações penais descritas e dos indícios de autoria a elas correspondentes, caracterizando, com isso, a justa causa para a ação penal”.

Pirâmide financeira

O esquema, conforme a PF, envolvia o uso massivo de redes sociais, marketing, reuniões, instituições de líderes arregimentados e até o uso de uma instituição religiosa pertencente a um dos investigados.

A estrutura ajudava na captação de recursos para o que seria um golpe, embalado em pacotes de investimentos ou aportes financeiros. Estes iam de US$ 15 a até US$ 100 mil, em troca de ganhos diários em percentuais altíssimos (chegando a 20% ao mês e 300% por ano).

“Traders” seriam os responsáveis por multiplicar o capital investido e instigar quem já participava do esquema a chamar novos investidores. Isso mediante ganhos percentuais sobre os valores aplicados pelos futuros parceiros – em um sistema chamado de “binário”, mas que, na prática, funciona como uma pirâmide.

Com o tempo, foram incorporados ao esquema investimentos vindos de minas, do mercado de vinhos, viagens e usinas de energia solar e reciclagem, entre outros. Em paralelo, ostentavam para os seguidores nas redes sociais seu “sucesso pessoal”, por meio de viagens internacionais.

O grupo, então, lançou duas criptomoedas próprias no fim de 2021, sem que elas tivessem algum lastro financeiro. Segundo a PF, os suspeitos manipularam o mercado para valorizar uma delas automaticamente, chegando a 5.500% em 15 horas e 38.000% dias depois.

Essas moedas virtuais foram usadas também para pagar investidores. Contudo, depois da alta meteórica, elas perderam todo o valor de mercado, levando à queda quase que completa da liquidez.

A La Casa de Papel foi às ruas em 19 de outubro de 2022. Foram expedidos 6 mandados de prisão preventiva contra os líderes da organização criminosa e 41 de busca e no Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Goiás, Maranhão e Santa Catarina.

Foram bloqueados valores em contas bancárias, imóveis de alto padrão, gado e ovelhas, veículos de luxo, ouro, joias, artigos de luxo, lanchas e criptoativos, bem como uma mina de esmeraldas.

Na operação, ganhou notoriedade a prisão do empresário e cantor Patrick Abrahão. Casado com a cantora Perlla, ele foi detido em um condomínio de luxo no Rio de Janeiro.