Nem mesmo a condenação de 12 anos de pronunciada no julgamento de Willian Enrique Larrea e Thiago Giovanni Demarco Sena pela morte do adolescente Wesner Moreira, em um lava-jato no ano de 2017, em Campo Grande, foram suficientes para que os dois saíssem do Tribunal direto para um presídio. A dupla saiu pela porta da frente porque vai recorrer em liberdade da condenação por homicídio culposo qualificado.

O Jornal Midiamax foi em busca da explicação sobre o porquê a condenação não resultou em prisão. Advogado criminalista, José Roberto Rosa falou sobre o que ocorreu neste julgamento que deixou campo-grandenses revoltados diante da repercussão do caso.

Wesner foi morto em um lava-jato de Campo Grande durante uma “brincadeira”. Os dois condenados introduziram uma mangueira de ar comprimido dentro do corpo do jovem, que teve lesões graves em vários órgãos e não resistiu ao ferimento. Ele sofreu uma pressão de 45 quilos de ar, segundo revelou perito durante o julgamento.

Segundo o advogado, quando a dupla foi denunciada pelo crime, em junho de 2017 e depois ocorreu a pronúncia, tanto Thiago como William não ficaram presos, sendo impostas as medidas cautelares diversas da prisão, como manter endereço atualizado, comparecer em todas as fases do julgamento, não se ausentar da comarca sem permissão, são algumas delas.

Advogado José Roberto Rosa

O que é pronúncia?Para que o réu seja submetido ao julgamento pelo “júri popular” é necessário que o mesmo seja pronunciando, ou seja, que o magistrado responsável pela Vara do Tribunal do Júri competente profira decisão na qual entenda que o caso se trata de crime doloso contra a vida. 

Neste caso, José Roberto Rosa explica que os bons antecedentes criminais, endereço fixo, trabalho fixo e não terem cometido outros crimes durante o processo, junto da negativa de prisão em 2ª instância antes do julgamento, permitiu que Thiago e Willian pudessem sair pela porta da frente do tribunal. 

“Eles não descumpriram nenhuma das medidas cautelares antes do júri, portanto, ainda sem o exaurimento das peças recursais, vão permanecer em liberdade até que chegue à última instância”, disse o advogado. 

Mas, o que seriam estas peças recursais? Os dois têm direito a recorrer ainda no (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul), sobre a pena aplicada, e o tribunal mantendo a condenação, a defesa ainda pode recorrer ao STJ (Superior Tribunal de Justiça).

E se o STJ manter a condenação do júri popular ainda resta o STF (Supremo Tribunal Federal), que ao manter a decisão do júri popular, manda que os dois comecem a cumprir a pena e regime fechado como foi imposta, já que não há mais instâncias a serem percorridas.  

De acordo com o advogado José Roberto Rosa, todo este trâmite deve levar cerca de 1 ano e 6 meses, e só aí, Thiago e Willian começam a cumprir a pena em regime fechado. 

Júri aconteceu 6 anos após o crime

“Meu luto, virou luta”, disse a mãe de Wesner antes de entrar no plenário. Ela ainda revelou que não conseguiu dormir e passou a noite acordada a base de chás e orando muito.

Marisilva contou que o coração dela ficou na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do hospital, junto do filho. Ela fala da alegria do julgamento ter sido marcado, já que os autores achavam que nada ia acontecer.

Ao Midiamax, a mãe de Wesner ainda disse que na época os autores alegaram que era uma ‘brincadeira’, mas segundo ela, então, deveriam ter feito entre eles. Ela lembra da brutalidade do caso, “tiraram o sonho dele de servir o quartel e o meu de ter netos”.

Wesner faria 24 anos no próximo dia 7 de junho. A mãe do rapaz também contou que o filho só ficou vivo até revelar o que tinha acontecido para ela, morrendo dias depois. O irmão de Wesner, Luciano Gonçalves, de 26 anos, falou estar muito ansioso e emocionado e que acredita que tudo vai dar certo.

Morte de Wesner

O crime aconteceu no dia 3 de fevereiro de 2017. Na noite do dia 2, Wesner afirmou para a mãe que pegaria carona com Thiago, um dos acusados pelo crime. “Ele falou, mãe me acorda bem cedo que o Thiago vai vir me buscar para ir ao serviço”.

“No outro dia, quando o Thiago estava batendo na porta, senti até uma coisa ruim, mas meu filho foi”, conta Marisilva. Segundo a peça acusatória, na data de 3 de fevereiro de 2017, por volta das 10 horas, no Lava Jato, localizado na Avenida Interlagos, na Vila Morumbi, a dupla introduziu uma mangueira de ar no ânus de Wesner, causando-lhe ferimentos e em seguida sua morte.

Wesner teria pedido para Willian que comprasse um refrigerante e o mesmo questionou: “De novo? Agora toda hora Coca-Cola!”, e passou a bater na vítima com um pano utilizado para limpar carros, em tom de brincadeira.

Ainda conforme o processo, Wesner pediu para que ele parasse, mas não foi atendido. Em certo momento se afastou, mas foi imobilizado por Willian que o levou até Thiago, que por sua vez, com a mangueira de compressor de ar, retirou a bermuda e cueca da vítima e introduziu o equipamento em Wesner.

Imediatamente o adolescente começou a passar mal e vomitou, sendo levado ao Centro Regional de Saúde do e, posteriormente, ao Hospital Santa Casa, onde permaneceu internado até dia 14, quando morreu. O laudo apontou que o óbito foi causado por ruptura do esôfago e choque hipovolêmico por hemorragia torácica aguda maciça.

Quando a mãe ficou sabendo, o filho já estava no hospital. “Estava muito inchado, irreconhecível”, relata. “Fiquei esperando ele melhorar, quando um dia me contou o que aconteceu. Falou que eles sempre faziam esse tipo de brincadeira com ele e, na última vez, um deles laçou ele com pano molhado e o outro colocou a mangueira”, lembra a mãe.

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