Polícia

#Retrospectiva: Prisão de chefes e fornecedores enfraquece controle do PCC sobre o tráfico 

O controle do PCC (Primeiro Comando da Capital) sobre o tráfico de drogas na fronteira com a Bolívia e o Paraguai está enfraquecido. Segundo especialista, mais do que confrontos com os grupos rivais, as constantes operações policiais integradas, realizadas em Mato Grosso do Sul, têm desarticulado a facção que aos poucos perde lideranças, fornecedores, carregamentos […]

Renan Nucci Publicado em 19/12/2019, às 07h00

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O controle do PCC (Primeiro Comando da Capital) sobre o tráfico de drogas na fronteira com a Bolívia e o Paraguai está enfraquecido. Segundo especialista, mais do que confrontos com os grupos rivais, as constantes operações policiais integradas, realizadas em Mato Grosso do Sul, têm desarticulado a facção que aos poucos perde lideranças, fornecedores, carregamentos e bens como veículos e imóveis que sustentam o crime.

“Mato Grosso do Sul é centro estratégico para qualquer tipo de ação, seja por parte das facções, seja por parte da repressão. O Estado está no centro do trânsito com a Bolívia e o Paraguai. O trânsito pela região norte [do país] é muito difícil e a tendência é de que o contrabando e o tráfico desçam para o Paraguai. Por isso nossas fronteiras são atraentes, porque é um pulo para chegar a grandes centros e portos para despachar os entorpecentes”, explicou Edgar Marcon, delegado aposentado da Polícia Federal, advogado e especialista em segurança pública.

Por conta deste cenário, as forças de segurança precisam agir com intensidade. Só neste ano, a Polícia Federal, a Polícia Civil, a Polícia Militar e o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do Ministério Público Estadual investiram pesado contra as organizações criminosas. Em agosto, por exemplo, a PF deflagrou a Operação Cravada que teve como alvo principal liderança da facção localizada na PED (Penitenciária Estadual de Dourados).

#Retrospectiva: Prisão de chefes e fornecedores enfraquece controle do PCC sobre o tráfico 
Policiais do Choque durante a Operação Comando Fechado, do Gaeco. Foto: Henrique Arakaki/Midiamax

A ação, realizada com objetivo de atingir o núcleo financeiro da facção, teve ramificações no Paraná, São Paulo, Acre, Roraima, Pernambuco e Minas Gerais, para cumprimento de 30 mandados de prisão. Também em agosto, a Polícia Civil deflagrou a Operação Collimatos, para cumprimento de 64 mandados, dentre os quais quatro de busca e apreensão de adolescentes, 28 de prisão e 32 de busca domiciliar em Campo Grande, Dourados, Anaurilândia, Taquarussu, Batayporã, Nova Andradina e Nova Casa Verde, distrito de Nova Andradina.

Em março, a Deco (Delegacia Especializada de Combate ao Crime) organizado realizou a Operação Impetus, ofensiva contra célula do PCC que dispunha de núcleo de inteligência para investigar, perseguir e matar agentes de segurança. A investigação identificou pelo menos 20 detentos sob custódia da Agepen (Agência Estadual do Sistema Penitenciário de Mato Grosso do Sul) que integram o esquema criado pela facção.

Em novembro, o Gaeco realizou a Operação Comando fechado, para cumprir 62 mandados, dentre os quais 46 de prisão e 16 de busca e apreensão, também com o objetivo de desarticular a facção. Unidades especializadas da PM, como o Batalhão de Choque e o Bope (Batalhão de Operações Especiais), prestaram apoio nos trabalhos. Estas são apenas algumas das ações realizadas em 2019 que ajudaram a enfraquecer a estrutura da organização criminosa.

Conflitos e Prisões

Em março, Thiago Ximenes, conhecido como Matrix e identificado como liderança do PCC na fronteira, foi preso no Paraguai. No mês de outubro, operação deflagrada pela Senad (Secretaria Nacional Antidrogas) do Paraguai prendeu 20 policiais paraguaios, em Assunção, que estavam envolvidos com o narcotráfico e com a facção criminosa na fronteira.

#Retrospectiva: Prisão de chefes e fornecedores enfraquece controle do PCC sobre o tráfico 
Levi, fornecedor de armas ao PCC, foi preso em 2019. Foto: ABC Color

Na ação também foi preso Levi Adriani Felicio, conhecido como ‘Irmão Levi, que era apontado como principal fornecedor de drogas e armas para tanto para o PCC quanto para os rivais do CV (Comando Vermelho). Em junho, autoridades da Argentina descobriram um bunker com mil armas de guerra, dentre as quais fuzis e metralhadoras, que pertenciam a uma organização criminosa internacional com extensões na Europa e nos Estados Unidos.

A ação trouxe à tona uma esquema de tráfico que enviava armas de Martínez, na região de Buenos Aires (ARG), para Pedro Juan Caballero, no Paraguai, de onde os carregamentos entravam no Brasil pela fronteira via Mato Grosso do Sul, e alimentavam o PCC e o CV. As facções ainda precisam travar disputa constante com o Clã dos Rotela, organização paraguaia que deseja dominar o crime organizado na fronteira.  Senad e a PF tem realizado ações conjuntas que já resultaram na destruição de acampamentos e plantações que causaram prejuízo milionário aos narcotraficantes.

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Acampamento de plantação de maconha destruído na fronteira. Foto: Senad

Problemas de Gestão

Como toda estrutura organizada, o PCC também tropeça nas próprias pernas. Além de lidar com os rivais e com investida da polícia, o grupo sofre com a divisão entre os intelectuais, que são as grandes lideranças ligadas ao trabalho de gestão, contato com fornecedores e gestão das finanças, e os soldados que agem na base da violência. “O PCC é uma facção que não tem muito controle nas ações. Geralmente a pessoas que assumem postos de comando, assumem mais pela capacidade de violência, do que pela inteligência. Não é à toa que as lideranças duram em média seis meses, até serem presas ou mortas”, disse Marcon.

O especialista afirma que a falta de intelectualidade tem prejudicado o poder. “Os grandes barões que usam o nome do PCC pouco aparecem. Aí temos duas situações, a violência desenfreada promovida pelos soldados e a organização da galera mais cerebral que toca o tráfico. Os soldados são os mais perigosos, pois têm que pagar a mensalidade e para isso assaltam, roubam. São os mais prejudiciais, pois cometem crimes comuns”, afirme.

O problema neste sentido, é que os soldados são maioria e, no que diz respeito ao controle do tráfico na fronteira, são os que mais tem atuado desde a morte de Jorge Rafaat Toumani, assassinado em emboscada de guerra em junho de 2016. Ele era um dos responsáveis pelo controle de armas e drogas na fronteira. “O poder não admite vácuo e consequentemente as facções não dividem o poder. Por isso a violência se intensifica e prejudica as demais ações, enfraquecendo a facção”.

Medidas

Para Marcon, a maneira mais eficaz de enfrentar este tipo de criminalidade é por meio de parcerias. “O caminho é a cooperação entre policiais brasileiros e organismos internacionais. Nenhuma organização consegue combater o poder do Estado. O que ocorre nas fronteiras com a Bolívia e o Paraguai é que as organizações encontraram terreno o terreno fértil da corrupção”.

Jornal Midiamax