Brechós de A a Z: com mercado aquecido, consumo consciente está no ‘hype’ de Campo Grande pós-pandemia

Segundo especialistas, o momento pós-pandêmico aqueceu mercado de brechós. Dos preços populares até itens de luxo, campo-grandense está mais adepto ao consumo consciente
| 27/07/2022
- 15:00
Brechós conquistam espaço em Campo Grande
Brechós conquistam espaço em Campo Grande (Foto: Nathalia Alcântara/Midiamax)

Dinâmica, cíclica, efêmera. Essas são algumas palavras que caracterizam o conceito de moda. Quer ver um exemplo na prática? Há cerca de 10 anos, era basicamente impensável imaginar peças de brechós sendo consideradas ‘itens-desejo’. Excluídas e marginalizadas, normalmente eram roupas que ‘sobravam’ e ninguém mais queria. Esse tipo de mercado, então, sobreviveu por muito tempo em meio a preconceitos de quem acreditava que produto usado não era bom. Com a popularização do consumo consciente, ideais são considerados ultrapassados na atualidade. Desde consultorias até estratégias de vendas, brechós renasceram das cinzas e tem mercado aquecido em Campo Grande no momento pós-pandemia.

Independentemente do público, a verdade é que cada vez mais o segmento está capacitado para conquistar clientes. Mas antes de entrar no mérito de tanta transformação, que tal entender como esse movimento conquistou espaço?

Consumo consciente – chique é ser responsável

Você sabia que a indústria de moda e têxtil é o terceiro setor mais poluente do mundo, perdendo apenas para alimentos e construção? Segundo o relatório Fórum Econômico de Davos, publicado em 2021, setor representa até 5% das emissões mundiais de gases de efeito estufa.

Isso sem mencionar a utilização de recursos naturais na produção. A fabricação de apenas uma calça jeans consome em média mais de cinco mil litros de água, conforme a ONU (Organização das Nações Unidas). Vale ressaltar, ainda, que cada tecido usado na fabricação – seja de origem vegetal ou não – gera algum tipo de prejuízo ao planeta na sua cadeia de produção.

As famosas fast fashion representam grande parcela deste índice, visto que modelo de consumo está pautado no barateamento da mão de obra e da matéria-prima (muitas vezes até envolvendo trabalho escravo), gerando, assim, o consumo desenfreado.

Grande exemplo de como movimento é nocivo para a saúde do planeta é o deserto de roupas do Atacama, verdadeiro ‘lixão da moda’ a céu aberto no Chile. Isso mesmo, o local contém pilhas com milhares de roupas descartadas vindas, principalmente, dos EUA e países da Europa e Ásia. Elas são fabricadas, em sua maioria, na ou em Bangladesh.

Esse montante de roupas descartadas no "lixão da moda" se dá em razão da rápida e insustentável produção das redes de fast fashion, que lançam várias coleções por ano a baixo custo, com peças de qualidade inferior rejeitadas em pouco tempo.

Chocante, né? Agora imagina esses dados em escala mundial. Afinal, o planeta tem cerca de 7,7 bilhões de pessoas e a maioria delas está envolvida nesse mecanismo de consumo – inclusive você.

Portanto, os brechós são ‘botes salva-vidas’ que ajudam diretamente na reutilização de roupas. O consumo consciente, então, vem para aumentar a vida útil de uma peça e reduzir o desperdício ocasionado por toda a cadeia de fabricação.

Pandemia impulsionou compras de itens usados

É o que afirmou Val Reis, jornalista e participante do Coletivo de Brechós de Campo Grande. Segundo ela ao MidiaMAIS, a crise ocasionada pela pandemia impulsionou as compras de itens usados na Capital e brechós voltaram com força para o mercado. Isso ocorreu porque peças têm qualidade e são mais baratas.

Val ainda destaca as mudanças ocorridas nos brechós de 10 anos para cá. Enquanto antigamente eram lojas empoeiradas e com muitas peças estragadas – o que influenciou no preconceito – o cenário é bem diferente em 2022.

“Hoje os brechós têm muito mais cara de boutique, as pessoas têm se preocupado mais com isso e cresceu bastante. Ainda existe bastante brechó estilo ‘feira de pechincha’, mas na verdade eles estão tendo um cuidado com as peças, com apresentação, cuidado de loja”, explica Val.

Sobre o preconceito, Reis revela que diminuiu ao longo dos anos e as pessoas estão adotando pensamentos mais sustentáveis quanto à moda. Então, a expectativa de valorização dos brechós nos próximos anos é ainda maior, visto que o público está buscando mais exclusividade, preço baixo e peças diferentes agregadas a valores.

“No futuro eu acredito que tende a crescer bastante. Já deu um salto de quando a gente começou para agora e a ideia é crescer ainda mais”, conclui.

Apresentação importa, sim!

A premissa de que a beleza é a primeira estratégia de venda nunca fez tanto sentido para quem trabalha com brechós. Isso porque, sem a devida apresentação de uma peça, raramente uma pessoa vai se sentir tentada a comprá-la. Isso vale para roupas, calçados, acessórios e demais artigos. Afinal, as pessoas admiram com os olhos.

Brechós
Produções impecáveis aumentam procura em brechós (Foto: Stephanie Dias)

Portanto, é com o alinhamento de peças boas a apresentações impecáveis que brechós conseguem quebrar preconceitos e conquistar espaço no mercado.

Melissa Dias dos Santos, de 24 anos, entende bem disso. Dona de brechó especializado no estilo vintage e peças de linho, ela sempre foi apaixonada pelo universo da moda. A dificuldade em encontrar peças acessíveis para si mesma ajudou a seguir essa carreira.

Na hora de encontrar produtos para vender, garimpa em bazares beneficentes e sempre está rodando o Brasil a fim de encontrar itens diferentes. Ao escolher, a prioridade é sempre analisar o corte, tecido e qualidade daquela roupa.

“Priorizo mais tecidos naturais, linho puro, algodão e por aí vai. Então, a seleção das peças é na linha da identidade do meu brechó. Se você entrar nele vai parecer como se fosse uma loja”, relata Melissa, que recentemente abriu espaço físico em Campo Grande.

Melissa não deixa a experiência do consumidor de lado. Além de fazer curadoria das peças, ela também pensa nos pequenos detalhes do brechó. Dos cheiros até a embalagem, tudo é criado para ter vínculo com o público.

“Tem um pouco de tudo, mas peças selecionadas a dedo. As peças passam por um processo de curadoria, pois vem às vezes rasgadas, manchadas ou qualquer outro defeito. Meu trabalho e deixá-las impecáveis para o uso”, conta.

Visto que viaja sempre a trabalho, a jovem afirma ser um mercado mais aceito em outros Estados, como São Paulo. Apesar das mudanças, ainda sente que tem resistência aos itens usados. Para conseguir espaço, Melissa participa de muitos eventos onde exibe o seu brechó justamente para mudar essa visão, além de mostrar a importância do consumo consciente.

“Brechó além de ser uma moda alcançável é também uma prática sustentável, pois você está dando uma nova chance para uma peça que iria ser descartada”.

Brechós
Tudo orna com o conceito do brechó (Fotos: Stephanie Dias)

Público A também compra em brechó

Você já ouviu falar nos brechós de luxo? Especialistas em vender apenas marcas de luxo e internacionais, são novidades que conquistam espaço Estado afora.

Bárbara Queiroz, por exemplo, atua com o segmento na Capital há seis anos e comercializa apenas produtos de grife, com foco nas bolsas. Formada em moda, conheceu esse tipo de mercado em Londres e decidiu trazer esse conceito de moda circular para Mato Grosso do Sul.

Brechó de luxo
Serviço é pensado em oferecer experiência de 'loja' (Foto: Nathalia Alcântara/Midiamax)

Ela vende Gucci, Prada, Louis Vuitton, Chanel, Yves Saint Laurent, Dolce & Gabbana, Fendi, Miu Miu, Burberry e demais marcas internacionais. Todos os itens são usados, mas apresentam conservação de novos.

Ela explicou ao MidiaMAIS que ao receber uma peça, faz curadoria minuciosa para ver se é verdadeira e ainda pega autenticação norte-americana para comprovar a autenticidade. Com clientes no Brasil inteiro, afirma ter clientes fiéis de Campo Grande e interior.

“Campo Grande despertou e está crescendo, sim. Aqui tem público que consome, que gosta, que viaja, está antenado e compreendendo a importância desse consumo”, disse.

Brechó de luxo
Bárbara trabalha com desapego de luxo há seis anos (Foto: Nathalia Alcântara/Midiamax)

Questionada do motivo de ter investido no mercado de luxo, ela revela que todas as peças têm histórias e valores agregados importantes demais para simplesmente serem ‘jogadas fora’.

“Consumo inteligente é você comprar e usar. Se você compra uma peça cara e não usa, não faz sentido ter aquela peça ali. O legal é você ter peças que te representam no hoje, não peças que já foram e não te representam mais”, comenta a empresária.

Bárbara adotou a mesma estratégia da apresentação para mostrar os itens, tornando, assim, os produtos usados em ‘peças-desejo’.

“No desapego você pode sim encontrar uma peça bacana, uma peça de luxo, uma peça que muitas vezes não teve uso e com preço muito bacana”, conclui.

O que é o Coletivo de Brechós?

Há oito anos em funcionamento na Capital, Coletivo de Brechós é um grupo atuante no segmento com objetivo de quebrar preconceito em relação às roupas usadas. Coletivo também é responsável por promover ações culturais, levar feiras aos bairros e realização de bazares na Plataforma Cultural.


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