O filme “O Som ao Redor”, longa de estreia do pernambucano Kleber Mendonça Filho, ficou de fora da lista dos nove pré-selecionados para disputar o Oscar 2014 na categoria de melhor filme em língua estrangeira, anunciada nesta sexta-feira (20) pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos. A lista dos cinco indicados será divulgada no dia 16 de janeiro.

Os nove longas que avançam na corrida por uma indicação são: “The Broken Circle Breakdown”, de Felix Van Groeningen (Bélgica), “An Episode in the Life of an Iron Picker”, de Danis Tanovic (Bósnia e Herzegovina), “L’image manquante”, de Rithy Panh (Camboja), “A Caça”, de Thomas Vinterberg (Dinamarca), “Duas Vidas”, de Georg Maas e Judith Kaufmann (Alemanha), “O Grande Mestre”, de Wong Kar-Wai (Hong Kong), “The Notebook”, de Janos Szasz (Hungria), “A Grande Beleza”, de Paolo Sorrentino (Itália), e “Omar”, de Hany Abu-Assad (Palestina).

Kleber Mendonça Filho recebeu a notícia do UOL ao chegar em casa depois de fazer compras de Natal. Ele afirmou que estava tranquilo, sem ansiedade pela espera da divulgação da pré-lista, e não se mostrou triste com a exclusão de “O Som ao Redor”. “Eu sou muito pragmático, trabalho com cinema, programo filmes, e acho que as pessoas estão sempre atrás de bons e belos filmes. Se não foi para eles [votantes do Oscar], tudo bem. Esse filme já me surpreendeu mais de cem vezes este ano”, disse.

Sobre a campanha de divulgação do filme em Hollywood, junto aos votantes do Oscar, Mendonça disse não ter nenhuma reclamação. “Eu fiz o melhor trabalho que poderia ter feito, dei entrevistas, participei de debates, marquei presença. Se não rolou, faz parte. Tem um monte de outras coisas acontecendo com o filme, agora ele vai estrear na França, por exemplo”, afirmou.

“Quando eu estava lá soube de algumas outras campanhas, e acho que a campanha que o Brasil permitiu que eu fizesse foi muito boa, não tenho reclamação. Usamos muito bem os R$ 300 mil que tínhamos, publicamos anúncios nas maioes e melhores revistas”, completou.

Segundo ele, apenas o fato de “O Som ao Redor” ter sido escolhido para representar o Brasil no Oscar já havia jogado “uma nova luz sobre o filme”.

O último filme brasileiro a ser indicado para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro foi “Central do Brasil”, de Walter Salles, em 1999, que perdeu para o italiano “A Vida é Bela”, de Roberto Benigni. O filme também rendeu indicação ao Oscar de melhor atriz para Fernanda Montenegro, mas a estatueta ficou com Gwyneth Paltrow (“Shakespeare Apaixonado”).

Além de “O Som ao Redor”, outros filmes que foram destaque em festivais internacionais ficaram de fora da pré-lista de nove, como o iraniano “O Passado”, de Asghar Farhadi, o mexicano “Heli”, de Amat Escalante, e o chileno “Gloria”, de Sebastián Lelio. O vencedor da Palma de Ouro em Cannes, “Azul é a Cor Mais Quente”, de Abdellatif Kechiche, não foi sequer escolhido pela França, que preferiu apostar suas fichas em “Renoir”, de Gilles Bourdos, que também ficou de fora.

A cerimônia do Oscar 2014 acontece no dia 2 de março, em Los Angeles.

Recepção e campanha

Apesar de não ter conseguido avançar na corrida pelo Oscar, o filme brasileiro já conquistou outras vitórias. Para o “New York Times”, o filme está entre os dez melhores do ano. Para o “Los Angeles Times”, é um dos mais fortes do século (“De tirar o fôlego”). O filme também entrou para a lista dos 10 melhores do ano do crítico Peter Debruge, da revista especializada “Variety”.

A Ancine (Agência Nacional do Cinema) e o Ministério da Cultura também entraram em ação para ajudar “O Som ao Redor” a se destacar entre os 76 concorrentes ao prêmio de língua estrangeira. O filme recebeu R$ 284 mil dos dois órgãos, que foram gastos em anúncios nos principais jornais, revistas e sites norte-americanos e na contratação dos mesmos publicistas que promoveram o japonês “A Partida” (2008) e o francês “Piaf – Um Hino ao Amor” (2007) na corrida ao Oscar, ambos vencedores de estatuetas.

A produção ganhou prêmio de melhor filme na 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, no Festival do Rio 2012, na edição 2012 do Festival de Cinema de Gramado, no CPH Pix 2012 (em Copenhagen, na Dinamarca), o Prêmio da crítica Fipresci no Festival de Roterdã, na Holanda, e o prêmio “primeiro filme”, categoria que elege o melhor trabalho de um diretor estreante, da Associação de Críticos de Toronto, no Canadá.

Kleber também diz ter sentido que o filme foi muito bem recebido e também compreendido no exterior. “Eu não precisei explicar muito o filme nos Estados Unidos. Ele estreou lá e recebeu críticas espetaculares”. A crítica do jornal “The New York Times” ressalta o caráter universal da trama, que retrata o cotidiano de moradores de uma rua de classe média no Recife. “Alguns eventos que ocorrem dentro daquelas paredes poderiam ser episódios de uma novela da banalidade doméstica criada em Singapura, San Francisco, Cidade do Cabo ou Dubai”, escreveu o crítico A.O. Scott.

Quando passar o trabalho todo que “O Som ao Redor” exige, ele vai dirigir um roteiro que Mark Peploe, corroteirista de “Profissão: Repórter” (1975), escreveu nos anos 1970 baseado em história de Michelangelo Antonioni. Vencedor do Oscar por “O Último Imperador” (1987), Peploe convidou o brasileiro para dirigir “The Crew” ao conhecê-lo no Festival de Locarno em 2012.