Cada passo de Bruce reacende a esperança de, um dia, vê-lo correndo livremente. Abandonado por ter uma deficiência nas patas e não conseguir andar, o cãozinho compartilha a realidade de inúmeros animais abandonados e deixados à própria sorte em ambientes hostis. Em Campo Grande, com mais animais entrando do que saindo dos abrigos, o abandono se tornou um problema de saúde pública.
Invisíveis para muitos, a história de Bruce se entrelaça com a 30 de milhões de cães e gatos em situação de rua no Brasil. O levantamento da OMS (Organização Mundial da Saúde) estima que há 20 milhões de cães e 10 milhões de gatos ainda vivem à sombra do abandono. Em Campo Grande, embora o abandono seja visível nas ruas, não há dados atualizados sobre a situação dos animais.
Nesta sexta-feira (4), é celebrado o Dia Mundial dos Animais de Rua, data criada para reforçar a importância da conscientização e da proteção desses animais. Por isso, o Jornal Midiamax traz uma reportagem que destaca a importância do trabalho desenvolvido em prol do bem-estar animal em Campo Grande.
Segunda chance para Bruce

Com pouco mais de um mês de vida, o Pitbull Bruce carrega uma trajetória que poderia render um enredo de cinema. Com problemas nas patas, o filhote estava abandonado em um terreno baldio no bairro Nova Campo Grande e, por pouco, não teve um destino cruel. A história ganhou repercussão nas redes sociais e mobilizou moradores da Capital.
Sabrina Carvalho, responsável pelo resgate, conta que na manhã do dia 12 de março, acessava as redes sociais, quando se deparou com a foto do cãozinho abandonado, acompanhada de um pedido de resgate. Ao se dirigir até o local no intervalo do trabalho, constatou que, embora uma vizinha já tivesse pegado o cão, ela não pôde acolhê-lo e, por isso, o deixou na porta de uma casa próxima.
Com isso, Sabrina decidiu que o resgataria à tarde, ao fim do seu expediente de trabalho. Mas, pouco tempo depois, um vizinho alertou que “iriam levar Bruce a CCZ com a intenção de eutanasiá-lo”.
Embora a CCZ (Coordenadoria de Controle de Zoonoses de Campo Grande) realize eutanásia somente em animais doentes, como em casos de raiva e leishmaniose, a incerteza do destino de Bruce motivou Sabrina a agir rapidamente e antecipar o resgate.
“Fiquei sabendo que estavam planejando levá-lo a CCZ, e algumas pessoas comentavam sobre a possibilidade de eutanásia. Eu não podia deixar isso acontecer”.
Assim, o cãozinho foi resgatado e levado para uma clínica veterinária, onde exames indicaram suspeita de nanismo e uma possível má-formação congênita. Segundo Sabrina, a suspeita era que Bruce seja resultado de uma cruza entre espécies. “A médica explicou que ele tem as patinhas traseiras parecidas com as de um Dachshund (salsicha) e as dianteiras lembram as de um Buldogue, mesmo sendo um Pitbull”, relata.
Reviravolta…
Enquanto o filhote estava na clínica, Sabrina recebeu uma ligação de um homem, que informou que o cão pertencia à sua irmã. Segundo ele, na noite anterior, a irmã havia publicado em um grupo do Facebook a intenção de doar o animal por não ter condições de arcar com o tratamento, dado que Bruce não andava devido à sua condição e precisava de cuidados especiais.
A situação ganhou novos contornos quando surgiram informações de que, logo após a publicação da antiga dona, dois homens, supostamente de uma ONG (Organização Não Governamental) entraram em contato para adotá-lo. A dona decidiu, então, doar o filhote. Horas depois, os homens chegaram em uma motocicleta, sem identificação oficial ou os instrumentos adequados para o transporte, e levaram Bruce embora.
Na manhã seguinte, a imagem do filhote jogado em um terreno baldio do bairro Nova Campo Grande repercutiu nas redes sociais. Para Sabrina, os homens, que provavelmente mentiram sobre trabalhar para uma ONG, pegaram o Bruce com a intenção de usá-lo para reprodução. No entanto, ao perceberem que ele não conseguia sequer se levantar, o abandonaram no mato.
Após o contato inicial dos antigos donos e o resgate realizado por Sabrina, o casal que havia doado Bruce compareceu à clínica para obter informações sobre o filhote. Embora a situação tenha gerado revolta inicial, Sabrina conta que, ao conversar com eles, percebeu que eram pessoas de “bom coração”, mas foram muito ingênuas ao entregar o cãozinho sem checar as informações.
“Eles são de Alagoas, trabalham das 04h às 17h e não tinham condições de cuidar do cachorro, mas se comprometeram a ajudar com os custos do tratamento e a acompanhar o destino do filhote”. Assim, Bruce recebeu uma 2° chance.
Luta diária para os protetores independentes

Sem apoio governamental e com poucos recursos, protetores independentes enfrentam uma batalha diária para salvar animais em situação de rua em Campo Grande. Sem vínculo com ONGs ou instituições, eles dependem de doações e da solidariedade de grupos nas redes sociais para custear tratamentos veterinários e garantir um futuro digno para os animais resgatados.
É o caso de Sabrina que, há poucos meses começou a atuar no resgate de animais. Antes, ela contribuía com ração e medicamentos para ONGs, mas nunca havia recolhido um animal diretamente das ruas. O primeiro resgate aconteceu em janeiro de 2025, quando encontrou uma Border Collie perdida. Dois dias depois, conseguiu localizar o tutor. A experiência despertou um novo olhar e, desde então, ela passou a se envolver cada vez mais com a causa. Até o dia em que encontrou Bruce e decidiu que nunca mais iria ignorar um animal abandonado.
“Comecei a ver as postagens nos grupos do Facebook, me sensibilizei e decidi ajudar os animais que estivessem próximos e precisando de socorro”, conta.
Apesar da boa vontade e do esforço, os resgates esbarram em um grande obstáculo: os custos com atendimento veterinário. “Mesmo explicando que são animais resgatados, as clínicas cobram caro. A única ajuda que recebo vem de pessoas dos grupos no Facebook, que contribuem com doações via Pix”, relata.
Nesse cenário, muitas vezes Sabrina precisa escolher quais animais consegue ajudar, já que os gastos podem ser altos, especialmente em casos mais graves.
“Sei que não consigo salvar todos, mas cada resgate faz a diferença. Se todos os animais fossem microchipados, daria para identificar e responsabilizar quem abandona. Quanto menos animais nas ruas, melhor”, conclui.
Novo lar e recomeços
Entre tantos animais resgatados, a história de Bruce – agora chamado Zyon – não tocou apenas Sabrina, mas também Elaine Fernandes, 49, fisioterapeuta que mesmo já cuidando de dez cães e cinco gatos, sentiu que deveria abrir espaço para mais um. A decisão veio após perder Tiffany, uma cadela vítima de maus-tratos, cuja ausência deixou uma lacuna que Elaine decidiu preencher com amor e acolhimento.
“Quando vi a história do Bruce, algo me disse que eu poderia dar a ele uma chance de voltar a ser feliz”, conta.
De início, Elaine se ofereceu para dar lar temporário ao filhote, mas logo se apegou e decidiu adotá-lo definitivamente.
Para a fisioterapeuta, um dos resgates mais marcantes, foi o de um casal de Shih-Tzus que nasceram com síndrome do cão nadador e tórax aberto. Ao levá-los em uma clínica veterinária, disseram que as chances de sobrevivência eram mínimas e que talvez apenas uma cirurgia complexa pudesse ajudar.
Determinada a tentar algo diferente, Elaine desenvolveu um método próprio: improvisou uma pequena caixa de remédio no tórax de um dos filhotes para protegê-lo sem pressionar, além de amarrar as perninhas para evitar que se abrissem enquanto tentavam andar. O resultado foi surpreendente. “Com dois meses, eles já estavam andando. Com três meses, o tórax já estava fechado”, relembra.
Elaine também ajudou um sapo chamado Bartolomeu, que apareceu em sua casa com a boca colada com cola instantânea. Após cuidar dele, o animal passou a visitá-la diariamente para tomar banho na fonte e se alimentar. Outra história marcante foi a de Zydruna, uma cadela cuja mãe, doente com câncer, só conseguiu descansar após Elaine prometer que cuidaria da filhote até o fim da vida. Hoje, Zydruna está com 11 anos.
Responsabilidade
Apesar de seu trabalho ativo em prol do bem-estar animal, Elaine defende que a mudança real depende de medidas concretas, como a castração e a adoção responsável. “Castração seria essencial para reduzir o abandono de filhotes. As mães sofrem ao parir a cada seis meses, e muitos desses filhotes acabam nas ruas”, alerta.
Além disso, ela critica as adoções impulsivas, em que tutores pegam animais por achá-los ‘pequenos e fofos’, mas os descartam quando crescem.
“O maior número de abandonos acontece no final do ano e nos primeiros meses, por conta das férias e viagens. As pessoas adotam sem pensar no futuro dos animais. Se houvesse um meio mais rápido e sem tanta burocracia para castrar, seria mais fácil controlar a população, principalmente de gatos, que se reproduzem mais rápido que os cães”, explica.
Apesar das dificuldades, para Elaine, cada resgate é uma prova de que o amor e o cuidado podem mudar destinos.
“Cada animal que passa pela minha vida me ensina algo. O que quero deixar como exemplo é que as pessoas deem uma oportunidade a um animal, seja ele de rua ou de raça, com deficiência ou não. O amor que recebemos em troca é imensurável. Mas é preciso fazer isso com responsabilidade”, finaliza.
População de cães e gatos cresce, mas dados sobre abandono seguem incertos

Entre 2015 e 2022, a população de cães e gatos em Campo Grande cresceu cerca de 40%, passando de 206,6 mil para 287,7 mil, conforme o último Censo Canino e Felino, realizado pela CCZ. No entanto, quase três anos após esse levantamento, a cidade ainda não possui dados atualizados sobre quantos desses animais vivem em situação de rua.
Questionada, a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) informou que a CCZ está conduzindo um novo levantamento, mas ainda não há estimativas oficiais sobre a quantidade de cães e gatos abandonados na Capital. Enquanto isso, as políticas públicas seguem focadas na posse responsável e no controle populacional.
Dados do Censo Canino e Felino, realizado entre junho de 2021 e março de 2022, revelou que Campo Grande possuía 224.563 cães e 63.205 gatos. A maioria dos animais estava concentrada na Região Urbana do Anhanduizinho, que contabilizou 65.570 cães e 18.248 gatos, enquanto a menor população vivia na Região Central, com 9.010 cães e 2.856 gatos.
Do total de cães, 90% tinham mais de seis meses de idade. Já entre os gatos, 19.004 eram castrados, indicando uma taxa significativa de esterilização na população felina.
Para a médica veterinária Cláudia Macedo, da CCZ, o censo é uma ferramenta essencial para direcionar políticas públicas e otimizar os serviços de controle de zoonoses.
“Com o crescimento do número de animais, podemos ampliar as campanhas de vacinação e as vagas de castração, sempre com o objetivo de garantir a vigilância de zoonoses e promover a saúde única”, destaca.
Em 2019, um levantamento realizado pelo IPB (Instituto Pet Brasil) apontava Mato Grosso do Sul em terceiro lugar com menos animais abandonados, ou seja, sem um tutor definido, mas sob a proteção de alguma ONG.
Dos maus-tratos ao abandono

Em muitos casos, o abandono está associado a casos de maus-tratos, realidade que se reflete nos números registrados nos últimos anos em Campo Grande. Conforme a Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul), o número de maus-tratos que resultaram na morte do animal dobrou entre 2019 e 2023.
Em 2019, dos 209 casos registrados, 17 resultaram em óbito. Já em 2023, houve uma queda no número total de ocorrências para 96, mas o número de mortes saltou para 35, um aumento de 106%. Apesar da redução de 45,96% no total de denúncias de maus-tratos na cidade nos últimos cinco anos, a letalidade dos casos aumentou significativamente. Isso indica que os animais resgatados estão chegando às autoridades em situações cada vez mais graves.
Ainda em 2023, a Decat (Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes Ambientais e de Atendimento ao Turista), responsável pelas investigações desses crimes, realizou oito prisões por maus-tratos. No entanto, o número de flagrantes ainda é considerado baixo diante da gravidade do problema.
No Brasil, os maus-tratos contra animais domésticos estão previstos no Artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/98). A legislação define a prática como qualquer ato de abuso, ferimento ou mutilação de animais, além da realização de experiências dolorosas para fins didáticos ou científicos sem justificativa ética. A pena para o crime de maus-tratos pode chegar a cinco anos de prisão, além de multa e proibição da guarda de animais para os condenados. No caso de mortes decorrentes dos abusos, as penalidades podem ser ainda mais severas.
Castração como estratégia para reduzir o abandono

Em meio a um cenário incerto, uma das principais medidas adotadas pela prefeitura para conter a superpopulação animal tem sido a ampliação das campanhas de castração. Entre 2024 e 2025, a CCZ realizou 7.070 cirurgias, sendo 4.320 para felinos e 1.740 para cães.
Já a Subea (Superintendência de Bem-Estar Animal) realizou 10.811 castrações entre janeiro de 2024 e fevereiro de 2025. Para este ano, estão previstas 12.000 novas castrações em clínicas credenciadas, distribuídas pelas sete regiões da cidade.
Além do controle populacional, a Subea promove programas como microchipagem, vacinação antirrábica e polivalente, atendimento veterinário itinerante, além da fiscalização contra maus-tratos e distribuição de ração para ONGs. Outra novidade foi o lançamento de um consultório móvel, que busca atender famílias de baixa renda e garantir assistência veterinária aos animais.
Embora as campanhas de castração e posse responsável sejam fundamentais, o abandono segue como um desafio latente. Segundo a Subea, as taxas de adoção se mantiveram estáveis entre 2023 e 2024, o que torna ainda mais difícil combater o cenário de abandono em Campo Grande.
Comissão de Defesa dos Direitos dos Animais
Além das ações governamentais, Campo Grande conta com iniciativas como a Comissão de Defesa dos Direitos dos Animais da OAB-MS (Ordem dos Advogados do Brasil), criada para fortalecer a proteção animal. No entanto, a falta de dados atualizados e o endividamento de protetores dedicados à causa evidenciam desafios que ainda precisam ser superados.
Em 2023, a Comissão contabilizou o resgate de 2.815 animais. Desde então, não há novos levantamentos concretos sobre a situação, especialmente em relação ao número de ONGs e protetores independentes em atividade. Presidente da Comissão, Jayme Magalhães Júnior, reconhece essa lacuna e destaca a dificuldade de mapear todos os envolvidos, já que muitos atuam anonimamente.
“Fizemos um levantamento no ano passado, quando visitamos mais de mil protetores. Mas sabemos que há muitos outros que não se identificam como tal e continuam ajudando. O que temos hoje é uma realidade preocupante: muitos animais em situação de rua, protetores endividados e OSCs sem recursos ou apoio político suficiente para manter suas atividades”, explica Magalhães.
Apesar do cenário desafiador, Jayme destaca que um avanço importante foi a criação da Subea, órgão que, segundo ele, tem desempenhado um papel positivo, mas poderia ser fortalecido. “Se no futuro se tornar uma secretaria com recursos próprios, poderemos ter políticas mais efetivas para auxiliar tanto os protetores quanto os animais”, avalia.
Além do resgate e da assistência a animais abandonados, um dos principais focos da Comissão para este ano será o combate aos maus-tratos e o apoio a políticas públicas que garantam o bem-estar animal.
“Queremos nos aproximar dos gestores e auxiliá-los na construção de legislações condizentes. Percebemos que algumas normas municipais entram em conflito com leis nacionais, e queremos prestar suporte para que as políticas públicas sejam mais eficientes”, acrescenta.
Como denunciar?

A orientação é que moradores que queiram denunciar maus-tratos procurem o município para denúncias. Em Campo Grande, o telefone é o (67) 99984-5013. Quem não souber o telefone ou tiver dificuldade de falar com a polícia militar Ambiental também pode acionar o telefone 190.
Quem comete o crime de maus-tratos está sujeito a pena de três meses a um ano de detenção para qualquer tipo de bicho, a exceção para gatos e cachorros, para os quais a pena é maior, de dois a cinco anos de reclusão.
Além da penalidade criminal, as autoridades administrativas multarão o infrator em um valor que pode variar de R$ 500 a R$ 3 mil por animal.
CCZ
Além disso, a CCZ é responsável por fazer o recolhimento de animais que estejam soltos em vias públicas, que estejam doentes ou apresentem comportamento agressivo, sendo em ambos os casos considerados risco à população. A equipe de médicos veterinários avalia o animal recolhido, administra medicação contra verminoses e outros parasitas, e coloca-o para adoção.
No caso de animais portadores de doenças e/ou ferimentos considerados graves, e/ou clinicamente comprometidos, caberá ao médico veterinário do órgão municipal responsável pelo controle de zoonoses, após avaliação e emissão de parecer técnico, decidir o seu destino.
Caso se depare com um animal nessas condições, para que o recolhimento do animal seja realizado, o contato é 3313-5000 ou 3313-5001.
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