A cidade vazia ainda dorme quando o despertador do seu Davi Bicalho toca. O relógio no celular nem marcou 2 da madrugada, mas as luzes já se acendem na chácara próxima ao Aeroporto Santa Maria, na área sudeste de .

Um café preto é combustível para o corpo e ajuda a despertar do sono interrompido. No caminhão parado na varanda, caixas carregadas com legumes estão prontas para o trajeto diário de 18 quilômetros até o Ceasa da Capital. 

Por volta das 3h e sob o frio característico da madrugada, o agricultor chega à sede da Central de Abastecimento e segue direto para o ‘cantinho' que já ocupa há 15 anos na ‘pedra', nome dado ao galpão ocupado pelos produtores. 

Seu Davi acorda antes das 2h para lida diária no Ceasa. (Foto: Clayton Neves)

No espaço tomado pelo colorido de frutas, verduras e legumes, ele vê o raiar do sol enquanto negocia cliente a cliente os produtos que plantou e cultivou por pelo menos 120 dias.

“Fico no Ceasa até umas 8h e depois volto para a roça, lá meu dia continua e eu faço a preparação do campo, a colheita, e arrumo as mercadorias para vender. Minha chácara tem 30 hectares e hoje eu planto limão, berinjela, jiló, alface, cheiro verde, abobrinha, quiabo e laranja”, comenta.

Na família, a lida no campo passou de geração para geração e do ofício que aprendeu com o pai, o agricultor encontrou garantia de sustento para ele e quatro filhos, hoje todos formados. Com o trabalho rural, ainda ampliou oportunidades e atualmente emprega um auxiliar que o ajuda no trato com a terra.

Apesar do trabalho duro que a rotina no campo exige, Davi se diz realizado com a vida que tem. “Eu gosto do que faço e essa é minha oportunidade de sobrevivência, é o que me garante qualidade de vida”, avalia. 

Nos corredores do Ceasa, a realidade descrita por Davi se entrelaça à tantas outas histórias de homens e mulheres do campo, entre elas, do Roberto Silveira, de 48 anos, que garantiu comida na mesa para seis filhos como resultado do suor que saiu do trabalho rural.

Roberto seguiu passos do pai, que também era agricultor. (Foto: Clayton Neves)

“Desde que me entendo por gente já mexia com isso. Comecei vendo meu pai trabalhar na chácara da minha finada avó e ali aprendi a plantar. Hoje tenho meus filhos criados e continuo vivendo disso”, relembra.

Frutos da chácara do Roberto, caixas com jiló, quiabo, banana, mandioca e pimenta abastecem supermercados e chegam ao prato de moradores de Campo Grande, Corumbá, , , Ribas do Rio Pardo e de outras cidades que ele nem consegue se lembrar. “Para mim é um orgulho ver que o que eu produzo chega longe. Esse é meu meio de viver, a vida no campo é nossa vida”, finaliza.

Confira as imagens feitas pelo repórter Clayton Neves durante visita ao Ceasa de Campo Grande:

Toneladas de oportunidades 

Entre os milhares de quilos de produtos que anualmente passam pelo Ceasa-MS, se reflete a importância do pequeno produtor sul-mato-grossense. Entre 2020 e 2022, o que eles cultivaram representou mais de 11% de tudo o que chegou à Central de Abastecimento e foi distribuído cidade afora. 

Conforme balanço da Agraer (Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural), só no ano passado a agricultura familiar movimentou 2,4 toneladas de produtos no Ceasa. Mesmo que pareça pouco em um setor habituado ao macro, o peso também se transformou em cifras e fez saltar os índices econômicos do Estado.

As mercadorias que mais se repetiram entre as vendas foram:

  • Abóbora (80%)
  • Alface (50%)
  • Mandioca (45%)
  • Banana (35%) 
  • Couve (30%)
  • Quiabo (29%) 
  • Jiló (25%)
  • Cebolinha (23%)
  • Pepino (20%) 
  • Limão (18%) 
  • Agrião (15%) 
  • Rabanete (15%)  
  • Maxixe (12%) 

Para incentivar o estilo de produção, em abril de 2014 o Governo do Estado inaugurou no Ceasa o Cecaf (Centro de Comercialização da Agricultura Familiar). Atualmente, além do seu Davi e do Roberto, cerca de  50 produtores de Sidrolândia, Nova Alvorada do Sul, Jaraguari, Terenos, Campo Grande, Rochedo, Ribas do Rio Pardo e Dois Irmãos do Buriti ocupam o galpão.

Produtos da agricultura familiar comercializados no Ceasa de Campo Grande. (Foto: Clayton Neves)

Com 1.782 metros quadrados, a ‘pedra' familiar tem capacidade para receber 96 trabalhadores que pagam taxa diária de R$ 5. Além dos produtores, duas cooperativas comercializam no Cecaf, a Cooplaf (Cooperativa Agrícola Mista de Pecuária Leiteira e de Corte e da Agricultura Familiar) e a Comproja (Cooperativa Mista dos Produtores de Leite de Jaraguari e Região).

Produzir sem agredir

Para reduzir impactos ambientais, desde setembro de 2019 todo lixo gerado no Ceasa de Campo Grande é reciclado e tem destino correto. Inaugurada pela então Semagro (Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Produção e Agricultura Familiar), usina com capacidade para processar até 100 toneladas de resíduos por mês devolve aos produtores 8 toneladas de adubo orgânico.

Dentro da própria Central, são feitos a coleta seletiva, transporte, tratamento e a conversão dos resíduos em adubo orgânico, inclusive, materiais sólidos como plástico e papelão são reciclados e restos de madeira viram energia para combustão.

Campo Grande, a Capital promissora do agronegócio

Na avaliação do presidente do SRCG (Sindicato Rural de Campo Grande), Alessandro Coelho, o cenário para Campo Grande é promissor quando o assunto é desenvolvimento do agronegócio. Prova disso, nos últimos 3 anos a área de agricultura avançou em 50% da cidade.

Segundo Coelho, a Capital possui território com 800 mil hectares de áreas rurais, sendo que 70% têm até 60 hectares e são consideradas pequenas propriedades, inclusive, nas métricas tributárias do Governo. 

“São áreas com alta probabilidade de expansão com o uso de tecnologia. Campo Grande tem água boa, disponibilidade hídrica fantástica, solo e clima bons e esses fatores ajudam a cidade a ser polo para desenvolvimento de projetos. Nos próximos 10 anos, Campo Grande vai ser um dos municípios que mais vão se transformar e não será mais a cidade que a gente vê hoje, será transformadora do agronegócio”, analisa. 

Chácara na região do Aeroporto Santa Maria, onde há 15 anos o agricultor Davi Bicalho produz. (Foto: Arquivo Pessoal)

No entanto, para que a previsão encontre trajeto rumo à realidade, o presidente do Sindicato Rural elenca mudanças importantes que ainda precisam acontecer, a exemplo da facilitação no acesso a linhas de crédito, capacitação do trabalhador rural e, sobretudo, auxílio aos menores. 

Conforme balanço do SRCG, por falta de assistência e falhas na logística de comercialização, a renda mensal de alguns pequenos agricultores da Capital já foi inferior a 70% de um mínimo, realidade que demonstra a necessidade de olhar para o setor. 

‘Hoje o maior gargalo para o pequeno produtor é o escoamento da produção. Quando se fala de milho, soja, algodão e boi, a gente fala de commodities onde não existe problema de liquidez por ser produto de venda fácil. Já culturas como hortaliças e flores, por exemplo, existe série de dificuldades na comercialização, além disso, são itens extremamente perecíveis”, comenta.

Para que mercadorias não se percam, projeto da Prefeitura de Campo Grande em parceria com o Sindicato passou a incluir na merenda escolar itens da agricultura familiar da cidade. Só em 2023, aproximadamente 150 toneladas de produtos foram distribuídos entre mais de 205 unidades de ensino. 

“Com esse plano de assistência, o ganho de muito produtor que antes não chegava a um salário mínimo, agora ultrapassa esse valor. Agregamos R$ 12 mil por ano para esses trabalhadores e ainda evitamos que muita coisa fosse desperdiçada”, completa. 

Confira a entrevista completa do presidente do Sindicato Rural de Campo Grande, Alessandro Coelho, ao Jornal Midiamax. 

Do pequeno ao grande, a união que faz a força 

Da mandioca e do alface plantados nas chácaras às quilométricas lavouras de milho e soja a se perder de vista, o agronegócio sul-mato-grossense gera oportunidades e se transforma na máquina que movimenta bilhões de reais anualmente. 

Nos dois lados da balança comercial, pequenos produtores como Davi Bicalho e Roberto Silveira somam esforços aos grandes empresários. Entre eles, o suinocultor Osmar Rodrigues Caires, que há mais de 20 anos sustenta a família e emprega cinco funcionários com os frutos do trabalho rural.

Na propriedade em Dourados, a segunda maior cidade do Estado, a Granja Nossa Senhora Aparecida aloja ao mesmo tempo, 10.580 leitões, que permanecem no processo de engorda por período que varia entre 90 e 100 dias. Todos os anos, a fazenda entrega 3,3 lotes de animais ao frigorífico da Seara, fechando produção de 35 mil cabeças a cada 12 meses.

Anualmente, granja em Dourados entrega 35 mil animais para a indústria. (Foto: Arquivo Pessoal)

Depois de abatidos pela indústria, a dos suínos se transforma em bacon, salame, linguiça, presunto e outros embutidos que abastecem todo o território nacional.

“É uma satisfação muito grande saber que estamos alimentando pessoas de diferentes lugares com o fruto do nosso esforço e trabalho. O agronegócio é o propósito da nossa vida e atender as necessidades dos consumidores é gratificante. Existe o ganho de dinheiro, claro, mas também tem muito amor e carinho envolvidos, inclusive, nós também nos alimentamos e alimentamos nossa família com aquilo que produzimos”, comenta Osmar.

Tecnologia pioneira no Brasil

Para alinhar a criação com a tecnologia disponível no mercado, a granja administrada por Osmar implementou em março de 2021 o manejo de ração líquida para alimentar os leitões, se tornando pioneira no País no modelo que já é sucesso na Europa.

Convertendo ração sólida para a líquida, o negócio economiza até 200 gramas de alimento para cada quilo de carne produzida, uma redução de aproximadamente R$ 300 mil para cada lote armazenado. “O resultado é positivo porque se produz mais gastando menos, pontua. 

Além da ração líquida, o pecuarista afirma que a granja observa requisitos para assegurar o bem estar dos animais. “Temos corrente para o animal brincar e reduzir o stress, controle de temperatura, piso vazado e coxo de inox. São tecnologias para dar mais condições do animal produzir o que se espera quando sai da unidade de genérica. É uma produção maior, com menos custo, e com resultado que todos ganham, desde o produtor até o consumidor que come uma carne de excelente qualidade”, finaliza.

Números confirmam

Números da economia comprovam que a união de pequenos e grandes produtores tem resultado positivo na balança comercial sul-mato-grossense. Conforme dados do VBP (Valor Bruto da Produção Agropecuária), divulgados pelo Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, em 2022 o agronegócio de teve faturamento de R$ 70, bilhões, atingindo 5,9% do ganho brasileiro.

De acordo com o levantamento, as lavouras tiveram maior parcela na soma, com rendimento de R$ 49,2 bilhões e de destaque para a soja, que injetou R$ 24,5 bilhões ao Estado.

Já no setor da pecuária, o rendimento anual foi de R$ 21,7 bilhões, sendo R$ 15,7 bilhões somente do manejo de bovinos, o que representou percentual de 72,6% do valor bruto da pecuária.

Foram destaque ainda entre as mercadorias:

Ano promissor

Para 2023, dados do LSPA/IBGE (Levantamento Sistemático da Produção Agrícola), divulgados em março deste ano, projetam cenário favorável para as lavouras de Mato Grosso do Sul. Conforme o balanço, a previsão é de 70,57 milhões de toneladas plantadas em 6,97 milhões de hectares de terra, uma alta de 10,51% para a colheita e 1,32% para a área plantada.

Em 2023, a soja mais uma vez aparece como destaque da produção, com expectativa de 13,12 milhões de toneladas em uma área de 3.785,50 hectares. No comparativo com o ano anterior, o crescimento será de  53,58% na produção e 3,63% na área plantada.

Já balanco do VBP (Valor Bruto da Produção) volta a deixar Mato Grosso do Sul na sétima colocação no cenário nacional, com estimativa de que a agricultura injete R$ 55,78 bilhões na economia, uma alta de 13,49% frente ao ano de 2022.