Há dois anos, indígenas da aldeia Água Bonita, em Campo Grande, aguardam a construção de 43 casas lançadas pelo Governo do Estado em maio de 2021. Próximo à conclusão das casas, foram surpreendidos com a informação de que teriam que arcar com as despesas de mão de para terminar a obra até o fim de setembro.

Em reunião realizada na comunidade no último domingo (17 de setembro), moradores foram informados pelo presidente da Associação de Moradores da Água Bonita, Audo Romeiro Larreira, de que o prazo final para a conclusão das obras é 28 de setembro e que, se não cumprido, a obra seria embargada e ficaria sem previsão para a entrega.

O presidente ainda disse para os moradores que eles teriam que ajudar com a mão de obra, seja pondo a mão na massa ou pagando funcionários. E assim foi feito, moradores relataram ao Jornal Midiamax que estão tirando do próprio bolso para pagar pedreiros e concluir a obra.

Muitas das casas ainda faltam instalar portas e janelas, forro, piso, pias, tanques, torneiras, vasos sanitários e pintura. “Paguei R$ 600 para o pedreiro terminar aqui”, conta uma moradora ao Jornal Midiamax, ao relatar o sacrifício financeiro, já que trabalha como doméstica e sua renda mensal é de R$ 1.320, um salário mínimo.

Outra moradora, que atualmente mora com os filhos em um barraco de madeira, confirmou que está pagando o sobrinho para concluir a obra de sua futura casa. Em todos os casos, o material para concluir a obra foi disponibilizado aos moradores pela empresa responsável pela construção das 43 casas.

Casas vão substituir barracos (Foto: Henrique Arakaki, Jornal Midiamax)

Líder comunitário assume responsabilidade e afirma que Agehab sabia da decisão

Em entrevista ao Jornal Midiamax, o presidente da Associação de Moradores da Água Bonita, Audo Romeiro Larreira, disse que está inteirado dos prazos da obra e que, se a empresa não concluísse as casas até dia 28 de setembro, teria que arcar com multa e a obra seria embargada.

Ele assume que fez a reunião com os moradores e pediu ajuda na mão de obra para concluir as casas. “Ia precisar de uma nova licitação e nós que seriamos os prejudicados, então conversamos para adiantar o nosso lado. Como sou liderança, eu assumi a responsabilidade”, disse em entrevista ao Jornal Midiamax.

O líder indígena afirma que a (Agência Estadual de Habitação) tem ciência de toda a situação e que entre as dificuldades da empresa está encontrar mão de obra. Audo ainda defende a decisão de pedir ajuda da comunidade para bancar o fim das obras, alegando que sabe das necessidades do seu povo.

“Dentro do mundo de vocês é ilegal, mas no nosso mundo nós precisamos ajudar. No meu pensamento, eu vou ficar vendo meu povo morrendo de frio? Eu preciso levantar e fazer alguma coisa”, diz ele sobre os indígenas que moram em barracos improvisados.

Casas sem forro, portas e pintura (Foto: Henrique Arakaki, Jornal Midiamax)

Empresa tem contrato de R$ 3,3 milhões com o Governo do Estado

Em outubro de 2021, a empresa 3 HF Construção e Empreendimentos assinou contrato com a Agehab no valor de R$ 2,682 milhões para a construção de 43 casas na aldeia Água Bonita, em Campo Grande.
Ao longo de dois anos, o contrato recebeu três aditivos que levaram o valor da obra para os atuais R$ 3,369 milhões. Segundo dados do Portal da Transparência do Governo do Estado, o contrato é válido até 28 de dezembro de 2023.

Em 24 de julho de 2023, a Agehab publicou no Diário Oficial do Estado, portaria nº 127, em que atualiza os gestores e fiscais do contrato com a 3 HF Construção e Empreendimentos. A empresa tem outros dois contratos ativos com o Governo do Estado, que somam mais de R$ 6 milhões.

Agehab diz que entrega das casas está prevista para novembro

Apesar de ainda não terem sido entregues oficialmente, muitos moradores já se mudaram para as novas casas e desmancharam os barracos de madeira onde viviam. Desmanchar as antigas casas é uma obrigação, segundo eles. Em nota ao Jornal Midiamax, a Agehab alega que a previsão de entrega é em novembro de 2023.

As casas não serão doadas aos moradores, que terão de pagar um valor ainda desconhecido por eles. Ao Jornal Midiamax, moradores disseram que ainda não sabem quanto terão de pagar pelas casas e que só saberão quando a obra for entregue.

À Agehab, o Jornal Midiamax questionou se o Governo do Estado tem ciência de que os moradores estão arcando financeiramente com a mão de obra para finalizar a obra e se a situação é legal. Em nota, a Agehab não respondeu aos questionamentos.

Disse apenas que “não entregou nenhuma moradia, porém, algumas famílias considerando a precariedade dos locais em que residiam e sem autorização da Agehab, ocuparam as residências. A Agehab tomou conhecimento na semana passada, fez a fiscalização, a vistoria dos itens pendentes e as famílias assinaram um termo de recebimento provisório tendo em vista que os barracos haviam sido demolidos. Cabe destacar que nenhuma família foi orientada pela Agehab para comprar materias“.

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