Com presença de três biomas, Mato Grosso do Sul é um celeiro de diversidade na fauna. Por isso mesmo, o Estado também é “parque de diversões” para veterinários que preferem cuidar de bichos fora do convencional, os animais exóticos e silvestres. Para esses profissionais, a fofura é encontrada justamente em animais diferentões – desde uma jiboia, passando por onças e até por um pequeno ouriço.

Diferente dos petshops abundantes, que tratam dos animais domésticos mais comuns, como cães e gatos, o número de estabelecimentos para animais exóticos e silvestres é menor. Mesmo assim, a veterinária especializada nesses pets ganhou um “boom” recentemente, com ampliações de clínicas privadas.

A curiosidade no tratamento de exóticos ou silvestres atrai muito mais os veterinários jovens, como Mariana Ramos Santos, de 26 anos. Ela conta que, quando se formou, poucas pessoas tinham interesse na área de animais desse gênero. Entretanto, ela pontua que os novos formandos têm mudado, despertando atualizações e curiosidade no segmento.

“Existem várias diferenças [entre os animais exóticos e domésticos comuns], desde a anatomia, manejo ambiental, nutricional e a fisiologia de cada espécie. Valor não difere do atendimento dos animais domésticos, sendo disponibilizados atendimento a domicílio e na clínica veterinária. De todos [que atendi], acho que o mais exótico foi o hedgehog, o ouriço pigmeu africano”, detalha.

Santos defende que esses profissionais precisam de qualificação, devido a peculiaridades mencionadas. “Durante a minha graduação, fiz o meu de conclusão de curso no CRAS (Centro de Reabilitação de Animais Silvestres), em , e tive oportunidade de ter contato com diversas espécies, cada uma com sua particularidade”, acrescenta.

“De todos, o que mais me marcou foi acompanhar o Joujou, uma onça-pintada que veio das queimadas do para tratamento. Que animal esplêndido, nunca vou me esquecer desse contato”, diz.

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Veterinária Mariana conta atendimentos marcantes (Arquivo Pessoal)

O que é um animal exótico e silvestre?

De forma geral, há muita desinformação acerca de alguns animais exóticos, a ponto da maioria sequer saber distingui-los. Por exemplo: sabia que a calopsita – uma das aves mais comuns nos lares – é uma ave exótica? Mesmo que tenha venda em grande quantidade no Estado, o senso comum sobre essa espécie é equivocado – clínicas especializadas, por exemplo, recebem pacientes com a alimentação errada, corte de asas e até com crescimento irregular do bico.

Os veterinários Douglas Perx Nunes e Pedro Semensato abriram, ainda em fevereiro deste ano, a própria clínica, em duas unidades para atendimento que vai da cirurgia ao atendimento de rotina. Especializado nessa área há cinco anos, Douglas defende que o desafio de quem trata animais silvestres é a conscientização cultural de alguns tutores.

“É comum em Campo Grande, com tanta diversidade de animais, que as pessoas tenham esses bichinhos diferentes em casa, muitas vezes, de forma ilegal, por questões culturais. Por esse fator, interessei-me mais. Desde a faculdade, entrei em projetos de conservação. Infelizmente, animais eram vendidos sem documentação, já que antigamente não tinha uma fiscalização em petshops. Tenho bastante paciente que não é legalizado, mas, por questões éticas, atendemos. Não há um questionamento com o tutor do que é errado ou não, alguns nem sabem [que é ilegal]”.

Na lista de pacientes, os mais comuns no consultório são: calopsita, periquitos-australianos, hamster, cobras, coelhos e peixes. Douglas exemplifica os papagaios, que dão entrada na clínica com alterações fisiológicas pelo cuidado em casa longe do habitat.

“Os animais não convencionais precisam ser legalizados junto ao Ibama, precisam ser aqueles que o órgão aceita como de estimação”, alerta.

O veterinário também reforça a importância da especialização dos profissionais. “As pessoas acham que qualquer profissional atende, mas existe uma grande diferença no manejo. Se já existe entre um cão e gato, imagine em um hamster”, explica. “Cerca de 90% dos nossos pacientes vêm por manejo errado”.

Ele dá como exemplo os exames e as posologias. “[No hamster], a distância deve ser maior durante uma radiografia. A medicação precisa ter dosagem exata”.

Segundo ele, o animal exótico mais comum é o papagaio-verdadeiro. “Falamos que é criação de vó, porque acham que ele come café com leite, biscoito, pão… E acham que a semente de girassol é a principal alimentação. Quando ele chega aqui, a fisiologia está toda desregulada”.

Abandono

A consequência pelo manejo errado e da falta de atendimento clínico para silvestres e exóticos acaba em abandono, muitos no CRAS (Centro de Reabilitação de Animais Silvestres) de Campo Grande.

“Infelizmente, recebemos animais, o famoso desapego, ou seja, pessoas que têm réptil, aves, às vezes, por desconhecimento, ou animal vítima de fauna, quando animal fica doente. Ela traz até o CRAS na tratativa do animal ser atendido. Algumas vezes, acontece de trazer pelo fato de não querer mais ou o animal, não ser compatível com as despesas ou ao menos não encontrar atendimento clínico”, detalha o veterinário do Lucas Cazati, responsável técnico do CRAS.

Há 10 anos atuando na área, o especialista não ingressou visando à carreira para manejo de silvestres. A especialidade surgiu no início, quando foi contratado para atuar no Zoológico de São Paulo. Aos poucos, ele “entendeu a missão”. Atualmente, leciona ciências veterinárias para ampliar o conhecimento desse setor.

“Acredito que na minha carreira de médico veterinário, tenho duas conquistas: a primeira é saber que estou contribuindo para o equilíbrio da fauna e saber que meus filhos, que são crianças, vão olhar para algumas espécies, como a onça-pintada, parda ou outra espécie e saber que o pai delas trabalhou para o equilíbrio dessa fauna, para a coexistência desses animais”, detalha.

A segunda, que guarda com muito carinho, é de ser professor, de lecionar e ser pesquisador. “Isso me traz muita satisfação em saber que consigo replicar a ciência, o que eu aprendi e o que aprendo todos os dias para centenas de pessoas”, conclui.

Veterinário Lucas (Arquivo pessoal)