Dos chinelos das pessoas em situação de rua que aguardavam atendimento na fila ao salto alto das autoridades para a cerimônia de abertura, o 1º Pop Rua Jud , esteve movimentado na manhã desta segunda-feira (06), no Veraneio, em .

O evento é um mutirão de serviços públicos, que vão desde assistência jurídica à saúde, para a população em geral ou que vive em situação de rua em Campo Grande.

Os atendimentos acontecem entre esta segunda e a próxima quarta-feira (08), das 9h às 17h, na UAIFA I (Unidade de Acolhimento Institucional para Adultos e Famílias), antigo Cetremi.

O primeiro a chegar na fila foi o instrutor de ginástica brasileira e capoeirista, Carlos Peres, de 65 anos. Ele saiu do bairro Aero Rancho, às 05h, para buscar ajuda com a aposentadoria.

“Está difícil conseguir pelo INSS, a gente vai para um lado, vai pro outro. Aqui já tem tudo”, ele afirma.

O grupo de interessados em novas emissões de documentos é grande. Pedro Henrique, de 28 anos, precisa fazer RG, CPF e a emissão do certificado de reservista, documentos que perdeu há muito tempo e que hoje são necessários para dar entrada no benefício do BPC/LOAS (Benefício Assistencial à Pessoa com Deficiência) depois que rompeu os nervos da mão.

Morador do bairro Noroeste, o catador de latinhas conta que até já chegou a ir ao INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), porém sem sucesso já que precisava dos documentos para dar entrada na solicitação do benefício.

“Me falaram sobre essa ação aqui pelo CRAS. Eu quero o LOAS porque rompi os nervos da mão há dois meses”, relata.

No caso da dona do lar, Marileia da Silva, de 47 anos, a falta do RG a impediu de abrir conta no banco. “Me atrapalha em tudo ficar sem documento. Eles sempre pedem por aí”, ela garante.

Pedro Henrique quer solicitar BPC/LOAS. (Foto: Nathalia Alcântara/Jornal Midiamax)

Anderson Martins da Silva, de 38 anos, vive na condição de pessoa em situação de rua há cerca de dez anos e nesta segunda estava na fila 1º Pop Rua Jud Pantanal para buscar novo RG, CPF, carteira de trabalho e reservista.

Está acolhido no UAIFA I há quatro dias e conta que a última vez em que teve a carteira assinada foi há cerca de quatro meses em uma carvoaria em na função de boca de forno. “Na última vez o cara me registrou só com o número do NIS”, ele explica sobre a falta da carteira de trabalho.

O homem conta que vive entre idas e vindas entre a rua e unidades de acolhimento, mas que deseja encontrar um emprego. “A gente precisa se cuidar porque se vai para a rua acaba não se cuidando e largando o trabalho”, explica.

Imigrantes

O mutirão realizado em parceria de instituições do poder judiciário, federal, estadual e municipal é voltado para estrangeiros que precisam de assistência.

Na fila 1º Pop Rua Jud Pantanal, com parte das posicionadas na sombra de uma árvore para fugir do calor e sol logo cedo enquanto aguardam o atendimento nas tendas, o sotaque espanhol se destaca entre as conversas.

Três amigos venezuelanos buscam novos documentos com objetivos diferentes. O trio está há quatro dias acolhidos na UAIFA I.

Da esquerda para direita, Caroline, Nadia e Arboro. (Foto: Nathalia Alcântara/Jornal Midiamax)

Caroline saiu da terra natal sozinha há um ano e hoje em Campo Grande, depois de ser roubada, quer novos documentos para trabalhar e solicitar benefícios.

Já o casal Nadia e Arboro saíram juntos da Venezuela há nove meses como refugiados. Passaram por Chapecó (SC), Cascavel (PR), Dourados e agora em Campo Grande querem renovar a documentação para voltarem legalmente ao país vizinho devido a problemas familiares.

“A inflação na Venezuela está muito alta. A gente consegue serviço, mas se você compra um sapato, já não tem dinheiro para comer”, explica Nadia sobre o que motivou a vir para o Brasil.

Mutirão é fruto de parcerias entre várias entidades

O primeiro Pop Rua Jud Pantanal é organizado pelo Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3) e a Seção Judiciária do Mato Grosso do Sul (SJMS).

São mais de 20 instituições parceiras que prestam serviços de saúde, assistência social, cidadania e orientações jurídicas e profissionais à população em situação de vulnerabilidade.

No local, a população poderá emitir documentos, como certidões, Cadastro de Pessoa Física (CPF), Registro Geral (RG) e inscrição e regularização da situação eleitoral; solucionar questões previdenciárias; solicitar benefícios assistenciais e previdenciários ao Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) e, se necessário, ajuizar ações na Justiça Federal.

Serão disponibilizados também cursos profissionalizantes, alimentação, assistência e orientações psicológicas aos cidadãos.

Prefeita Adriane Lopes conversou com população que aguardava atendimento. (Foto: Nathalia Alcântara/Jornal Midiamax)

De acordo com juíza federal e a diretora do Foro da SJMS, Monique Marchioli Leite, a primeira edição é fruto de uma ideia que começou em 2022 e foi sendo trabalhada com os órgãos parceiros até esta semana.

“Por exemplo, se a pessoa tem necessidade de um benefício previdenciário o INSS já está aqui e tem os juízes federais que já estarão aqui para analisar a concessão dos benefícios e o benefício pode ser concedido no mesmo dia. Entre a tramitação do início da ação até o final, a gente pode gastar até duas horas. Vão ser realizadas perícias médicas, assistência médica, consultório de rua, testagem rápida, tudo isso que a população de rua necessita a gente tá colocando a disposição”, explica a juíza federal.

De acordo com a Prefeita Adriane Lopes (Patriota), o mutirão é uma ação que se junta aos outros serviços já prestados pela prefeitura.

“Aqui na UAIFA I, onde também temos o acolhimento, estamos apresentando para Campo Grande esse trabalho que é prestado pela Secretaria de Assistência Social que é um trabalho integrado entre vários poderes e ações, nós temos aqui uma rede de apoio para essas pessoas em vulnerabilidade. Essa rede de apoio traz o quê? A sustentação através da realização da documentação, eles poderão ser encaminhados para o mercado de trabalho, um benefício do governo federal, então ações integradas trazem dignidade para essas pessoas”, afirma a chefe do executivo municipal.

Além disso, Adriane Lopes pontua que a Capital possui uma rede de apoio para os estrangeiros, até para os que não falam português.

Carlos Peres foi o primeiro a chegar na fila. (Foto: Nathalia Alcântara/Jornal Midiamax)

“O município tem um abrigo que acolhe os estrangeiros e quando ele não fala o português, eles são encaminhados. Em parceria com a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, eles têm aulas de português de graça. Eles também são encaminhados para a onde faz a triagem para ser encaminhado para o mercado de trabalho”, ela explica.

A cerimônia de abertura do evento contou com a presença de diversas autoridades, como a prefeita Adriane Lopes (Patriota), a procuradora-geral do Estado, Ana Carolina Ali Garcia, como representante do governador Eduardo Riedel, o deputado estadual (Patriota) como representante da Alems (Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso do Sul) e o vereador Paulo Lands (Patriota), representando a Câmara Municipal.

Serviço

Data: 6 a 8 de março  

Horário: das 9h às 17h  

Local: Unidade de Acolhimento Institucional para Adultos e Famílias (UAIFA I) de Campo Grande/MS. Rua Jornalista Marcos Fernandes Hugo Rodrigues, S/N – Jardim Veraneio.