‘Ninguém esperava isso’, diz jovem sobre morte de indígena após ação da PM em Amambai

Após a morte de Vitor Fernandes, indígenas velam o corpo e temem presença policial
| 26/06/2022
- 10:34
morte vitor fernandes amambai
Vitor Fernandes é velado neste domingo (26) na Aldeia Amambai. Foto: Reprodução | Redes Sociais | Aty Guasu.

“A gente não esperava que isso ia acontecer, ninguém esperava isso”, lamenta uma jovem Guarani Kaiowá de Amambai, após ação da PM (Polícia Militar) que resultou na morte de um indígena. Vitor Fernandes, de 42 anos, foi morto na última sexta-feira (24) durante retomada de terra no município, a 352 quilômetros de Campo Grande.

O conflito que deixou um morto e 10 feridos — entre indígenas e policiais — teve ação do Batalhão de Choque da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul. “Achamos que eles iriam conversar, ter um diálogo, mas foi diferente”, relata a jovem de 24 anos, que preferiu não se identificar.

Sobre Vitor, a jovem lembra que ele era conhecido por ser do movimento da retomada. “Eu conhecia ele de longe”, diz. Mesmo assim, a morte influencia diretamente na vida da mulher, que também participa da retomada de Guapoy.

Neste domingo (26), o corpo de Vitor é velado entre familiares e participantes da retomada. No momento delicado e de perda, a jovem desabafa que os indígenas ainda estão apreensivos com a presença policial na região de retomada.

“Eles ainda têm medo de serem atacados, porque as polícias estão circulando ainda e estamos aguardando o Ministério Público”, relata. Ainda não há previsão de novas movimentações Guarani Kaiowá na área de retomada, pois ‘estão todos no velório’.

O povo originário está se articulando primeiro para novas ações. “No momento eles não tem apoio, estão sozinhos ali e eles não tem pra quem pedir ajuda”, explica a jovem. Em 23 de junho houveram as primeiras movimentações para retomada da área indígena, na Fazenda Borda da Mata, ofício foi encaminhado para a Funai (Fundação Nacional do Índio), MPF (Ministério Público) e Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Pública). No pedido, foi reforçada a situação de conflito interno na aldeia.

Segundo a mulher, “nesse momento está muito difícil para eles, mas eles pretendem voltar para a retomada".

Vídeo da morte

Um vídeo que circula em redes sociais mostra o que supostamente seria o momento da morte do indígena Vitor Fernandes, durante conflito entre indígenas e policiais do Batalhão de Choque da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul, na última sexta-feira (24).

O vídeo foi gravado por uma pessoa que estava no local e garante que não há edições nas imagens. Por se tratar de cenas fortes e de morte, o Jornal Midiamax editou as imagens com efeito para ‘embaçar’ o vídeo e as cenas serão apenas descritas aos leitores.

Em uma plantação, de um lado estão alguns indígenas gravando a ação e um deles está armado com um arco e flecha. Do outro, um grupo de policiais militares portam armas de fogo de grosso calibre. É possível ver uma pessoa caída no chão, e que tenta se levantar. Em seguida, são ouvidos barulhos que seriam tiros.

Segundo os indígenas, o vídeo seria do momento em que Fernandes é atingido por tiros disparados pelo Batalhão de Choque PM, que está sendo chamado de execução. As imagens foram divulgadas com o título: Indígenas filmam momento da execução no MS.

Outro lado

O Jornal Midiamax entrou em contato com os órgãos oficiais de segurança na manhã deste domingo para falar sobre as imagens que mostram a possível execução. O secretário Antônio Carlos Videira, titular da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública) e a assessoria da Polícia Militar não atenderam as ligações. O espaço permanece aberto para manifestações dos órgãos oficiais de segurança de Mato Grosso do Sul.

A ação do Batalhão de Choque da Polícia Militar aconteceu após indígenas da etnia Guarani e Kaiowá retomarem uma parte do território de Guapoy, em Amambai. Os militares foram enviados à região e houve conflito. Pelo menos nove indígenas ficaram feridos e um acabou morrendo. Além da morte de Vitor, outras 10 pessoas ficaram feridas, entre elas três policiais militares tiveram ferimentos e foram atendidos no hospital da cidade.

Tragédia anunciada

Desde o dia 19 de junho, a aldeia indígena de Amambai, cidade a 352 quilômetros de Campo Grande, pedia apoio para providências na área de retomada, por questões de conflitos internos. Os problemas antecederam a invasão a uma propriedade rural no dia 23 deste mês e conflito com policiais militares, que resultou na morte do indígena. 

Já no dia 23, marco das primeiras movimentações na Fazenda Borda da Mata, ofício foi encaminhado para a Funai (Fundação Nacional do Índio), MPF (Ministério Público) e Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública). No pedido, foi reforçada a situação de conflito interno na aldeia.

Reações ao conflito

Após a morte, a Aty Guasu – Grande Assembleia dos povos Guarani e Kaiowá – publicou carta em que expressa revolta e indignação com a ação da Polícia Militar e do governo de Mato Grosso do Sul, que terminou com a morte de um indígena da etnia Guarani Kaiowá, no território Guapoy, em Amambai, região sul de Mato Grosso do Sul. “Foram atacadas crianças, jovens, idosos, famílias que decidiram, depois de muito esperar sem alcançar seu direito, retomar um território que sempre foi deles e que foi roubado no passado de nosso povo”, destaca a carta da Aty Guasu.

Oficialmente, um boletim de ocorrência de homicídio decorrente da intervenção policial foi  registrado na Delegacia de de Amambai, conforme relatado pelo prefeito Edinaldo Bandeira (PSDB).

Já o governo do Estado, falou sobre a ação por meio do secretário Antônio Carlos Videira, titular da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública), em coletiva ainda na sexta-feira. 

secretário afirmou que entre os indígenas também haveria estrangeiros, possivelmente paraguaios e que eles estariam vindo do país vizinho cooptar indígenas como mão de obra para a colheita de maconha. O secretário ainda disse não se tratar de um caso de reintegração de posse, mas sim ação de combate aos crimes contra patrimônio e também contra a vida, isso porque na ocupação também teriam ocorrido ameaças e furtos.

O Cimi (Conselho Indigenista Missionário), que é ligado a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), relatou em nota que “A ação de despejo, sem mandado judicial e realizada por um grande contingente de policiais da tropa de choque da PM (Polícia Militar) de Amambai, resultou no assassinato de Vitor, indígena Guarani Kaiowá de 42 anos, e deixou pelo menos outros nove feridos por armas de fogo e projéteis de borracha, alguns com gravidade.”

Ainda segundo a nota, a ação teria sido truculenta com policiais usando armas letais e não letais, e ainda com uso de helicóptero, atirando contra crianças e idosos. A ação teria sido ilegal.

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