Mapa da pobreza: MS tem mais de 1,2 milhão de pessoas vivendo com menos de um salário mínimo

Com 2,6 milhões de habitantes, quase metade da população vive em situação de pobreza, aponta Mapa
| 23/07/2022
- 09:15
Mapa da pobreza: MS tem mais de 1,2 milhão de pessoas vivendo com menos de um salário mínimo
(Foto: Henrique Arakaki)

Mato Grosso do Sul tem mais de 1.240 milhão de pessoas em situação de pobreza. Atualmente, quase metade da população do Estado é considerada de baixa renda e necessita do auxílio de programas sociais para sobreviver. A situação fica ainda mais crítica quando olhamos para os municípios do interior, que chegam a ter 70% de seus moradores nesta situação.

Dados de inscritos no Cadastro Único do Governo Federal, fornecidos pelo Ministério da Cidadania, mostram a escalada da pobreza em Mato Grosso do Sul. Em setembro de 2017, eram 1.039 milhão inscritos no cadastro. Menos de cinco anos depois, o número cresceu 19,3%.

A alta nos preços de itens básicos como alimentação, energia elétrica e combustíveis aliado ao aumento do desemprego desde o início da pandemia de Covid-19, em 2020, agravaram drasticamente o cenário. Em um ano e meio, mais de 200 mil pessoas foram inseridas no CadÚnico.

Em novembro de 2020 o total de pessoas de Mato Grosso do Sul inscritas no CadÚnico era de 1.038 milhão. Desde então o gráfico vem em uma escalada crescente, chegando a 1.240 milhão em abril de 2022, último dado disponível pelo Ministério da Cidadania. A data coincide com o fim do pagamento do Auxílio Emergência pelo Governo Federal.

O CadÚnico inclui aqueles que ganham até meio salário mínimo por pessoa (R$ 606) ou até 3 salários mínimos de renda mensal total familiar (R$ 3.636).

Desigualdade social alarmante

Os municípios de Japorã e Coronel Sapucaia se destacam no mapa da pobreza de Mato Grosso do Sul, sendo que ambos têm atualmente mais de 70% da sua população em situação de pobreza. Das 79 cidades do Estado, 36 delas têm mais de 50% da população inscrita no CadÚnico, ou seja, em situação de pobreza.

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MS teve a menor colheita dos últimos cinco anos. Foto: Divulgação

Atualmente, apenas três municípios contam com menos de 30% da população em situação de pobreza, sendo eles Itaporã, Sonora e Maracaju. Em comum, as três cidades tem o agronegócio como principal atividade econômica. Itaporã e Maracaju inclusive estão entre as 100 cidades mais ricas do Brasil, de acordo com o Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento).

Mas não são só elas. Outras oito11 cidades de Mato Grosso do Sul foram listadas pelo Mapa no início de 2022, como as mais ricas do país, consideram a produção agrícola. Ponta Porã, Sidrolândia, Dourados, Rio Brilhante, Caarapó, Costa Rica, Aral Moreira, Chapadão do Sul, Nova Alvorada do Sul, Naviraí e Laguna Caarapã.

Apesar de algumas melhores posicionadas no mapa da pobreza, Costa Rica, Água Clara e Aral Moreira têm mais de 50% da população em situação de pobreza atualmente.

Inflação que afeta os mais pobres

Pesquisador da UFMS, Wesley Osvaldo Pradella Rodrigues é Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional e destaca que vários fatores contribuíram, sobretudo a partir de 2020, para o aumento da pobreza em todo o país. Um dos principais é o aumento de 21,3% na inflação brasileira, entre janeiro de 2020 e junho de 2022.

“A inflação impactou diretamente no de itens básicos como alimentos, bebidas e habitação, que compõe grande parte do orçamento das famílias mais pobres. E o grande problema é que quanto mais a renda fica comprometida com itens básicos, menor o poder de compra das famílias. Na prática, significa que elas precisam trabalham apenas para sobreviver”, explica Wesley.

O pesquisador destaca ainda que a inflação não impacta da mesma forma famílias de classe média, por exemplo, visto que nessa faixa salarial o gasto com itens básicos compromete uma parcela menor da renda mensal. “Inflação é um imposto para pobres, por que quando sobe ela onera diretamente essas famílias de renda mais baixa e não as de classe média e alta”, diz.

Apesar de Mato Grosso do Sul se destacar nacionalmente na produção do agronegócio, o progresso da cadeia não chega até a população mais pobre. “A desigualdade reduz quando se oferece emprego e alternativas de renda e o agronegócio não é um setor que contribua para isso. O agronegócio é uma atividade concentradora de riqueza e não um agente redutor da desigualdade. O setor caminha para ser cada vez mais automatizado, contratando cada vez menos e mão de obra mais básica”, destaca o pesquisador.

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Famílias em situação de pobreza aumentaram em todas as cidades do Estado. (Foto: Marcos Ermínio / Midiamax)

Agronegócio prioriza o mercado externo

Exportar seus produtos é hoje uma prioridade do agronegócio, visto a conjuntura de preços favoráveis no mercado externo, o que impacta para que todo os setor seja movido pela taxa de câmbio do dólar. Economista do Sindicato Rural de Campo Grande, Staney Barbosa Melo explica que, por um lado esse fator atenuando os impactos negativos da conjuntura interna, mas por outro, gera consequência para o mercado interno, como os preços mais elevados dos alimentos.

“Custa caro para o produtor brasileiro importar sementes, adubos, maquinários e outros insumos para a sua produção, necessitando barganhar com os demais elos por aumento de preço para obter alguma margem. Parte dessa produção é destinada ao mercado externo, que paga preços mais competitivos. Então essa questão dos custos nos ajuda a entender esse paradoxo dos alimentos com preços elevados”, explica o economista.

Porém, setores com forte demanda interna são impactados pelo aumento da pobreza. “Pegando como exemplo o setor de carnes, podemos dizer que o mercado interno representa 70% da demanda do setor, enquanto as exportações respondem por apenas 30%, a maior parte da deste segmento advém da demanda no mercado interno que encontra um desequilíbrio entre os salários e os custos dos alimentos”, afirma.

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