“Sempre tem alguém lá em cima armado, olhando para os nossos lotes. A gente se sente como se estivesse em um monitoramento coletivo, como se fosse gado no meio do pasto. De lá, eles vigiam os nossos passos”, contou um dos moradores da retomada Aratikuty, onde mora o candidato a governador de Mato Grosso do Sul, Magno de Souza (PCO). No Debate Midiamax da última segunda-feira (19), o indígena denunciou que ‘jagunços’ usam as caixas d’água da Sanesul para fazer vigia armada ao local.

A reportagem do Jornal Midiamax esteve na área nesta quarta-feira (21) e ouviu relatos de moradores e lideranças indígenas, de que as pressões e intimidações contra os moradores se arrastam há mais de dois anos e estão se intensificando. Segundo eles, os seguranças privados contratados pelos fazendeiros que disputam a posse da terra, passaram a utilizar as caixas d’águas como se fosse um observatório.

“[…] Quero fazer uma denúncia de que os jagunços, seguranças privados, atiradores de elite estão perseguindo muitos indígenas, estão subindo numa caixa d’água da Sanesul, eles não têm direito de subir ali. Inclusive estou denunciando para o Ministério Público e estou denunciando também para o governador. Resolvam esse problema aí, antes que morram indígenas. Depois falam que indígenas que estão armados até os dentes lá”, denunciou o candidato no Debate Midiamax.

Segundo essa mesma fonte, os indígenas estão cada vez mais assustados. “Temos imagens recentes desses monitoramentos. Na última segunda-feira (19) vimos jagunços lá. Até quando isso vai continuar acontecendo?”, questiona o morador. Segundo ele, esses casos já foram relatados às autoridades.

Área é composta por acampamentos (Foto: Marcos Morandi, Midiamax)

Mais de 300 famílias

A Aratikuty não é a única área ‘vigiada’ pelos seguranças privados. Na região, que fica nas proximidades da Perimetral Norte, via que dá acesso a Dourados, Itaporã, Ponta Porã e Campo Grande, de onde se avistam os reservatórios, existem mais 6 acampamentos indígenas.

Eles foram batizados como Ñu Verá, Ñu Verá Guassu, Ñu Verá 1 e 2 e Awaeté 1 e 2.

“Aqui, vivem mais de 300 famílias que estão constantemente ameaçadas. Algumas delas já tiveram seus barracos incendiados pelos seguranças dos fazendeiros. Ninguém sabe o que vai acontecer, nem quando anoitece, nem quando amanhece”, relata outra liderança da Ñu Verá, retomada onde aconteceu troca de tiros entre ‘jagunços’ e indígenas em janeiro de 2020 e que deixou quatro pessoas feridas.

A reportagem do Jornal Midiamax entrou em contato com o Sindicato Rural de Dourados para falar das denúncias sobre as ações de seguranças privados que estariam a serviço de fazendeiros.

Por meio da assessoria de comunicação, o presidente da entidade, Ângelo César Ajala Ximenes, disse desconhecer que isso esteja acontecendo e que não foi procurado por nenhum dos associados, portanto não poderia se manifestar.

A Sanesul (Empresa de Saneamento de Mato Grosso do Sul) explicou que os reservatórios, com capacidade para armazenar 3 milhões de litros de água, ainda estão em fase de construção e não foram liberados pela construtora responsável. “Tão logo ficamos sabendo da denúncia, acionamos a construtora para que o local fosse isolado”, disse o diretor regional da empresa em Dourados, Madson Valente.

Mais de 300 famílias indígenas vivem em lotes espalhados na área de litígio (Foto: Marcos Morandi, Midiamax)

Tensão e violência

Na época, logo após os conflitos, representantes do CNDH (Conselho Nacional de Direitos Humanos) e de outras entidades estiveram na Reserva Federal de Dourados para vistoriar violação de direitos humanos contra populações indígenas.

A visita foi motivada por denúncias que envolveram prisões arbitrárias e ações violentas por parte de agentes de segurança privada contratada por fazendeiros que estão em litígio contra os indígenas.

O senador Fabiano Contarato (Rede-ES), que é membro da Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas e também do CNDH, integrou a comissão de vistoria à comunidade Ñu Verá em Dourados.

Diante da gravidade da situação, a DPU (Defensoria Pública da União) em Mato Grosso do Sul pediu o envio de tropas da Força Nacional para acompanhar a área que envolve conflitos envolvendo indígenas e produtores rurais.