Cotidiano

Adia ou mantém? Professores opinam sobre desafios do Enem durante pandemia

A manutenção do calendário do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), mesmo diante de uma pandemia de coronavírus e com os alunos estudando em casa, tem gerado controvérsia. Até mesmo os servidores do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) se juntaram para pedir a revisão do calendário, que pode prejudicar principalmente […]

Mylena Rocha Publicado em 15/05/2020, às 15h31 - Atualizado às 16h36

(Foto: Ilustrativa/ Arquivo)
(Foto: Ilustrativa/ Arquivo) - (Foto: Ilustrativa/ Arquivo)

A manutenção do calendário do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), mesmo diante de uma pandemia de coronavírus e com os alunos estudando em casa, tem gerado controvérsia. Até mesmo os servidores do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) se juntaram para pedir a revisão do calendário, que pode prejudicar principalmente os alunos de escolas públicas. Professores que dão aulas para vestibulandos opinam sobre o assunto. 

A professora Daiane Nascimento de Souza Lucietto dá aulas de Biologia em um cursinho particular e afirma que o impacto será maior para os alunos que não têm recursos tecnológicos, como um celular, tablet ou computador. Sem falar no acesso à internet. 

“Atinge negativamente principalmente alguns alunos de escolas públicas. As escolas particulares estão fornecendo todo apoio dos professores e aulas bem elaboradas conforme no ensino presencial, pois estão focadas nas aprovações dos alunos”, diz.

Os alunos de cursinhos e escolas particulares levam vantagem, já que o ensino online oferecido consegue corresponder às aulas que eram dadas presencialmente. A professora explica que o retorno dos alunos tem sido positivo com relação às aulas à distância. 

Já o professor especialista em matemática e raciocínio lógico, Alexandre Araújo, relata que o cenário não é novo apenas para os alunos, mas para o professor também; muitos não tinham interação com a tecnologia ou uma especialização para dar aula virtualmente por falta de recurso, e precisaram se adequar.

“A aula online para mim não é a mesma coisa que uma aula presencial, o contato com o aluno. No online, o professor dá aula para uma câmera. Acredito que os alunos possam ter dificuldades neste Enem; o índice de acertos, redação, notas será mais baixo, porque por mais que os professores façam de tudo, a melhor aula online, não é a mesma coisa de um presencial. Aplicar uma prova agora é completamente vago, pois o aluno não foi preparado como nos exames anteriores, ele tentou se preparar sozinho, a interatividade entre escolas é minoria. Some as escolas particulares que vão enfrentar o Enem com os alunos das escolas públicas, qual é a maioria?”, lamenta.

Ainda segundo o professor, outro fator que pode prejudicar o aluno é a realidade de escolas públicas que não tem estrutura adequada para uma prova, principalmente em um período de pandemia.

“Se acontecer presencialmente, escolas públicas não têm estrutura, muitas unidades não tem nem ventilador, ou seja, os vestibulandos têm grande risco de infecção. Quando o Enem foi criado a intenção era de ajudar aqueles que não tinham condições de ingressar numa universidade. Se for aplicada hoje, vai beneficiar uma minoria, se aplicada a prova não terá o mesmo intuito, será aplicar só por aplicar”.

O professor de português, Valério Thomás, explica que muitos vestibulandos estão lidando com o excesso de conteúdo das escolas e se preparando para o exame nacional. Ele acredita que a pressão pode desencadear frustrações futuras.

“O Brasil é um país de muita desigualdade e agora a geração jovem ou aqueles que não enxergavam estão vendo; o coronavírus expõe a grande desigualdade na educação. Aluno de escolas públicas não tem a mesma educação de um aluno que além de estar em uma escola particular faz cursinho preparatório. O aluno que está focado, lendo e estudando muito, em situações normais, já fica pressionado. Os que podem ter acesso a psicólogas podem aliviar a tensão, mas e aquele que não tem nem acesso a internet?”, ressalta.

A Professora Franciele Leite, conta que é docente há 42 anos e percebe que a tecnologia é a grande aliada da maior parte do público que presta vestibular. Ainda segundo ela, na Capital, vários alunos já estão sendo afetados pela suspensão das aulas; sem acesso a biblioteca das escolas, o aluno mais pobre não tem repertório de estudo ampliado.

“É muito difícil um aluno estudar apenas com livros impressos. Infelizmente nem todo mundo tem acesso a internet, por exemplo, no caso de Campo Grande, alunos de bairros mais pobres não tem internet fixa, tem internet de um plano pré pago de uma operadora de celular, não tem computador, tablet ou meio mais tecnológico, e o principal, não tem acompanhamento de um professor”, finaliza.

Deputado pede adiamento do Enem

Nesta semana, o deputado estadual Pedro Kemp (PT) protocolou indicação na Alems (Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul), pedindo o adiamento das provas do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). O exame está previsto para 1º e 8 de novembro e 22 e 29 de novembro. 

Segundo a justificativa da indicação, muitos futuros participantes do Enem estão sendo prejudicados, uma vez que fatores como a falta de aulas presenciais, a instabilidade, despreparo e desorganização da metodologia por EAD, ferem o aprendizado e a preparação do aluno vestibulando.

Mesmo o Enem sendo uma competição, como dito pelo Ministro, todos os estudantes merecem ter igualdade de ensino e preparação para realizar a prova. “Por isso, pedimos o adiamento, a mudança de data do Enem 2020, visando sanar o problema de milhares de alunos afetados”.

Jornal Midiamax