Sem perspectiva

Um dos cinco livros que levaram nas malas é O Conto da Ilha Desconhecida, do português José Saramago. “Quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou quando nela estiver. Não o sabes. Se não sais de ti, não chegas a saber quem és”, diz um trecho da obra.

PERFIS. Consultora especializada em imigração, a advogada Isabel Nardon diz que a reabertura de fronteiras causada pelo avanço da vacinação (agora abalada com a variante Ômicron, mais contagiosa) elevou a procura para Portugal. Segundo ela, o perfil dos que miram a residência lusa é de pessoas com poder aquisitivo: investidores e aposentados que têm como comprovar renda no Brasil, mas temem pelo futuro aqui.

A debandada aparece também no movimento de remessas financeiras. Só na corretora de câmbio B&T, que tem mais de 200 pontos e atua em mais de 180 países, dados apontam aumento da movimentação no exterior. Conforme registros da B&T até outubro, o volume de operações de transferências de moeda de Portugal para o Brasil, por exemplo, mais do que quadruplicou em 2021 ante o ano anterior.

Em alguns casos, facilidades expostas na pandemia também ajudam na mobilidade. Gustavo Da Broi, de 27 anos, chegou a Lisboa em outubro, para fazer mestrado em Direito Bancário e Securitário, com prazo de dois anos. “Estudo e trabalho daqui para o escritório”, conta ele, em referência ao escritório de advocacia onde atua, em Porto Alegre.

No caso do jovem, a cidadania ajudou na mudança e a adaptação foi tranquila. O clima de segurança e a qualidade dos serviços de transporte são apontados como diferenciais. “Como gaúcho, só sinto falta é do churrasco”, brinca Da Broi.

Professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) que estuda migrações, Ana Maria Carneiro vê dois perfis principais. “Se a pessoa vai trabalhar numa entidade, numa universidade, se é empreendedora ou exportadora e se faz parceria de pesquisa, com certeza estará com a situação regularizada”, diz. “Por outro lado, pode ter gente qualificada, com graduação, que na literatura é considerada um talento, mas que estaria migrando de forma ilegal e vai atuar em profissões que não demandam a qualificação profissional que tem no Brasil.” Segundo ela, parte desse grupo ocupa até postos que não exigem qualificação formal, como os setores de limpeza, transporte ou de alimentos.

FLUXO. O médico Carlos Eduardo Siqueira, professor da Universidade de Massachusetts, de Boston, diz que há migração significativa, mas acredita que os dados do são

superestimados. Nos Estados Unidos, pelos dados oficiais, há 1,7 milhão de brasileiros – 360 mil estão em Boston, atrás de (450 mil) e Miami (410 mil). Siqueira, porém, estima que a comunidade brasileira em Boston não supere 100 mil. “A imigração brasileira para os EUA é contínua, mas não é constante.” Para ele, o Brasil viveu fase similar de desalento e migrações na gestão Fernando Collor (1990-1992).

Já para Guilherme Otero, do programa da Organização Internacional para as Migrações das Nações Unidas, os dados do Itamaraty podem estar subestimados. Ele diz que muita gente sai de forma irregular. Ou vai para o exterior para ficar seis meses regulares, como no caso dos EUA, mas não retorna. Além disso, destaca, há brasileiros com dupla cidadania que, quando migram, preferem o direito de usar o passaporte da outra nacionalidade.

Para Pedro Brites, da FGV, o dinheiro escasso está por trás do êxodo. “A questão econômica é o fator propulsor para qualquer tomada de decisão desse tipo, e o Brasil não atravessa um período exitoso há alguns anos. Isso efetivamente tira a perspectiva de oportunidades para boa parte da população.”

As sucessivas crises políticas – agravadas desde a eleição do presidente Jair Bolsonaro, em 2018 – também pesam. “Essa turbulência afasta parte da população de nosso País”, afirma Brites, que aponta a falta de segurança pública como outro acelerador de despedidas.

Instalados

Entre os que trocaram de endereço há mais tempo, muitos dizem não se arrepender.

“Estou muito satisfeita”, conta a bióloga Bárbara, que abandonou tudo no Rio e foi viver com o marido e as duas crianças em Aveiro, região central de Portugal, no fim de 2017. “Migramos por causa da violência do Rio”, afirma. “Larguei tudo, meu trabalho, que eu amo, e me tornei uma migrante”, acrescenta ela, que vê a chegada de mais brasileiros. “E muita gente vem usando Portugal como porta de entrada na Europa.”

A paraense Suellen Vallaindhaim, de 26 anos, deixou o calor de Belém para morar em Trondheim, na gelada Noruega. Casada com um cidadão meio americano, meio norueguês, ela foi embora do Brasil no fim de 2018. Hoje, cria a filha de 2 anos nos fiordes do outro lado do mundo – e se vê cada vez mais acompanhada de conterrâneos. “Aqui também tem muitos brasileiros chegando.” Pelos dados do Itamaraty, a Noruega abriga 10.858 brasileiros. Somam-se a eles os 323 que vivem na Islândia, também atendidos pela Embaixada do Brasil em Oslo.

Suellen acaba de lançar uma loja de comércio virtual e estuda o complicado idioma norueguês. Para o futuro, quer fazer faculdade, mas não tem planos de voltar à terra natal. “Os primeiros meses foram muito difíceis, mas agora estou bem. Não penso em voltar, não.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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