O primeiro réu interrogado foi Elissandro Spohr, sócio da boate. Ele responde pela morte das 242 pessoas e 636 tentativas de homicídios que aconteceram naquela noite. O interrogatório foi marcado por fortes emoções, Elissandro chegou a entrar em desespero e começou a chorar após uma hora e meia de questionamentos. Ele pediu para ser preso.

“Eu estou cansado. Eu sei que perderam gente, mas eu perdi um monte de amigos, eu perdi funcionários, vocês acham que eu não tinha amigo lá? Acha que eu ia fazer uma coisa dessas, cara? Tu acha que o Marcelo [de Jesus, músico da banda que usou o artefato com o fogo] ia tentar apagar o troço se ele quisesse matar alguém. Tu acha que o Luciano [Bonilha, outro réu]? Por que eu ia fazer isso? E não é fingimento, eu não aguento mais cara, eu tava tremendo cara, eu estava sem ar, eu tive que ir lá pegar ar para pegar esse depoimento”, prosseguiu, interrompido pelo juiz que pediu um intervalo. 

Alguns familiares das 242 vítimas da tragédia assistiram na sala, e o réu chegou a virar a cadeira e falar diretamente para a plateia:
“Eu sei que vocês me odeiam, que vocês acham que eu matei, que eu queria machucar, acham que é fácil para mim? Não é fácil. Eu não consegui pedir desculpa, eu ia procurar quem? Eu ia falar com quem? (….) Pessoas que eram meus amigos, cheio de amigos, me mandaram mensagem me mandando me matar e eu ia me matar.” Uns pais chegaram a dizer que ele estaria fingindo e ‘fazendo cena’.

No dia do ocorrido, ele disse que inicialmente ajudou na retirada das pessoas, mas que entrou em desespero à medida que aumentava o número de mortos na casa noturna, na madrugada de 27 de janeiro de 2013.

“Eu não sabia o que fazer, onde eu ia, não tinha explicação, não tinha, não tinha explicação e aí eu escutei 30 pessoas [mortas] e eu cheguei a vomitar. E eu disse: ‘Meu Deus, cara, como morreu 30 pessoas, cara? E começou na rádio, aumentar, aumentar o número de pessoas [mortas]”, relatou.

Kiko, como é conhecido Elissandro, disse que também chegou a receber ameaças de mortes.

Dono nega ter autorizado uso de fogos

Quando questionado sobre a contratação da banda Gurizada Fandangueira, Kiko disse que não sabia que o grupo usava artefatos pirotécnicos em shows. “Eu não vi eles fazerem esse negócio, inclusive não vi ninguém fazer. Ninguém me falou também se fizeram”, disse. “É possível que nesse palco novo com as espumas tenha sido a primeira vez”, acrescentou.

Disse também que a relação de negociação com as apresentações era com Danilo Jaques, o gaiteiro da banda, que morreu no incêndio. Segundo o proprietário, ele não pediu autorização do uso de artefatos pirotécnicos, nem avisou das mudanças nas reformas à banda. “Não tive essa conversa com eles e acho que eles realmente imaginavam que esse tareco não pegava fogo”, afirma, e conclui dizendo que mesmo se fosse consultado, provavelmente não permitiria devido às cortinas próximas ao palco.

O julgamento que já é considerado o maior do estado, está previsto para encerrar entre sábado e domingo desta semana.

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