Andrea Brunetto fala sobre descobertas de uma viajante em texto

 

 

No último ano adquiri um gosto de assistir os seriados do Netflix. Interesso-me, sobretudo, pelos europeus. Adoro os produzidos pela BBC de Londres. No momento, estou assistindo Wallander. Kenneth Branagah, esse ator estupendo, interpreta o investigador Kurt Wallander, personagem criado por Henning Mankell, escritor sueco mais traduzido no mundo todo. 

As estórias de investigações são ambientadas na cidade de Ystad, cidade sueca, porto no Mar Báltico que recebe muitos navios e ferrys transportando passageiros dos outros países que contornam esse mar. Wallander mora em uma casa à beira desse mar de ondas fortes e ventos frios. Senta-se em uma cadeira na varanda e tendo o Báltico como cenário, pensa, pensa e decifra os assassinatos, enquanto seu cachorro corre na praia. Em muitas cenas, anda de carro por estradas que contornam o mar. O Báltico é um belo personagem nesse seriado. Já fui à Suécia, mas não conheci Ystad, nem sabia sobre essa cidade. Mas já naveguei pelo Báltico, não ali, nas proximidades da Suécia, mais ao norte. Eu o atravessei saindo da Finlândia e chegando à Estônia. 

A Catedral de Helsinque, antes ela se chamava Catedral de São Nicolau, para homenagear o Czar russo Nicolau. Em 1917, quando eles escaparam do dominio russo, mudaram o nome

 

Nos episódios que Wallander investiga, as drogas entram no país pelo Báltico, os traficantes vêm da Polônia; as prostitutas que atuam no país vêm da Polônia. Atravessam o Mar Báltico de ferry e chegam a Ystad. O povo pobre, polonês, chega à cidade e passa a viver nas periferias, em trailers, vivendo de subempregos, as jovens polonesas se prostituindo. E os políticos e empresários ricos, quando querem fazer uma farra ou algo ilegal ou inaceitável pela moral sueca, o fazem do outro lado do Báltico. Isso eu já sabia, descobri quando peguei, com uma amiga, o ferry Tallink Silja Line e numa travessia de duas horas e meia, entendi muitas coisas. 

Em um verão europeu, anos atrás, deixei São Petersburgo de trem e cerca de três horas depois, cheguei a Helsinque, na Finlândia. Fui com o Allegro, o novo trem de alta velocidade, que o governo finlandês construiu para ligar as duas cidades. Muitos cidadãos finlandeses trabalham na Rússia e usam esse trem. Mas turistas também o usam. Novo, moderno, confortável, com wifi e fones em todas as poltronas. 

A Catedral Alexandre Nevsky, também um símbolo do dominio russo. Na cidade medieval de Tallinn / Foto: DivulgaçãoHelsinque é uma cidade bonita, cheia de praças, de parques e rios, e patos andando pelos parques. E carros que não poluem e outras modernidades tecnológicas. Mas percebi, sobretudo, com muitas flores: canteiros de flores por todos os lugares. Pessoas educadíssimas, que falam uma língua em que nenhum som ou palavra lembra nenhuma outra que eu já tivesse ouvido na vida. Mas falam inglês e tudo se entende. Se você abre um mapa, procurando uma rua ou um ponto turístico – faço isso muito, gosto de abrir meus mapas, que às vezes levo já do Brasil, grandes e coloridos de preferência, que imprimi do google ou xerocopiei de alguma enciclopédia – surge alguém para te ajudar. Não precisa pedir. Como dizer ‘eu gosto de olhar os mapas, não estou perdida, eu me encontro’ para alguém que quer te ajudar? Impossível. Seria falta de educação. Então, eu e minhas amigas, éramos levadas de cá para lá, nos lugares aonde queríamos ir, pelos tão solícitos habitantes da cidade. 

A população é, sobretudo, branca, esguia, alta. Não são especialmente bonitos, nem feios. O mesmo posso dizer da cidade. Há cidades e países que me causam profunda impressão e outros não, em que ir uma vez já está bem. Para esses, digo: já dei por visto. A cidade de Helsinque já dei por vista. Mas ela tinha para mim um interesse especial. Estava lá por um motivo que só ficou realmente claro lá, em solo finlandês. Há anos amei um homem europeu – revendo isso agora, parece que foi em tempo longínquo, em outra era – com ele visitei algumas cidades e planejamos visitar outras, às quais nunca fomos. O fim do amor é como a explosão de uma bomba, tudo se estilhaça e cacos ficam soltos, esparramados pela vida. É o fim de uma era. Esse homem falava alguns idiomas do Leste Europeu e era mandado a trabalho para suas cidades. Entre as cidades que ele mais gostava de ir, estava Tallinn, na Estônia, país do Báltico que fazia parte da URSS. As fotos que me mandava de Tallinn eram lindas, com uma cidade medieval e torres e sempre ao fundo, o Mar Báltico. Planejávamos ir juntos lá. Não deu. Tallinn ficou para mim como uma cidade à qual não fui, com esse homem com o qual nunca mais iria estar, enviscada no impossível de um amor. 

O ferry Tallink que eu e Lea pegamos para ir a Tallinn

 

Sabia, desde o começo da viagem, que tinha várias cidades no roteiro, que quando estivesse em Helsinque, era só pegar um barco e atravessar o Báltico em seu trajeto mais estreito, que era exatamente ali, duas horas e meia e chegaria a Tallinn. Vou ou não vou? Vou ou não vou? Estava na dúvida até pisar em Helsinque. Foi chegar à estação de Helsinque e disse a minhas amigas: tenho que descobrir como ir ao porto e comprar passagem para Tallinn. Fui. Só uma amiga quis ir comigo. 

Não me surpreendi com a cidade. Linda como nas fotos, com uma cidadela medieval toda preservada, pequena, plana, mas também com um lado moderno, progressista. A capital de um país pequeno, uma cidade pequena, à beira mar, fresca, que foi dominada pelos russos e tinha muitos monumentos e igrejas que não deixavam esquecer esse domínio. Dou um exemplo, uma construção muito bonita, na cidade medieval: a Catedral Alexandre Nevsky, que leva o nome de um duque russo. Para muitos estonianos é um símbolo da política de russificação do Czar Alexandre III.

Eu e Léa, atravessando o Mar Báltico / Foto: Divulgação

 

Entrar no ferry não foi simples. Percebi um grupo enorme de um motoclube embarcando, muitos carros entrando em vários andares do ferry, e as pessoas que iriam sem carros ou motos entravam por uma rampa, apresentando passaporte, com policiais e cachorros que passavam cheirando tudo. Eu e Léa embarcamos. Um ferry enorme com bares, freeshoppings, restaurantes. Propaganda de venda de bebidas por tudo que é lugar. Meia hora de viagem começada e um grupo de motoqueiros sentou-se próximo a nós, os homens todos carregados de bebidas. Estou conversando com um senhor que me conta que já foi marinheiro e trabalhava em uma empresa que fazia comércio com a Argentina.

Conversamos em espanhol. Falava um espanhol com sotaque portenho e me contou que há um controle rígido em toda a Finlândia para o consumo e compra de bebidas, uma pessoa só pode comprar um numero restrito de garrafas por semana (eu lembrava a quantidade, mas agora esqueci), por isso grupos de homens, como esse grupo de motoqueiros, ou mesmo grupos de jovens, vinham passar o final de semana em Tallinn, para beber o quanto quisessem. E não só isso. Eu perguntei o que ele queria dizer, nessa parte foi muito comedido, mas me disse o seguinte: muitos homens têm namoradas em Tallinn. Não sei se a palavra que ele queria dizer era bem namorada. Contou-me, também, que têm vários hotéis, resorts, estações de água, em que finlandeses vêm passar o final de semana. Esse dia era um sábado e ao final da tarde, depois de um dia andando por Tallinn, eu e minha amiga voltamos e vimos no ferry muitos passageiros que tinham ido de manhã, voltando agora carregados de bebidas, algumas famílias arrastavam um carrinho com engradados de whiskey e cervejas.

Vou fazer uma analogia: para os finlandeses, a Estônia parece ser um pouco como o Paraguai é para nós. Os que moram no Mato Grosso do Sul e de vez em quando vão a Casa China entenderão perfeitamente. Com a diferença que aqui, bebe-se o que se quer, quanto se quer e ninguém te impede o consumo. Quando muito você é impedido de consumir enquanto dirige. E olha lá. 
Ano passado, li a resenha de uma nova escritora finlandesa, cujo novo livro estava sendo muito comentado, pois sua personagem apresentava um quadro grave de bulimia. Comprei As vacas de Stalin, de Sofi Oksanen e a personagem era filha de um pai finlandês e uma mãe estoniana e muitas histórias dessa relação entre as duas cidades, e países, estão descritas lá. Essa viagem contornando o Báltico foi para mim uma aula de história, de como os países ricos tratam seus vizinhos pobres, do outro lado da fronteira. Quanto ao título do romance de Oksanen, para os que não entenderam, as vacas de Stalin é mais ou menos como as polonesas em Ystad, como estava descrevendo no começo. 

Então, muito se diz que os finlandeses são os mais estudados do mundo, educados, não andam embriagados pelas ruas, etc, mas se vocês quiserem saber a verdade de como eles são, perguntem aos estonianos, vão a Tallinn e vocês vão descobrir. Fui conhecer uma cidade onde achava que iria me sentir nostálgica por causa de um amor do passado e descobri que o amor já tinha virado pó há muito tempo. Esse caco sobrado da explosão do amor, enterrei lá, no Báltico. Mas descobri uma história que não estava em nenhum guia de turismo e que fez a viagem valer a pena.  

*Andréa Brunetto é formada em psicologia e atua como psicanalista. É membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, funda­dora do Ágora Instituto Lacaniano de Campo Grande e autora de “Sobre amores e exílios” (Editora Escuta, 2013). Colabora com o MidiaMAIS às quartas-feiras.