Política / Transparência

Prefeitura de Sidrolândia gasta R$ 189,8 mil em medicamentos sem eficácia contra Covid-19

É o terceiro município a investir em tratamento sem efetividade

Adriel Mattos Publicado em 12/04/2021, às 18h15

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Foto: MS Negócios

A prefeitura de Sidrolândia, cidade na região central do Estado, adquiriu R$ 189,8 mil em medicamentos que compõem o chamado “kit Covid” do suposto “tratamento precoce”, conjunto de remédios que não tem eficácia no tratamento da Covid-19. O extrato foi publicado na edição desta segunda-feira (12) do Diário Oficial da Assomasul (Associação dos Municípios de Mato Grosso do Sul).

A compra foi feita sem licitação, autorizada pela prefeita interina Vanda Camilo (PP). Foram adquiridos 50 mil comprimidos de azitromicina, por R$ 67 mil, da empresa Dimaster Comércio de Produtos Hospitalares; e 20 mil comprimidos de hidroxicloroquina, por R$ 55,8 mil, da F&F Distribuidora de Medicamentos.

Da Manipulle Farmácia de Manipulação, foram comprados 5 mil cápsulas de colecalciferol, por R$ 35 mil; 30 mil cápsulas de zinco, por R$ 3 mil; 20 mil comprimidos de ivermectina, por R$ 9 mil; 80 mil comprimidos de vitamina C, por R$ 8 mil e 80 mil comprimidos de prednisona, por R$ 12 mil.

A prefeitura ainda não divulgou como se dará a distribuição dos medicamentos, se por entrega direta após solicitação ou apenas com receita médica.

Sidrolândia é o único município do Estado que está com bandeira cinza na última classificação do Prosseguir (Programa de Saúde e Segurança da Economia), com alto risco de transmissão. Nesse caso, apenas serviços essenciais devem funcionar.

Conforme a SES (Secretaria de Estado de Saúde), a cidade já registrou 4.283 casos e 96 mortes pela doença causada pelo novo coronavírus. O hospital local já enfrenta há várias semanas superlotação em todas as alas.

Mais uma

Com Sidrolândia, três municípios apostam em medicamentos sem eficácia para tratar pacientes com Covid-19. Desde o mês passado, Rio Verde de Mato Grosso do Sul distribui ivermectina à população.

Em nota, a administração informou que “resolveu encarar o problema também por meio do uso de ivermectina como tratamento preventivo”.

“Ninguém é obrigado a tomar, porém eu faria o uso sem pensar duas vezes, ainda mais com essa atitude nobre da Prefeitura em distribuir gratuitamente”, disse o médico Luiz Eugênio Engleitner durante reunião com vice-prefeito, Réus Fornari. Foram gastos R$ 30 mil na compra.

Na semana passada, Maracaju liberou a prescrição do conjunto de remédios. Porém, o paciente deve assinar um termo de ciência e responsabilidade, assumindo riscos por qualquer efeito colateral.

O prefeito Marcos Calderan (PSDB) foi procurado pelo Jornal Midiamax, mas não foi encontrado.

Perigosos e ineficazes

No início da pandemia, o kit de medicamentos passou a ser indicado para tratar a doença, mas ao longo dos meses, ficou demonstrada a ineficácia da prescrição.

Ainda em 2020, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) anunciou que a ivermectina não é recomendada para combater o novo coronavírus, por ser ineficaz. E em fevereiro deste ano, a farmacêutica Merck, desenvolvedora do medicamento, informou que não há dados que sustentem o uso contra a Covid-19.

A AMB (Associação Médica Brasileira) defendeu no mês passado o banimento da hidroxicloroquina/cloroquina, ivermectina, nitazoxanida, azitromicina e colchicina no combate à doença, por também não terem eficácia. Mortes pelo uso indiscriminado já foram registradas.

Ainda em março, o Hospital das Clínicas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) anunciou o primeiro caso de hepatite medicamentosa relacionado ao uso do kit de medicamentos. O paciente de 50 anos, atleta, não tem comorbidades.

“Ele chegou com uma síndrome de doença hepática pós-Covid, mas quando analisamos, vimos que não se enquadrava muito bem na síndrome. Tinha alterações específicas e analisamos a biópsia. Era, na verdade, uma hepatite medicamentosa que causou a destruição dos dutos biliares, e o paciente tinha usado somente, nos últimos quatro meses, remédios do ‘kit Covid’”, disse ao G1 Campinas e Região a professora e médica da unidade de transplante hepático do HC, Ilka Boin.

Jornal Midiamax